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Monique Lima

Monique Lima

Monique Lima é jornalista com atuação em renda fixa, finanças pessoais, investimentos e economia, com passagem por veículos como VOCÊ S/A, Forbes, InfoMoney e Suno Notícias. Formada em Jornalismo em 2020, atualmente, integra a equipe do Seu Dinheiro como repórter, produzindo conteúdos sobre renda fixa, crédito privado, Tesouro Direto, previdência privada e movimentos relevantes do mercado de capitais.

MEDO NO AR

Renda fixa: títulos públicos do mundo inteiro disparam com a expectativa de uma nova onda de aumento dos juros

Preocupação com inflação levou o principal título da Inglaterra a oferecer 5% de juro, maior nível desde 2008; nos EUA, o Treasury de 30 anos chegou a 4,95%

Monique Lima
Monique Lima
20 de março de 2026
17:25 - atualizado às 17:01
Montagem mostrando uma nota de dólar rasgada ao centro, com a palavra "inflation" grifada; representa a luta do Federal Reserve (Fed, o BC dos EUA) para controlar a inflação do país
Imagem: Shutterstock

Uma disparada ou uma derrocada na bolsa de valores é muito fácil de identificar — e amplamente alardeada nos mercados. Mas quando isso acontece na renda fixa, especificamente nos títulos públicos, o movimento nem sempre é ruidoso — mas, na maioria dos casos, indica que algo muito mais profundo não vai bem na leitura dos agentes financeiros.

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Nesta sexta-feira (20), títulos públicos do mundo inteiro entraram no mesmo ritmo. Dos Estados Unidos ao Japão — passando pela Europa no meio do caminho —, as taxas dispararam nos principais vencimentos: dois e dez anos.

O Brasil não ficou de fora da dança. O Tesouro Prefixado de vencimento mais curto (2029) ultrapassou a faixa de 14% e foi a 14,02% ao ano.

Os passos coordenados em todo o mundo refletem o som que vem do Oriente Médio. Enquanto bombas explodem à distância, nos ouvidos do mercado financeiro o que se ouve é: inflação fora de controle.

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A preocupação com uma disparada nos preços de energia, transporte e combustíveis está ganhando mais escala. Caso se materialize, significa a reversão do controle de preços que os bancos centrais mundo afora custaram a conseguir depois da pandemia de covid-19.

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O risco inflacionário vem do aumento no preço da cotação do petróleo. O barril Brent estacionou em US$ 110 nesta semana. A última vez que a commodity chegou nesse preço foi quando a Rússia invadiu a Ucrânia, em fevereiro de 2022, e criou uma crise no mercado de petróleo e gás natural.

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Acontece que o desabastecimento representado pela Rússia e Ucrânia neste mercado era de cerca de 8%. A situação no Irã representa um risco muito maior por causa do Estreito de Ormuz. Este canal escoa 20% do petróleo consumido no mundo.

Se falta produto, o preço sobe… e a inflação também.

Gás natural vs. taxas na Europa

Para se ter ideia do tamanho da preocupação, as taxas dos principais títulos públicos do Reino Unido, de vencimento em 10 anos, chegaram a 5% nesta sexta-feira (20) — o nível mais alto desde a crise financeira de 2008.

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O vencimento mais curto, de dois anos, foi a 4,6%, marcando o maior patamar em mais de um ano.

O mercado de títulos britânico tem sido particularmente suscetível aos temores de repique de inflação à medida que a guerra EUA-Irã se arrasta. O motivo é a dependência do país à energia importante dos países envolvidos no conflito.

No Brasil, a disparada do preço do petróleo significa aumento no preço da gasolina e diesel, basicamente. Ainda assim, com alguma ingerência pela Petrobras.

Na Europa, crise no petróleo e no gás natural significa crise de energia, eletricidade mesmo. A região depende do gás natural. Não é como o Brasil que é movido a hidrelétricas.

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E o preço do gás natural disparou tanto quanto o preço do petróleo. Somente na quinta-feira (19), o contrato de gás natural holandês TTF, considerado a referência europeia, subiu 28,06%, para 70 euros por megawatt-hora. Isso depois de ter subido 35% na máxima do dia.

Desde o início da guerra entre EUA e Irã, em 28 de fevereiro, a disparada foi de 90%.

Além do Reino Unido, os títulos públicos da Alemanha — considerados um dos mais seguros do mundo — também dispararam. Nesta sexta-feira (19), as taxas do papel de 10 anos foram a 3,04%, frente ao nível de 2,65% antes do início da guerra.

O vencimento curto, de dois anos, foi a 2,77%, ante 2% em 27 de fevereiro.

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Mesmo nos Estados Unidos, o Treasury de 30% chegou a 4,95%, maior nível em um ano. O título de vencimento em 10 anos — referência para o mercado global — também estressou, foi a 4,38%, uma taxa vista pela última vez em julho de 2025.

E a inflação?

A abertura nas taxas dos títulos públicos é o reflexo de toda uma linha de raciocínio dos agentes financeiros. Funciona assim:

  1. Os preços do petróleo e do gás natural disparam;
  2. Isso gera aumento de preços em cadeira (energia, combustíveis, frete, bens de consumo);
  3. A inflação volta a acelerar em todo o mundo; e
  4. Os bancos centrais voltam a subir os juros.

Basicamente, as taxas maiores dos títulos públicos são a representação de que o mercado financeiro está esperando juros mais altos no futuro.

Nos EUA, por exemplo, dados compilados pelo CME Group mostram que o mercado passou a precificar 43,4% de chance de o Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA) aumentar a taxa referencial em outubro deste ano.

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Entretanto, há poucas semanas, a expectativa era de novos cortes nos juros. Aumentos nem estavam no radar.

Na última quarta-feira (18), o banco central norte-americano manteve os juros inalterados na faixa entre 3,50% e 3,75% ao ano. Isso depois de dois cortes no ano passado.

Bancos centrais em alerta

Um movimento sincronizado mundo afora. Em 2025, bancos centrais da Europa, da Ásia e da América Latina cortaram juros. Agora, o risco é de ter que subir de novo.

Os bancos centrais de Canadá, Inglaterra e Japão sinalizaram nesta a semana preocupação com os efeitos da alta do petróleo sobre a inflação. Por enquanto, a decisão deles foi de manter os juros como estão.

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O Banco da Inglaterra (BoE) seguiu com os juros em 3,75% ao ano, em uma decisão unânime, alertando que o avanço dos preços da energia deve pressionar a inflação no curto prazo, exigindo atenção redobrada da política monetária para garantir a meta de 2%.

No Canadá, o BC também manteve os juros em 2,25% ao ano, fazendo um alerta sobre as possíveis repercussões econômicas de um conflito prolongado e amplo no Oriente Médio.

Na mesma linha, até o Banco do Japão (BoJ) manteve o viés mais apertado da política monetária, com os juros inalterados em 0,75% ao ano. O BC japonês indicou que não descarta o aumento das taxas no curto prazo, a depender do impacto do aumento de preços do petróleo na economia.

Brasil na contramão?

Por aqui, a situação é um pouco diferente.

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Nesta quarta-feira (18), o Banco Central cortou os juros pela primeira vez em quase dois anos. Um movimento bastante atrasado em relação ao resto do mundo, e menor do que estava sendo precificado até então, de afrouxamento de 0,50 ponto percentual (p.p.).

O corte, de 0,25 p.p., foi classificado pelo BC como “calibração”, indicando ser um ajuste, não um início do ciclo de afrouxamento. A intenção da autoridade monetária é concluir esses cortes com a taxa de juros ainda alta.

O mercado brasileiro não está precificando uma nova onda de aumento dos juros como a Europa e os Estados Unidos, mas o fim da “calibração” com os juros mais altos, em 14% no fim do ano — ou até mesmo a volta da manutenção no nível que está, de 14,75%.

Nesta semana, o Tesouro Nacional promoveu a maior intervenção no mercado de títulos públicos brasileiros dos últimos 10 anos, na tentativa de manter as taxas mais estáveis, diante da pressão vendedora dos investidores institucionais.

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O Tesouro entrou para recomprar os papéis da dívida brasileira todos os dias, de segunda à sexta.

Ao entrar como comprador, o Tesouro consegue dar liquidez para o mercado e diminuir o nível de oscilação de preços e taxas, para o mercado volte a operar “normalmente”.

Ainda assim, as taxas estão nos maiores níveis dos últimos meses. E, sem um desfecho para a guerra, os títulos públicos do Brasil e do mundo devem continuar no ritmo da guerra.

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