Menu
2019-05-03T18:53:07+00:00
Eduardo Campos
Eduardo Campos
Jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo e Master In Business Economics (Ceabe) pela FGV. Cobre mercado financeiro desde 2003, com passagens pelo InvestNews/Gazeta Mercantil e Valor Econômico cobrindo mercados de juros, câmbio e bolsa de valores. Há 6 anos em Brasília, cobre Banco Central e Ministério da Fazenda.
Juros

Se a Selic não cair, a culpa é dos porcos chineses

Problema sanitário na China terá impacto relevante sobre a inflação local, reduzindo espaço para corte do juro mesmo com atividade fraca

5 de maio de 2019
5:17 - atualizado às 18:53
febre suína china
Imagem: Shutterstock

O Comitê de Política Monetária (Copom) estará reunido na terça e quarta-feira para definir o rumo da Selic, atualmente fixada em 6,5% ao ano. Não podemos afirmar com certeza, mas certamente um evento que parece distante da nossa realidade deve estar na discussão do cenário para inflação: a febre suína que atinge os animais chineses.

Indo direto ao ponto, esse problema sanitário vai ter impacto sobre o preço de todo o complexo de carnes, não só de porco, mas de gado e de aves, relegando inflação maior por aqui e reduzindo o espaço que o Banco Central (BC) poderia ter para promover um eventual corte da Selic.

O impacto é tão relevante que suplantaria o espaço para reduções aberto por uma recuperação econômica que teima em não engrenar e ameaça virar até uma recessão, já que algumas instituições estimam variação negativa do Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro trimestre deste ano, depois de um magro crescimento de 0,1% no último trimestre de 2018, que pode vir a ser revisado.

No entanto, o que é má notícia para a inflação tem sido um alento para os acionistas de empresas de proteína animal como JBS e BRF, que têm altas expressivas, na casa dos 50% nos últimos dois meses, contra uma variação de cerca de 2% do Ibovespa.

Aos detalhes

Em sua carta semanal “Opinião ABC Brasil”, o economista-chefe do Banco ABC Brasil, Luis Otavio de Souza Leal, se debruçou sobre o tema, estimando um impacto de aproximadamente 1,2 ponto percentual dessa inflação do "complexo carne" para os preços domésticos, sendo que 25% desse impacto deverá ocorrer no último trimestre de 2019, com o restante ocorrendo ao longo de 2020.

Com isso, a projeção de Leal para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2019 subiu de 3,9% para 4,3%. Para 2020, a inflação oficial deve fechar em 4,5% ante 4% previstos até então. Assim, temos a inflação deste ano perto da meta de 4,25% e acima da meta de 4% no próximo ano.

Segundo Leal, a situação é bastante séria e os mercados vão, aos poucos, se dando conta dos impactos que ela poderá ter sobre os ativos. A primeira reação citamos acima, o preço das ações das empresas de proteína animal.

Agora, diz o economista, a “ficha começa a cair” para o restante do mercado e deveremos ver correções nas projeções de inflação do boletim Focus nas próximas semanas.

Ainda de acordo com Leal, um evento que pode acelerar a incorporação desse risco aos preços é, justamente, a reunião do Copom.

“Caso o BC chame a atenção para a febre suína como um risco de alta para a inflação no seu comunicado pós-reunião, a ‘ficha vai cair’ mais rápido”, escreveu.

Se o juro não cai, ele sobe?

Leal nos lembra que esse é um caso clássico de choque de oferta, situação na qual a política monetária só deve atuar para combater os chamados efeitos de segunda ordem sobre a inflação, ou seja, quando a alta nos alimentos começa a contaminar outros itens.

Considerando que a demanda agregada está fraca, os efeitos inflacionários serão limitados, “nos levando à conclusão de que, uma elevação dos juros por esse motivo estaria descartada no curto prazo”.

Por outro lado, pondera Leal, como a inflação vai mudar de patamar, se aproximando da meta neste ano e superando a do ano que vem, e a política monetária já está no campo expansionista, esse choque de oferta vai eliminar o espaço para cortes ao longo de 2019, mesmo com a evidente fraqueza da economia brasileira.

Dessa forma, o ABC Brasil mantém a sua projeção de 6,5% para a Selic no fim deste ano. Para 2020, a associação de uma recuperação mais robusta com esse impacto do complexo de carnes, reforça a percepção de que, ao longo do segundo semestre, o BC teria que iniciar um aperto monetário, elevando os juros para o nível de 7,5% até o fim de 2020.

Alguns números

Para dar uma dimensão do problema que a febre suína ou “African Swine Fever” (ASF) representa, deixo aqui os dados levantador por Leal para compor seu relatório. Aliás, 2019 é o ano do porco no calendário chinês.

Primeiro, a ASF não causa problemas para os seres humanos, mas tem uma taxa de mortalidade próxima a 100% para os porcos, que levam, em média, sete dias para morrer. Não há vacina e o cozimento ou congelamento não matam o vírus. A única forma de combater a doença é destruindo as carcaças.

A China consome 50% de toda a carne suína do mundo, algo em torno de 54 milhões de toneladas e tem uma produção ao redor de 52 milhões de toneladas, importando cerca de 2 milhões de toneladas para equilibrar o mercado.

Se as estimativas de queda de 20% no rebanho chinês se confirmarem, isso significaria uma redução na produção ao redor de 10,4 milhões de toneladas, aumentado a demanda chinesa por carne de porco importada para 12,4 milhões de toneladas.

Segundo a USDA (Departamento de Agricultura dos EUA), o mercado mundial de exportação de carne suína é de 8 milhões de toneladas, ou seja, teriam que ser acrescentados mais 4,4 milhões de toneladas ao comércio internacional apenas para saciar o apetite dos chineses.

Considerando que a produção mundial é de 114,5 milhões de toneladas, para contrabalançar a perda de produção na China, o resto do mundo teria que expandir a sua produção em algo próximo de 9%.

Como isso não seria possível no curto prazo, essa questão específica do mercado de carne suína vai acabar transbordando para todo o complexo de carne.

A produção mundial de frango é de 97,8 milhões de toneladas, enquanto a de carne bovina é de 63,6 milhões de toneladas, com ambos os mercados tendo um excedente com relação ao consumo, ao redor de 2 milhões de toneladas.

Se toda a demanda chinesa por carne de porco fosse suprida por carne de frango e/ou bovina, mesmo assim faltariam mais de 6 milhões de toneladas. Portanto, esses mercados não sairão incólumes desse choque de oferta no mercado de carne suína.

Quer nossas melhores dicas de investimentos de graça em seu e-mail? Cadastre-se agora em nossa newsletter
Quer nossas melhores dicas de investimentos de graça em seu e-mail? Cadastre-se agora em nossa newsletter
Comentários
Leia também
A REVOLUÇÃO 3.0 DOS INVESTIMENTOS

Quem é a Pi

Uma plataforma de investimentos feita para ajudar a atingir seus objetivos por meio de uma experiência #simples, #segura, #acessível e #transparente.

Nas ruas do país

Atos pró-Bolsonaro chegam a 59 municípios de 18 Estados e DF

Em São Paulo, a manifestação a favor do governo ocorre na Avenida Paulista e os participantes estão distribuídos por sete quarteirões

Entrevista

“Reforma tem boa chance de passar. Talvez não no prazo ideal”, diz Pedro Parente

Ex-ministro e atual presidente da BRF, Parente vê com naturalidade a atual desarticulação entre o presidente Jair Bolsonaro e o Congresso

Dia de manifestações

Bolsonaro posta no Twitter vídeos de atos pró-governo

A conta do presidente na rede social trouxe três vídeos de manifestantes nas cidades do Rio de Janeiro, em São Luís, no Maranhão, e em Juiz de Fora, no interior de Minas

Trabalho para os liberais

Kleber Bambam e o twitter de Bolsonaro: por que a economia não sai do paredão?

Para Adolfo Sachsida, secretário de política econômica do Ministério da Economia e fã do Big Brother Brasil, problema está no desajuste fiscal herdado das gestões petistas, e não nas polêmicas do Twitter

Das redes ao asfalto

Manifestações nas ruas testam apoio a Bolsonaro

Receio da equipe de Bolsonaro é de que, se não houver uma adesão de peso às manifestações, isso seja interpretado como um sinal de perda de popularidade

Armas

Novo decreto de Bolsonaro mantém brecha para compra de fuzis

Governo mudou texto para evitar venda de fuzis a civis, que fez as ações da Taurus dispararem na semana passada. Mas Procuradoria diz que novo decreto mantém essa possibilidade

Cannabusiness

O dia não tão distante em que os supermercados americanos venderão produtos feitos com planta de maconha

Todos querem sua fatia de uma indústria que deve ultrapassar os US$ 2 bilhões nos EUA até o próximo ano, uma vez que pesquisas vêm mostrando que os consumidores estão dispostos a pagar preços mais altos pelos produtos

Reduzindo os gargalos

Judiciário prepara pacote de medidas para acelerar recuperações judiciais

Em média, em São Paulo, são 567 dias (cerca de um ano e meio) entre a Justiça aceitar o pedido de recuperação de uma empresa e apreciar o plano de reestruturação

Seu Dinheiro no sábado

MAIS LIDAS: Esse filme eu já vi

Na semana em que o futuro pareceu repetir o passado, o assunto mais comentado não podia ser outro: o tsumani político que varreu Brasília. O enredo que incluiu derrotas do governo no Congresso, investigações do Ministério Público, manifestações de rua e investidores à beira de um ataque de nervos de fato me trouxe recordações recentes, […]

Pague pelo celular

Após avanço do Itaú, Mercado Pago amplia parcerias com lojas para pagamentos instantâneos

Empresa do site Mercado Livre fecha parceria com redes de farmácia e de alimentos para aceitar pagamentos pelo sistema de “QR Code”, que agora entrou na mira do Itaú

Carregar mais notícias
Carregar mais notícias
Fechar
Menu
Advertisements