Ação da Oncoclínicas (ONCO3) salta mais de 57% na B3 após atrair mais um gigante: Fleury (FLRY3) pode entrar em parceria bilionária com a Porto (PSSA3)
Operação envolve transferência de ativos e dívidas para nova empresa sob controle dos investidores; saiba o que esperar do potencial negócio

A Oncoclínicas (ONCO3) tem mais um interessado em sua rede de clínicas de tratamentos oncológicos. Depois de colocar na mesa uma potencial parceria bilionária com a Porto (PSSA3), a empresa agora atraiu o interesse de mais um nome relevante do setor de saúde: o Fleury (FLRY3), que decidiu entrar nas negociações como possível co-investidor da operação.
Na manhã desta segunda-feira (23), o Fleury informou ao mercado que aderiu ao termo de compromisso não vinculante originalmente firmado entre Oncoclínicas e Porto — um documento que estabelece as bases para uma potencial reorganização envolvendo a criação de uma nova empresa.
O mercado reagiu positivamente ao anúncio e as ações encerram o dia em alta disparada de 57,05%, a R$ 2,45. No ano, porém, há queda de quase 10%.
Os papéis da Porto (PSSA3) subiram 3,75%, cotados a R$ 49,23 na B3, enquanto Fleury (FLRY3) avançaram 4,69%, a R$ 15,61.
- Reportagem especial: Oncoclínicas (ONCO3) tenta mais um resgate — agora com a Porto — enquanto perde CFO que lideraria o turnaround
O desenho financeiro da operação entre Oncoclínicas, Porto e Fleury
A proposta prevê a constituição de uma “NewCo”, na qual seriam concentradas as operações de clínicas oncológicas — o coração do negócio da Oncoclínicas (ONCO3).
Para essa nova estrutura, a companhia transferiria ativos, operações e também parte relevante de suas dívidas, em um montante que pode chegar a R$ 2,5 bilhões. A cifra inclui parcelamentos de fuões e aquisições (M&A), tributários, com fornecedores e outros instrumentos de endividamento financeiro.
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Alguns ativos estratégicos ficariam de fora da transação. Entre eles estão os hospitais da Oncoclínicas e a operação internacional da companhia na Arábia Saudita, que permaneceriam diretamente sob o controle da empresa.
Do outro lado da mesa, Porto e Fleury entrariam com capital novo — e potencialmente com o controle.
Pelo modelo em discussão, as empresas investiriam conjuntamente R$ 500 milhões na NewCo por meio de uma holding, da qual seriam os únicos acionistas. Essa estrutura lhes daria o controle da nova empresa.
"As participações de cada parte no capital social da HoldCo [da nova holding], bem como as regras de governança aplicáveis à relação entre elas na qualidade de acionistas da HoldCo, serão oportunamente definidas por Fleury e Porto", escreveu a empresa, em comunicado ao mercado.
Mas esse seria apenas o primeiro passo. A operação prevê ainda a emissão de debêntures conversíveis em ações, no valor total de R$ 500 milhões.
Esses papéis poderiam ser adquiridos pela própria holding, pela Porto ou pelo Fleury — com a possibilidade de a Oncoclínicas participar em até 30% dessa tranche.
As debêntures teriam prazo de 48 meses, remuneração equivalente a 110% do CDI e poderiam ser convertidas em ações a partir do 36º mês — ou antes, em caso de evento de liquidez.
Na prática, o arranjo cria uma combinação de capital imediato e financiamento futuro, permitindo que os novos investidores aumentem sua participação ao longo do tempo.
Nas contas da Porto, se a operação for adiante, o investimento não seria considerado relevante em termos financeiros, já que representaria um montante equivalente a apenas aproximadamente 3,1% do patrimônio líquido da seguradora.
Nada está garantido — ainda
Apesar do avanço nas negociações, o acordo segue em fase preliminar. O documento assinado tem caráter não vinculante e depende de uma série de etapas para sair do papel. Entre elas:
- Aprovações internas de todas as partes envolvidas;
- Conclusão de auditoria na Oncoclínicas, com resultados satisfatórios para Fleury e Porto;
- Assinatura dos documentos definitivos, que vão consolidar os termos da operação.
Além disso, mesmo após essa etapa, a transação ainda precisará passar por aprovações regulatórias e outras condições usuais de mercado.
Há também um relógio correndo: a Oncoclínicas concedeu exclusividade de 30 dias — contados a partir de 13 de março de 2026 — para que Fleury e Porto negociem os termos finais.
Mercado gostou da notícia? O que dizem os analistas
Na leitura do Itaú BBA, à primeira vista, a transação parece "estrategicamente consistente" com a ambição do Fleury de expandir para segmentos de maior complexidade e crescimento mais acelerado, como oncologia.
Vale lembrar que a companhia já possui uma joint venture em andamento com Bradesco Saúde e Beneficência Portuguesa.
Para os analistas, a possível migração das clínicas de oncologia da Oncoclínicas para uma NewCo poderia exigir novos credenciamentos com operadoras de saúde e colocar em risco acordos de exclusividade atualmente mantidos pela empresa hoje. "Isso pode ser desafiador, dado o ambiente mais difícil observado no setor", dizem.
Segundo o banco, algumas incertezas "impedem que tenhamos uma visão mais clara da transação".
"Primeiro, ainda não sabemos quanto do Ebitda da Oncoclínicas será transferido para a NewCo e se isso poderia ser parcialmente afetado pela possível perda de credenciamentos atuais", afirmam os analistas.
"Adicionalmente, a avaliação implícita da transação permanece desconhecida, especificamente a participação correspondente ao investimento conjunto de R$ 500 milhões", acrescentam.
Já o JP Morgan avalia que, para a Oncoclínicas, a transação permanece "essencialmente uma reestruturação impulsionada pelo balanço", com o preço das ações altamente sensível à decisão final de quanto da dívida será alocada na NewCo e quanto continuará retido na empresa-mãe.
"Embora a entrada de dois parceiros estratégicos melhore a visibilidade de execução e apoie a continuidade do negócio em meio às recentes pressões de liquidez, ainda há transparência limitada sobre a estrutura final de capital", avalia o banco norte-americano.
Já para a Fleury, o negócio representaria um salto de escala na incursão da companhia no segmento de oncologia, segundo os analistas.
Isso porque "fortaleceria seu posicionamento em um segmento estruturalmente crescente e de maior complexidade, com potencial para gerar volumes incrementais de diagnósticos avançados e aprofundar a integração ao longo da jornada de cuidado oncológico".
"Embora detalhes de execução e governança ainda estejam pendentes, a tese industrial é clara, com alocação de capital relativamente contida e potencial de melhoria no mix de receitas no médio prazo", afirma o JP Morgan.
O banco avalia que a entrada da Fleury como parceira operacional também deve ajudar a perspectiva para a Porto, já que reduz o risco de execução e a intensidade de capital em relação a uma estrutura independente, ao mesmo tempo em que agrega expertise operacional ao ativo.
Para Harold Takahashi, sócio da Fortezza Partners, a entrada do Fleury na operação "é um golaço". Afinal, a empresa deve assumir a posição de executor da prestação de serviço, enquanto a Porto entraria com dinheiro, direcionamento de clientes e fonte pagadora.
"Tem muita sinergia operacional", avalia Takahashi. "A entrada do Fleury tira uma nuvem preta sobre como a Porto tocaria esse negócio no dia seguinte. Então a operação deveria ser benéfica para todo mundo."
Para o especialista em fusões e aquisições (M&As), o negócio é "oportunístico". Afinal, a Oncoclínicas tem uma rede grande de unidades ambulatoriais.
Segundo ele, os problemas lá eram "a dívida, os hospitais, que não vão fazer parte do negócio, e uma questão de sucessão de gestão, com uma dificuldade de a empresa evoluir para uma governança mais forte para fazer de frente aos desafios de mercado", avalia.
A urgência por trás da negociação na Oncoclínicas (ONCO3)
A Oncoclínicas atravessa um momento turbulento, marcado por pressão financeira e necessidade de reequilibrar sua estrutura de capital.
Nas últimas semanas, a companhia entrou em negociações com credores e convocou assembleias de debenturistas para discutir a possibilidade de um waiver — uma dispensa temporária do cumprimento de covenants financeiros.
Na prática, isso significa pedir autorização prévia para descumprir limites de alavancagem, caso necessário — um sinal de estresse no balanço, segundo especialistas.
Além disso, recentemente, a Fitch Ratings rebaixou a nota nacional de longo prazo da companhia para C(bra) — um patamar que indica risco de crédito muito elevado e possibilidade de inadimplência. Trata-se do segundo rebaixamento da empresa pela Fitch apenas neste mês.
Na avaliação da agência, um dos principais fatores por trás da decisão foi o início das negociações da companhia com credores para suspender temporariamente pagamentos de principal e juros da dívida.
A pressão financeira também deve aparecer nos números do próximo balanço, segundo os analistas. A empresa deve divulgar os resultados do quarto trimestre de 2025 (4T25) no dia 30 de março, após o fechamento do mercado.
Nas estimativas da agência, a Oncoclínicas deve encerrar 2025 com menos de R$ 100 milhões em caixa, enquanto o cronograma de dívida prevê vencimentos robustos nos anos seguintes — cerca de R$ 745 milhões em 2026 e R$ 810 milhões em 2027.
Além da estrutura de capital pressionada, a Fitch aponta outros fatores que continuam pesando sobre o desempenho financeiro da empresa, como necessidade elevada de capital de giro, despesas financeiras crescentes e dificuldades para retomar um ritmo consistente de crescimento operacional.
Diante desse cenário, a potencial parceria com Porto e Fleury deixa de ser apenas uma alternativa estratégica — e passa a ser parte central do plano de sobrevivência.
Se avançar, a operação pode permitir à Oncoclínicas reorganizar suas operações, atrair capital novo e, principalmente, ganhar tempo.
Porém, a potencial parceria não é uma "bala de prata" para a Oncoclínicas, na visão do mercado. Afinal, a proposta surge após uma sequência de iniciativas que não conseguiram consolidar a recuperação da companhia, enquanto mercado se questiona: agora vai?
O Seu Dinheiro conversou com profissionais do mercado de capitais para entender as perspectivas para o negócio — e se ainda há caminho para a recuperação. Veja os detalhes nesta reportagem especial.
*Com informações do Money Times.
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