Nem o lucro acima do esperado salva o Bradesco (BBDC4) na bolsa hoje, e ação cai forte na B3. Mercado ainda não comprou a virada?
Balanço do 1T26 veio sólido, mas dúvidas sobre crédito, provisões e consistência da recuperação continuam no radar; veja o que dizem os analistas

Mesmo após nove trimestres consecutivos de crescimento e com números acima do esperado no 1T26, o Bradesco (BBDC4) ainda não conseguiu assegurar a confiança do mercado. As ações do banco iniciaram o pregão desta quinta-feira (7) em forte queda.
Por volta das 11h10, os papéis caíam 3,48% e figuravam entre as maiores quedas do Ibovespa, cotados a R$ 18,60. No ano, as ações BBDC4 ainda marcam alta de 4%.
No primeiro trimestre, o Bradesco reportou lucro líquido recorrente de R$ 6,8 bilhões, com retorno sobre o patrimônio (ROE) de 15,8% — ambos ligeiramente acima das expectativas.
Em um ambiente macro ainda apertado e marcado por sazonalidade negativa, foi também o único entre os grandes bancos a apresentar crescimento sequencial de lucro.
“À primeira vista, o primeiro trimestre parece bastante sólido”, resumiu o BTG Pactual.
A reação negativa do mercado, no entanto, ajuda a explicar o momento atual do banco: mais do que entregar, o Bradesco precisa convencer. E, neste estágio da recuperação, a régua ficou mais alta.
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Na leitura dos analistas do BTG, parte da pressão sobre as ações reflete exatamente isso: expectativas elevadas para o turnaround.
Para a XP, o trimestre foi “misto, mas amplamente construtivo”. Já o JP Morgan classificou o resultado como positivo, ainda que com ressalvas importantes sobre a sustentabilidade de algumas linhas do balanço.
Confira os principais indicadores do Bradesco (BBDC4) no 1T26:
| Indicador | Resultado 1T26 | Projeções | Variação (a/a) | Evolução (t/t) |
|---|---|---|---|---|
| Lucro líquido | R$ 6,81 bilhões | R$ 6,652 bilhões | +16,1% | +4,5% |
| ROAE | 15,8% | 15,4% | +1,4 p.p. | +0,6 p.p |
| Margem financeira | R$ 20,05 bilhões | — | +16,4% | +4,2% |
| Carteira de crédito ampliada | R$ 1,09 trilhão | — | +8,4% | +0,1% |
1T26 do Bradesco confirma retomada, mas sem eliminar dúvidas
Para o JP Morgan, a principal surpresa positiva do balanço do Bradesco foi a combinação de crescimento de receitas com disciplina de custos, que ajudou a impulsionar a rentabilidade operacional.
A margem financeira avançou 16,4% em 12 meses, somando R$ 20,05 bilhões. O desempenho ficou acima das estimativas e superou, em alguns pontos, pares como Itaú Unibanco e Santander Brasil, segundo os analistas.
Parte relevante desse resultado veio da margem com o mercado e, principalmente, da divisão de seguros — dois motores que voltaram a ganhar protagonismo.
Mas o tom ainda está longe da euforia. "O que precisamos é entender se o Bradesco conseguirá sustentar essas tendências positivas”, afirmam os analistas do banco norte-americano.
A cautela se repete na leitura do BTG Pactual sobre o balanço, que define o momento como uma “tendência favorável, com alguns alertas”.
“O 1T parece bastante sólido à primeira vista”, dizem os analistas. “Mas houve alguns pontos de atenção abaixo da superfície.”
Um deles foi o impacto negativo de R$ 1,8 bilhão relacionado à adesão ao programa de transação tributária (PTI), envolvendo disputas fiscais antigas, além de outras provisões fiscais.
“Embora concordemos que o impacto deva ser tratado como não recorrente, o reconhecimento da perda também indica que essas obrigações não estavam totalmente provisionadas no balanço anteriormente”, avaliam.
Do lado da qualidade do crédito, o diagnóstico é misto. A inadimplência seguiu controlada, mas o avanço das provisões acima do esperado acendeu um sinal de alerta.
O mantra do “passo a passo” segue funcionando
Se há um consenso entre analistas, é que a estratégia step by step da gestão começou a ganhar tração.
O BTG destaca que o Bradesco foi o único grande banco a entregar crescimento sequencial de lucro no trimestre — o que reforça o discurso recorrente do CEO, Marcelo Noronha, de um turnaround feito “de degrau em degrau”.
“Vemos o desempenho trimestral ligeiramente mais fraco como uma consequência natural da sazonalidade negativa, ainda deixando o Bradesco bem posicionado para entregar dentro do guidance de 2026”, avalia a XP.
Para Maria Estela Ferraz de Campos, head de crédito da Integral Group, o resultado pode ser resumido como uma recuperação consistente, com foco na qualidade e na expansão da rentabilidade operacional.
“O Bradesco entregou seu nono trimestre consecutivo de crescimento, o que mostra que o plano de transformação está funcionando”, afirma.
Segundo ela, o “motor operacional” do banco segue ganhando força, mesmo com impactos contábeis pontuais.
De olho na carteira de crédito
Se no passado recente o Bradesco foi criticado por crescer a carteira de crédito com qualidade questionável, a fotografia atual do portfólio indica uma mudança mais estrutural.
Na leitura do mercado, o banco passou a priorizar a segurança do crescimento, ao mesmo tempo em que limpou ativos problemáticos herdados de ciclos anteriores.
O JP Morgan destaca que o Bradesco vem avançando acima dos pares em linhas como veículos, cartões e consignado privado — segmento em que entrou mais tarde, mas agora acelera.
Ainda assim, o movimento exige cautela, segundo a XP, uma vez que esses produtos são historicamente mais sensíveis ao ciclo econômico, especialmente em um ambiente de juros elevados e renda pressionada.
Para os analistas, o crescimento acima do mercado, combinado à maior exposição a clientes de renda mais baixa, pode pressionar a qualidade dos ativos do Bradesco daqui para frente caso o cenário macro continue a se deteriorar.
Por isso, a XP avalia que o lucro acima do esperado no 1T26 não é suficiente para mudar a visão cautelosa para BBDC4. “Apesar do lucro acima do esperado, a pressão na qualidade de crédito e o NII abaixo do esperado reforçam a nossa visão neutra para as ações.”
Apesar disso, a visão do mercado para as ações ainda é majoritariamente otimista. De sete recomendações compiladas pela Broadcast, seis são de compra e apenas uma é neutra.
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