Num mês dominado pela guerra comercial, o Ibovespa reagiu à temperatura no exterior
O Ibovespa teve uma semana bastante positiva, mas ainda fechou o mês com perdas acumuladas de 0,67%, influenciado pelas oscilações no clima da guerra comercial

Agosto foi um mês com temperaturas voláteis em São Paulo. Tivemos dias de muito frio e de muito calor — para mim, termômetros abaixo de 10 ºC ou acima de 30 ºC já caracterizam climas extremos. E, muitas vezes, essas oscilações bruscas ocorreram do dia para a noite, pegando todo mundo de surpresa.
De certa maneira, os mercados financeiros também tiveram que lidar com uma amplitude térmica elevada neste mês. As idas e vindas na guerra comercial elevaram a aversão ao risco e trouxeram volatilidade aos ativos globais — e o Ibovespa e o dólar à vista foram diretamente afetados pelo clima no mundo.
O principal índice da bolsa brasileira, por exemplo, oscilou dentro de uma faixa relativamente ampla: em termos intradiários, o Ibovespa chegou a tocar os 104.848,18 pontos em 9 de agosto, mas também bateu os 95.855,30 pontos no dia 27 — uma banda de quase nove mil pontos.
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Nesta sexta-feira (30), o Ibovespa registrou ganhos de 0,61%, fechando aos 101.134,61 pontos. Com isso, o índice acumulou ganhos de 3,55% apenas nesta semana, mas esse desempenho não foi suficiente para zerar as perdas no mês: a carteira encerrou agosto com uma perda de 0,67%.
E toda essa oscilação — para cima ou para baixo — se deve às constantes mudanças na temperatura da guerra comercial. Quando as tensões entre Estados Unidos e China aumentaram, o índice brasileiro e as bolsas globais foram para baixo; quando os atritos diminuíram, os mercados acionários se recuperaram.
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Já o dólar à vista não se mostrou tão responsivo às frentes frias que trouxeram alívio às bolsas. A moeda americana até caiu 0,68% hoje, a R$ 4,14,25, mas fechou agosto com um ganho acumulado de 8,45%. No mercado de câmbio, a temperatura foi às máximas e não desceu mais.
Aquecimento global
O mês começou com uma onda de calor atingindo que pegou os mercados despreparados: logo em primeiro de agosto, o presidente americano, Donald Trump, anunciou a imposição de tarifas de 10% sobre US$ 300 bilhões em produtos importados da China, no âmbito das disputas comerciais entre os dois países.
A nova sobretaxa trouxe uma onda de pessimismo aos agentes financeiros, uma vez que já havia a percepção de que a guerra comercial estaria tirando força da economia global. E, de fato, as coisas esquentaram ainda mais a partir daí.
A escalada nas tensões foi gradual: num primeiro momento, o yuan começou a perder força em relação ao dólar, movimento que foi entendido como uma espécie de retaliação por parte do governo de Pequim, uma vez que a desvalorização da moeda chinesa tende a aumentar a competitividade das exportações do gigante asiático.
Num segundo instante, dados econômicos da China e da Alemanha mostraram que as economias dos dos países já estavam perdendo tração, o que trouxe calafrios aos mercados. Mas não parou por aí: na semana passada, a China contra-atacou e também anunciou tarifas a serem aplicadas sobre as importações americanas.
E, é claro, Trump não deixou barato: elevou ainda mais as sobretaxas a serem aplicadas sobre os produtos chineses. Esses constantes atritos entre Estados Unidos e China acabaram gerando faíscas e incendiaram os mercados.
Dilatações e contrações
Do mesmo jeito que uma barra de ferro contrai e dilata de acordo com a temperatura, as bolsas também reagem diretamente aos termômetros. Só que, no caso dos mercados acionários, a relação é inversa: quanto mais quente a temperatura da guerra comercial, mais contraídas ficam as bolsas — e vice-versa.
Assim, o Ibovespa e as bolsas americanas passaram o mês reagindo ao noticiário referente às disputas entre Estados Unidos e China: sinalizações mais agressivas de Trump ou do governo chinês jogavam os ativos para baixo, e indicações mais amenas faziam os investidores partirem para a compra.
Com isso, o principal índice da bolsa brasileira teve um mês de altos e baixos, perdendo o nível dos 100 mil pontos no meio do mês e chegando a tocar os 95 mil pontos no momento de maior tensão. Mas, nesta semana, as sinalizações mais amenas de americanos e chineses abriram espaço para uma certa recuperação nos ativos.
Afinal, tanto Trump quanto as autoridades da China mostraram-se mais abertas ao diálogo, como se quisessem mostrar ao mundo que não estão dispostos a entrar numa espiral crescente de tensão. Com isso, tanto o Ibovespa quanto as bolsas americanas conseguiram registrar ganhos nesta semana.
"Lá fora, os mercados ficaram muito estressados nesse mês, em meio à tensão na guerra comercial e aos riscos de desaceleração global", diz Rafael Passos, analista da Guide Investimentos. "Mas os discursos mais conciliadores dos últimos dias trouxeram mais alívio aos ativos de risco".
Dólar febril
Já o mercado de câmbio não teve alívio: para o dólar, o crescimento da aversão ao risco foi um caminho sem volta. A moeda americana, afinal, saiu do nível de R$ 3,80 no início do mês e chegou a tocar os R$ 4,19 nesta semana, voltando aos patamares de setembro do ano passado.
Toda essa pressão no câmbio se deve, em grande parte, à postura dos agentes financeiros em meio às tensões na guerra comercial. O crescimento na aversão ao risco se traduziu num movimento de fuga dos ativos mais arriscados, como as moedas de países emergentes, em busca de opções mais seguras, como o dólar.
Mas, enquanto as bolsas conseguiam se recuperar com as sinalizações mais amenas no front das disputas comerciais, o dólar seguiu pressionado. Trata-se de uma estratégia calculada: por um lado, o clima menos tenso abre espaço para aumentar a exposição às ações, mas, por outro, a incerteza quanto ao futuro faz com que o mercado permaneça posicionado no dólar.
Em outras palavras: a moeda americana serve como proteção — caso a aposta nas ações dê errado porque a guerra comercial voltou a pegar fogo, o dólar funcionará como um 'hedge'.
E, em meio à escalada do dólar, o Banco Central (BC) começou a atuar de maneira mais incisiva no câmbio. Fazendo jus às declarações de que não tinha problema em adotar mecanismos variados para corrigir disfuncionalidades no mercado, a autoridade tirou algumas cartas da manga ao longo de agosto.
A principal delas foi a realização de um leilão surpresa de dólares no mercado à vista, algo que não era visto desde 2009. Ao promover uma operação sem aviso prévio, o BC colocou os investidores que apostavam na alta do dólar em estado de alerta, já que não é possível prever quando — ou se — a autoridade irá inundar o mercado com dólares.
Calor argentino
Por fim, o noticiário referente ao país vizinho também contribuiu para dar um suadouro nos mercados: a vitória de Alberto Fernández, candidato de oposição, nas prévias presidenciais da Argentina — e com ampla vantagem — provocou uma onda de pessimismo nos mercados em relação aos portenhos.
A incerteza quanto às políticas econômicas a serem adotadas por Fernández fez com que tanto o Merval — principal índice acionário do país — quanto o peso argentino fossem duramente castigados ao longo do mês. E, nesta semana, o governo portenho anunciou que iria renegociar as dívidas com o FMI, confirmando os temores dos agentes financeiros.
E o pregão de hoje?
Boa parte dos ganhos do Ibovespa foram sustentados pelas ações da Vale e das siderúrgicas , que apareceram no campo positivo e recuperam parte das fortes perdas acumuladas em agosto. Os ativos foram beneficiados pela recuperação nos preços do minério de ferro: a commodity subiu 3,92% na China.
Os papéis ON da mineradora (VALE3), por exemplo, sustentaram ganhos de 1,04%. Gerdau PN (GGBR4) e Usiminas PNA (USIM5) avançaram 2,71% e 3,27%, respectivamente. No acumulado do mês, contudo, esses ativos ainda tiveram perdas superiores a 5%.
Outro destaque do Ibovespa ficou com os papéis PN das Lojas Americanas (LAME4), que fecharam em alta de 4,00%. A empresa assinou um memorando de entendimento com a BR Distribuidora para avaliar uma parceria estratégica na gestão das lojas de conveniência dos postos.
Fora do índice, destaque para as units do Banco Inter (BIDI11), que fecharam em baixa de 0,13%, aR$ 61,12, apesar de o BTG Pactual ter elevado o preço-avo para os ativos, de R$ 47,00 para R$ 74,00.
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