Em busca de fôlego: por que a Oncoclínicas (ONCO3) está pedindo mais tempo para pagar suas dívidas
Companhia chama credores e debenturistas para discutir extensão de prazos e possível waiver de alavancagem; entenda

Em meio às preocupações do mercado com sua liquidez, a Oncoclínicas (ONCO3) tenta agora ganhar tempo para reorganizar as contas e ajustar sua estrutura financeira.
A rede de tratamentos oncológicos iniciou conversas com seus credores financeiros para prorrogar prazos de pagamento de dívidas que vencem nos próximos meses, de acordo com fato relevante divulgado ao mercado nesta segunda-feira (9).
O movimento acontece poucos dias após a companhia de saúde reformular o alto escalão.
Por volta das 13h, as ações ONCO3 caíam 1,40% na bolsa brasileira, cotadas a R$ 2,12. A performance desta sessão amplia as perdas acumuladas pela empresa de saúde nos últimos anos, que supera a marca de 22% desde janeiro e beira os 50% em 12 meses.
O que está em discussão com credores
A empresa informou que também convocou assembleias de debenturistas de diferentes emissões para discutir a concessão de um waiver — uma espécie de dispensa temporária de regras previstas nos contratos de dívida.
A Oncoclínicas busca uma autorização prévia para o caso de não conseguir cumprir um dos principais indicadores financeiros exigidos pelos credores: o limite de alavancagem medido pela relação entre dívida líquida e Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização).
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Esse indicador costuma funcionar como um termômetro da saúde financeira de uma empresa em contratos de financiamento.
Quando o nível de endividamento cresce demais em relação à geração de caixa, o descumprimento da regra pode disparar gatilhos que permitem aos credores exigir renegociações ou até antecipar pagamentos.
Ao pedir o waiver com antecedência, a Oncoclínicas tenta evitar esse tipo de risco contratual, caso o indicador seja ultrapassado quando for apurado no balanço de 2025.
A companhia deve divulgar seus resultados do quarto trimestre de 2025 e do ano completo no dia 30 de março.
Em comunicado ao mercado, a administração afirmou que as iniciativas fazem parte de um esforço mais amplo de turnaround na empresa.
“A administração entende que o conjunto de tais iniciativas permitirá que a companhia continue executando com sucesso sua agenda estratégica de alinhamento absoluto ao seu core business, de disciplina financeira e de eficiência operacional, visando a manutenção de suas operações e o atendimento a seus pacientes”, disse a empresa, no documento.
Pressão financeira na Oncoclínicas
A negociação com credores acontece em meio a um momento de reorganização interna da Oncoclínicas, que tenta reduzir a pressão financeira acumulada nos últimos anos.
Depois de um ciclo intenso de crescimento marcado por uma sequência de erros estratégicos, a empresa agora busca retomar o foco no seu negócio principal: o tratamento oncológico.
O processo inclui mudanças na liderança e uma revisão da estratégia adotada após a abertura de capital.
Em janeiro deste ano, a companhia contratou a consultoria Spencer Stuart para conduzir o processo de seleção de um novo CEO, em meio ao cenário de alavancagem elevada e forte consumo de caixa.
A transição ganhou um novo capítulo na última quinta-feira (5), quando o fundador da Oncoclínicas, Bruno Ferrari, renunciou ao cargo de diretor-presidente.
O conselho de administração aprovou por unanimidade a eleição de Carlos Gil Moreira Ferreira como CEO interino até a conclusão do processo de sucessão.
Ferrari liderava a companhia desde outubro de 2021, período marcado pela fase de expansão da empresa. Apesar de deixar o comando executivo, ele continuará ligado à companhia como vice-presidente do conselho de administração.
Já o novo CEO interino é um nome de dentro da casa. Médico oncologista, Carlos Gil integra a Oncoclínicas desde 2018, quando assumiu a presidência do Instituto Oncoclínicas. Desde 2021, também atua como diretor médico da empresa.
Embora a troca de comando sinalize uma tentativa de reorganização interna, o pano de fundo da crise da Oncoclínicas ainda é financeiro. Investidores e credores acompanham com preocupação a capacidade de a rede de tratamentos oncológicos administrar sua dívida.
Sem chance de melhora no curto prazo?
Na semana passada, a agência Fitch Ratings reforçou o temor do mercado ao rebaixar a nota de crédito da Oncoclínicas, citando deterioração do perfil financeiro e aumento das dúvidas sobre a liquidez da companhia.
“A manutenção de fluxos de caixa das operações negativos e de alta alavancagem restringem ainda mais a flexibilidade financeira da companhia, elevando a probabilidade de a empresa buscar alternativas de financiamento que impliquem em potencial piora de termos para os credores”, avalia a Fitch.
É verdade que a companhia conseguiu algum alívio temporário no fim de 2025. Em novembro, a Oncoclínicas realizou uma capitalização de R$ 1,4 bilhão, por meio de conversão de dívidas em ações.
A operação ajudou a reduzir momentaneamente a pressão sobre a estrutura de capital. Ainda assim, a agência não vê espaço para uma melhora significativa do perfil financeiro da Oncoclínicas no curto prazo.
A expectativa dos analistas é que qualquer recuperação ocorra de forma gradual, ao longo dos próximos anos. “A Oncoclínicas permanece com o importante desafio de recuperar sua rentabilidade e sua geração de caixa no médio prazo”, afirma a Fitch.
*Com informações do Money Times.
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