Em meio à crise, Oncoclínicas (ONCO3) aposta em aliança de até R$ 1 bilhão com a Porto (PSSA3); CFO renuncia
Parceria prevê nova empresa para reunir cerca de 200 clínicas, enquanto grupo negocia dívidas e troca o comando financeiro

A Oncoclínicas (ONCO3) pode estar prestes a ganhar um aliado de peso para tentar sair da crise financeira que vivencia há consecutivos trimestres.
A companhia de tratamento oncológico confirmou na noite do último domingo (15) que firmou um termo de compromisso não vinculante com a Porto Seguro (PSSA3) para uma potencial injeção de capital que pode chegar a R$ 1 bilhão — operação que envolve a criação de uma nova empresa dedicada às clínicas de oncologia do grupo.
A transação, ainda em fase preliminar, busca combinar duas frentes complementares: de um lado, a liderança da Oncoclínicas no tratamento de câncer; de outro, a capacidade de investimento e a ampla base de clientes da Porto, uma das maiores seguradoras do país.
O acordo foi assinado na última sexta-feira e prevê que a nova sociedade concentre os ativos e as operações das clínicas oncológicas atualmente controladas pela Oncoclínicas. A companhia, no entanto, continuaria responsável por outras frentes do negócio, como seus hospitais.
A confirmação da negociação veio depois que uma reportagem do Brazil Journal revelou os detalhes do possível acordo. No sábado, a Porto Seguro já havia indicado que analisava oportunidades de investimento no setor de saúde, incluindo ativos ligados à Oncoclínicas.
Em nota ao mercado, a seguradora afirmou que avalia de forma permanente potenciais investimentos em diferentes negócios e verticais — entre eles, “certos negócios explorados pela Oncoclínicas”.
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As ações da Oncoclínicas abriram em forte alta nesta segunda-feira (16). Logo na abertura do pregão, ONCO3 saltava 10,27%, a R$ 2,04. Desde o acumulado de 2026, no entanto, a rede de tratamentos oncológicos ainda amarga desvalorização de quase 25% na B3.
Por sua vez, a Porto não reagiu com tanto entusiasmo na bolsa. Em dia positivo para o Ibovespa, os papéis chegaram a cair mais de 0,5% no início do dia, e marcavam leve alta de 0,12% no mesmo horário, a R$ 49,37. Desde janeiro, o saldo ainda é positivo em 2%.
Possível parceria em meio à pressão financeira
A aproximação entre as duas companhias emerge quase que como uma nova boia salva-vidas para a Oncoclínicas. Nos últimos trimestres, o grupo tem enfrentado uma pressão crescente sobre sua liquidez e negocia com credores a reestruturação de sua dívida.
Nesse contexto, a entrada de um investidor estratégico poderia não apenas reforçar o caixa da operação de clínicas, mas também ajudar a reorganizar a estrutura financeira da companhia.
Se confirmada, a parceria tem potencial para criar um novo ecossistema de saúde voltado ao tratamento oncológico, combinando a expertise médica da Oncoclínicas com a capacidade de distribuição e relacionamento com clientes da Porto.
Ainda assim, a decisão de avançar com as negociações não foi unânime dentro da companhia. Segundo a empresa, os conselheiros Marcos Grodezky e Raul Rosenthal Ladeira de Matos manifestaram voto contrário à assinatura do termo de compromisso.
Os detalhes do acordo bilionário entre Oncoclínicas e Porto
Pelo desenho discutido entre as duas companhias, a Oncoclínicas separaria sua rede de aproximadamente 200 clínicas em uma subsidiária dedicada exclusivamente a essa operação.
Essa estrutura seria então transferida para uma nova empresa — a chamada NewCo — que receberia o investimento da Porto Saúde.
Alguns ativos estratégicos ficariam de fora da transação. Entre eles estão os hospitais da Oncoclínicas e a operação internacional da companhia na Arábia Saudita, que permaneceriam diretamente sob o controle da empresa.
Do lado da Porto, o acordo prevê um aporte inicial de R$ 500 milhões em troca do controle do capital votante da nova companhia e de uma participação de pelo menos 30% no capital social total.
O investimento, no entanto, não se limitaria a esse valor inicial. A estrutura da operação também inclui a emissão de debêntures conversíveis em ações no valor de outros R$ 500 milhões.
Esses títulos teriam prazo de quatro anos e remuneração equivalente a 110% do CDI, além da possibilidade de conversão em participação acionária.
Na prática, o instrumento permitiria à Porto ampliar sua fatia societária na empresa no futuro, caso o negócio se valorize.
Segundo a Oncoclínicas, o arranjo também abre espaço para a transferência de parte de seu endividamento para a nova empresa, o que ajudaria a otimizar a estrutura de capital do grupo e permitir que cada unidade do negócio se concentre em sua especialidade.
O acordo prevê ainda mecanismos de ajuste de participação, como cláusulas de earn-out e earn-in, que podem alterar a divisão acionária entre as empresas de acordo com o desempenho da operação ao longo do tempo.
As companhias afirmaram que a negociação não envolve qualquer mecanismo de antecipação de recursos para compensação de despesas médicas. Segundo elas, o foco da parceria está na reorganização societária e na eficiência operacional das clínicas.
As condições para o negócio sair do papel
Apesar do anúncio, a operação ainda está longe de ser considerada definitiva. O documento assinado entre as empresas é um termo de compromisso não vinculante, o que significa que não há, neste momento, obrigação formal de concluir o investimento.
Mesmo assim, a Oncoclínicas se comprometeu a negociar exclusivamente com a Porto por um período de 30 dias.
Durante esse intervalo, as companhias devem conduzir uma due diligence detalhada — processo que inclui auditoria dos ativos, análise financeira e a elaboração dos documentos finais da transação.
Outro ponto central para a concretização do acordo envolve a própria situação financeira da Oncoclínicas.
A conclusão do negócio depende da renegociação e do reperfilamento das dívidas da companhia com seus credores, etapa considerada crucial para estabilizar o balanço do grupo.
Além disso, a operação ainda precisará passar pelo crivo de órgãos reguladores, como o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), além de obter aprovações internas de acionistas e credores.
Mudança no comando financeiro da Oncoclínicas (ONCO3)
Em paralelo às negociações com a Porto, a Oncoclínicas também anunciou uma mudança em seu alto escalão.
O conselho de administração aprovou, por maioria, a eleição de Marcel Cecchi Vieira para os cargos de vice-presidente executivo, diretor financeiro (CFO) e diretor de relações com investidores (DRI).
Segundo a companhia, o executivo assumirá as funções de forma interina.
A movimentação ocorre após a renúncia de Camile Loyo Faria, que ocupava os mesmos cargos. Ex-CFO da Americanas, Faria deixou a empresa sem detalhes sobre os motivos para sua saída.
A mudança na alta cúpula da Oncoclínicas acontece menos de duas semanas após a troca de presidente do grupo. No início de março, o fundador, Bruno Ferrari, renunciou ao cargo de CEO.
O conselho elegeu Carlos Gil Moreira Ferreira para assumir de forma interina a posição, até a conclusão do processo de sucessão.
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