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Camille Lima

Camille Lima

Jornalista formada pela Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS), em 2025 foi eleita como uma das 50 jornalistas mais admiradas da imprensa de Economia, Negócios e Finanças do Brasil. Já passou pela redação do TradeMap. Hoje, é repórter de bancos e empresas no Seu Dinheiro. A cobertura atual é majoritariamente centrada no setor financeiro (bancos, instituições financeiras e gestoras), em companhias maiores listadas na B3 e no mercado de ações.

PARCEIROS DE PESO

Ação da Oncoclínicas (ONCO3) salta mais de 57% na B3 após atrair mais um gigante: Fleury (FLRY3) pode entrar em parceria bilionária com a Porto (PSSA3)

Operação envolve transferência de ativos e dívidas para nova empresa sob controle dos investidores; saiba o que esperar do potencial negócio

Camille Lima
Camille Lima
23 de março de 2026
9:27 - atualizado às 19:17
Fachada da Oncoclínicas (ONCO3)
Fachada da Oncoclínicas (ONCO3). - Imagem: Divulgação

A Oncoclínicas (ONCO3) tem mais um interessado em sua rede de clínicas de tratamentos oncológicos. Depois de colocar na mesa uma potencial parceria bilionária com a Porto (PSSA3), a empresa agora atraiu o interesse de mais um nome relevante do setor de saúde: o Fleury (FLRY3), que decidiu entrar nas negociações como possível co-investidor da operação.

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Na manhã desta segunda-feira (23), o Fleury informou ao mercado que aderiu ao termo de compromisso não vinculante originalmente firmado entre Oncoclínicas e Porto — um documento que estabelece as bases para uma potencial reorganização envolvendo a criação de uma nova empresa.

O mercado reagiu positivamente ao anúncio e as ações encerram o dia em alta disparada de 57,05%, a R$ 2,45. No ano, porém, há queda de quase 10%.

Os papéis da Porto (PSSA3) subiram 3,75%, cotados a R$ 49,23 na B3, enquanto Fleury (FLRY3) avançaram 4,69%, a R$ 15,61.

O desenho financeiro da operação entre Oncoclínicas, Porto e Fleury

A proposta prevê a constituição de uma “NewCo”, na qual seriam concentradas as operações de clínicas oncológicas — o coração do negócio da Oncoclínicas (ONCO3).

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Para essa nova estrutura, a companhia transferiria ativos, operações e também parte relevante de suas dívidas, em um montante que pode chegar a R$ 2,5 bilhões. A cifra inclui parcelamentos de fuões e aquisições (M&A), tributários, com fornecedores e outros instrumentos de endividamento financeiro.

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Alguns ativos estratégicos ficariam de fora da transação. Entre eles estão os hospitais da Oncoclínicas e a operação internacional da companhia na Arábia Saudita, que permaneceriam diretamente sob o controle da empresa. 

Do outro lado da mesa, Porto e Fleury entrariam com capital novo — e potencialmente com o controle.

Pelo modelo em discussão, as empresas investiriam conjuntamente R$ 500 milhões na NewCo por meio de uma holding, da qual seriam os únicos acionistas. Essa estrutura lhes daria o controle da nova empresa.

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"As participações de cada parte no capital social da HoldCo [da nova holding], bem como as regras de governança aplicáveis à relação entre elas na qualidade de acionistas da HoldCo, serão oportunamente definidas por Fleury e Porto", escreveu a empresa, em comunicado ao mercado.

Mas esse seria apenas o primeiro passo. A operação prevê ainda a emissão de debêntures conversíveis em ações, no valor total de R$ 500 milhões.

Esses papéis poderiam ser adquiridos pela própria holding, pela Porto ou pelo Fleury — com a possibilidade de a Oncoclínicas participar em até 30% dessa tranche.

As debêntures teriam prazo de 48 meses, remuneração equivalente a 110% do CDI e poderiam ser convertidas em ações a partir do 36º mês — ou antes, em caso de evento de liquidez.

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Na prática, o arranjo cria uma combinação de capital imediato e financiamento futuro, permitindo que os novos investidores aumentem sua participação ao longo do tempo.

Nas contas da Porto, se a operação for adiante, o investimento não seria considerado relevante em termos financeiros, já que representaria um montante equivalente a apenas aproximadamente 3,1% do patrimônio líquido da seguradora.

Nada está garantido — ainda

Apesar do avanço nas negociações, o acordo segue em fase preliminar. O documento assinado tem caráter não vinculante e depende de uma série de etapas para sair do papel. Entre elas:

  • Aprovações internas de todas as partes envolvidas;
  • Conclusão de auditoria na Oncoclínicas, com resultados satisfatórios para Fleury e Porto;
  • Assinatura dos documentos definitivos, que vão consolidar os termos da operação.

Além disso, mesmo após essa etapa, a transação ainda precisará passar por aprovações regulatórias e outras condições usuais de mercado.

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Há também um relógio correndo: a Oncoclínicas concedeu exclusividade de 30 dias — contados a partir de 13 de março de 2026 — para que Fleury e Porto negociem os termos finais.

Mercado gostou da notícia? O que dizem os analistas

Na leitura do Itaú BBA, à primeira vista, a transação parece "estrategicamente consistente" com a ambição do Fleury de expandir para segmentos de maior complexidade e crescimento mais acelerado, como oncologia.

Vale lembrar que a companhia já possui uma joint venture em andamento com Bradesco Saúde e Beneficência Portuguesa.

Para os analistas, a possível migração das clínicas de oncologia da Oncoclínicas para uma NewCo poderia exigir novos credenciamentos com operadoras de saúde e colocar em risco acordos de exclusividade atualmente mantidos pela empresa hoje. "Isso pode ser desafiador, dado o ambiente mais difícil observado no setor", dizem.

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Segundo o banco, algumas incertezas "impedem que tenhamos uma visão mais clara da transação".

"Primeiro, ainda não sabemos quanto do Ebitda da Oncoclínicas será transferido para a NewCo e se isso poderia ser parcialmente afetado pela possível perda de credenciamentos atuais", afirmam os analistas.

"Adicionalmente, a avaliação implícita da transação permanece desconhecida, especificamente a participação correspondente ao investimento conjunto de R$ 500 milhões", acrescentam.

Já o JP Morgan avalia que, para a Oncoclínicas, a transação permanece "essencialmente uma reestruturação impulsionada pelo balanço", com o preço das ações altamente sensível à decisão final de quanto da dívida será alocada na NewCo e quanto continuará retido na empresa-mãe.

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"Embora a entrada de dois parceiros estratégicos melhore a visibilidade de execução e apoie a continuidade do negócio em meio às recentes pressões de liquidez, ainda há transparência limitada sobre a estrutura final de capital", avalia o banco norte-americano.

Já para a Fleury, o negócio representaria um salto de escala na incursão da companhia no segmento de oncologia, segundo os analistas.

Isso porque "fortaleceria seu posicionamento em um segmento estruturalmente crescente e de maior complexidade, com potencial para gerar volumes incrementais de diagnósticos avançados e aprofundar a integração ao longo da jornada de cuidado oncológico".

"Embora detalhes de execução e governança ainda estejam pendentes, a tese industrial é clara, com alocação de capital relativamente contida e potencial de melhoria no mix de receitas no médio prazo", afirma o JP Morgan.

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O banco avalia que a entrada da Fleury como parceira operacional também deve ajudar a perspectiva para a Porto, já que reduz o risco de execução e a intensidade de capital em relação a uma estrutura independente, ao mesmo tempo em que agrega expertise operacional ao ativo.

Para Harold Takahashi, sócio da Fortezza Partners, a entrada do Fleury na operação "é um golaço". Afinal, a empresa deve assumir a posição de executor da prestação de serviço, enquanto a Porto entraria com dinheiro, direcionamento de clientes e fonte pagadora.

"Tem muita sinergia operacional", avalia Takahashi. "A entrada do Fleury tira uma nuvem preta sobre como a Porto tocaria esse negócio no dia seguinte. Então a operação deveria ser benéfica para todo mundo."

Para o especialista em fusões e aquisições (M&As), o negócio é "oportunístico". Afinal, a Oncoclínicas tem uma rede grande de unidades ambulatoriais.

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Segundo ele, os problemas lá eram "a dívida, os hospitais, que não vão fazer parte do negócio, e uma questão de sucessão de gestão, com uma dificuldade de a empresa evoluir para uma governança mais forte para fazer de frente aos desafios de mercado", avalia.

A urgência por trás da negociação na Oncoclínicas (ONCO3)

A Oncoclínicas atravessa um momento turbulento, marcado por pressão financeira e necessidade de reequilibrar sua estrutura de capital.

Nas últimas semanas, a companhia entrou em negociações com credores e convocou assembleias de debenturistas para discutir a possibilidade de um waiver — uma dispensa temporária do cumprimento de covenants financeiros.

Na prática, isso significa pedir autorização prévia para descumprir limites de alavancagem, caso necessário — um sinal de estresse no balanço, segundo especialistas.

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Além disso, recentemente, a Fitch Ratings rebaixou a nota nacional de longo prazo da companhia para C(bra) — um patamar que indica risco de crédito muito elevado e possibilidade de inadimplência. Trata-se do segundo rebaixamento da empresa pela Fitch apenas neste mês.

Na avaliação da agência, um dos principais fatores por trás da decisão foi o início das negociações da companhia com credores para suspender temporariamente pagamentos de principal e juros da dívida.

A pressão financeira também deve aparecer nos números do próximo balanço, segundo os analistas. A empresa deve divulgar os resultados do quarto trimestre de 2025 (4T25) no dia 30 de março, após o fechamento do mercado.

Nas estimativas da agência, a Oncoclínicas deve encerrar 2025 com menos de R$ 100 milhões em caixa, enquanto o cronograma de dívida prevê vencimentos robustos nos anos seguintes — cerca de R$ 745 milhões em 2026 e R$ 810 milhões em 2027.

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Além da estrutura de capital pressionada, a Fitch aponta outros fatores que continuam pesando sobre o desempenho financeiro da empresa, como necessidade elevada de capital de giro, despesas financeiras crescentes e dificuldades para retomar um ritmo consistente de crescimento operacional.

Diante desse cenário, a potencial parceria com Porto e Fleury deixa de ser apenas uma alternativa estratégica — e passa a ser parte central do plano de sobrevivência.

Se avançar, a operação pode permitir à Oncoclínicas reorganizar suas operações, atrair capital novo e, principalmente, ganhar tempo.

Porém, a potencial parceria não é uma "bala de prata" para a Oncoclínicas, na visão do mercado. Afinal, a proposta surge após uma sequência de iniciativas que não conseguiram consolidar a recuperação da companhia, enquanto mercado se questiona: agora vai?

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Seu Dinheiro conversou com profissionais do mercado de capitais para entender as perspectivas para o negócio — e se ainda há caminho para a recuperação. Veja os detalhes nesta reportagem especial. 

*Com informações do Money Times.

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