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Preocupação com inflação levou o principal título da Inglaterra a oferecer 5% de juro, maior nível desde 2008; nos EUA, o Treasury de 30 anos chegou a 4,95%

Uma disparada ou uma derrocada na bolsa de valores é muito fácil de identificar — e amplamente alardeada nos mercados. Mas quando isso acontece na renda fixa, especificamente nos títulos públicos, o movimento nem sempre é ruidoso — mas, na maioria dos casos, indica que algo muito mais profundo não vai bem na leitura dos agentes financeiros.
Nesta sexta-feira (20), títulos públicos do mundo inteiro entraram no mesmo ritmo. Dos Estados Unidos ao Japão — passando pela Europa no meio do caminho —, as taxas dispararam nos principais vencimentos: dois e dez anos.
O Brasil não ficou de fora da dança. O Tesouro Prefixado de vencimento mais curto (2029) ultrapassou a faixa de 14% e foi a 14,02% ao ano.
Os passos coordenados em todo o mundo refletem o som que vem do Oriente Médio. Enquanto bombas explodem à distância, nos ouvidos do mercado financeiro o que se ouve é: inflação fora de controle.
A preocupação com uma disparada nos preços de energia, transporte e combustíveis está ganhando mais escala. Caso se materialize, significa a reversão do controle de preços que os bancos centrais mundo afora custaram a conseguir depois da pandemia de covid-19.
O risco inflacionário vem do aumento no preço da cotação do petróleo. O barril Brent estacionou em US$ 110 nesta semana. A última vez que a commodity chegou nesse preço foi quando a Rússia invadiu a Ucrânia, em fevereiro de 2022, e criou uma crise no mercado de petróleo e gás natural.
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Acontece que o desabastecimento representado pela Rússia e Ucrânia neste mercado era de cerca de 8%. A situação no Irã representa um risco muito maior por causa do Estreito de Ormuz. Este canal escoa 20% do petróleo consumido no mundo.
Se falta produto, o preço sobe… e a inflação também.
Para se ter ideia do tamanho da preocupação, as taxas dos principais títulos públicos do Reino Unido, de vencimento em 10 anos, chegaram a 5% nesta sexta-feira (20) — o nível mais alto desde a crise financeira de 2008.
O vencimento mais curto, de dois anos, foi a 4,6%, marcando o maior patamar em mais de um ano.
O mercado de títulos britânico tem sido particularmente suscetível aos temores de repique de inflação à medida que a guerra EUA-Irã se arrasta. O motivo é a dependência do país à energia importante dos países envolvidos no conflito.
No Brasil, a disparada do preço do petróleo significa aumento no preço da gasolina e diesel, basicamente. Ainda assim, com alguma ingerência pela Petrobras.
Na Europa, crise no petróleo e no gás natural significa crise de energia, eletricidade mesmo. A região depende do gás natural. Não é como o Brasil que é movido a hidrelétricas.
E o preço do gás natural disparou tanto quanto o preço do petróleo. Somente na quinta-feira (19), o contrato de gás natural holandês TTF, considerado a referência europeia, subiu 28,06%, para 70 euros por megawatt-hora. Isso depois de ter subido 35% na máxima do dia.
Desde o início da guerra entre EUA e Irã, em 28 de fevereiro, a disparada foi de 90%.
Além do Reino Unido, os títulos públicos da Alemanha — considerados um dos mais seguros do mundo — também dispararam. Nesta sexta-feira (19), as taxas do papel de 10 anos foram a 3,04%, frente ao nível de 2,65% antes do início da guerra.
O vencimento curto, de dois anos, foi a 2,77%, ante 2% em 27 de fevereiro.
Mesmo nos Estados Unidos, o Treasury de 30% chegou a 4,95%, maior nível em um ano. O título de vencimento em 10 anos — referência para o mercado global — também estressou, foi a 4,38%, uma taxa vista pela última vez em julho de 2025.
A abertura nas taxas dos títulos públicos é o reflexo de toda uma linha de raciocínio dos agentes financeiros. Funciona assim:
Basicamente, as taxas maiores dos títulos públicos são a representação de que o mercado financeiro está esperando juros mais altos no futuro.
Nos EUA, por exemplo, dados compilados pelo CME Group mostram que o mercado passou a precificar 43,4% de chance de o Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA) aumentar a taxa referencial em outubro deste ano.
Entretanto, há poucas semanas, a expectativa era de novos cortes nos juros. Aumentos nem estavam no radar.
Na última quarta-feira (18), o banco central norte-americano manteve os juros inalterados na faixa entre 3,50% e 3,75% ao ano. Isso depois de dois cortes no ano passado.
Um movimento sincronizado mundo afora. Em 2025, bancos centrais da Europa, da Ásia e da América Latina cortaram juros. Agora, o risco é de ter que subir de novo.
Os bancos centrais de Canadá, Inglaterra e Japão sinalizaram nesta a semana preocupação com os efeitos da alta do petróleo sobre a inflação. Por enquanto, a decisão deles foi de manter os juros como estão.
O Banco da Inglaterra (BoE) seguiu com os juros em 3,75% ao ano, em uma decisão unânime, alertando que o avanço dos preços da energia deve pressionar a inflação no curto prazo, exigindo atenção redobrada da política monetária para garantir a meta de 2%.
No Canadá, o BC também manteve os juros em 2,25% ao ano, fazendo um alerta sobre as possíveis repercussões econômicas de um conflito prolongado e amplo no Oriente Médio.
Na mesma linha, até o Banco do Japão (BoJ) manteve o viés mais apertado da política monetária, com os juros inalterados em 0,75% ao ano. O BC japonês indicou que não descarta o aumento das taxas no curto prazo, a depender do impacto do aumento de preços do petróleo na economia.
Por aqui, a situação é um pouco diferente.
Nesta quarta-feira (18), o Banco Central cortou os juros pela primeira vez em quase dois anos. Um movimento bastante atrasado em relação ao resto do mundo, e menor do que estava sendo precificado até então, de afrouxamento de 0,50 ponto percentual (p.p.).
O corte, de 0,25 p.p., foi classificado pelo BC como “calibração”, indicando ser um ajuste, não um início do ciclo de afrouxamento. A intenção da autoridade monetária é concluir esses cortes com a taxa de juros ainda alta.
O mercado brasileiro não está precificando uma nova onda de aumento dos juros como a Europa e os Estados Unidos, mas o fim da “calibração” com os juros mais altos, em 14% no fim do ano — ou até mesmo a volta da manutenção no nível que está, de 14,75%.
Nesta semana, o Tesouro Nacional promoveu a maior intervenção no mercado de títulos públicos brasileiros dos últimos 10 anos, na tentativa de manter as taxas mais estáveis, diante da pressão vendedora dos investidores institucionais.
O Tesouro entrou para recomprar os papéis da dívida brasileira todos os dias, de segunda à sexta.
Ao entrar como comprador, o Tesouro consegue dar liquidez para o mercado e diminuir o nível de oscilação de preços e taxas, para o mercado volte a operar “normalmente”.
Ainda assim, as taxas estão nos maiores níveis dos últimos meses. E, sem um desfecho para a guerra, os títulos públicos do Brasil e do mundo devem continuar no ritmo da guerra.
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