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NÃO FORAM SÓ AS AÇÕES

Títulos de renda fixa de Hapvida, CSN e Assaí também refletem momento difícil das empresas e veem forte queda no mercado

Excesso de dívida e queima de caixa preocupam investidores, que exigem prêmio maior para manter papéis na carteira

Imagem: Montagem Seu Dinheiro

Nem sempre a visão negativa do mercado para as ações de uma empresa chega aos títulos de renda fixa desta mesma empresa.

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Os resultados operacionais ou financeiros de uma companhia tendem a afetar o preço das ações, uma vez que impactam o lucro e, consequentemente, o retorno aos acionistas. Já os títulos de renda fixa costumam ser mais influenciados pela saúde financeira da empresa, isto é, a capacidade de ela honrar suas dívidas, independentemente dos resultados.

Como os credores (detentores dos títulos) têm prioridade no recebimento em relação aos acionistas, para a renda fixa sofrer, a situação da empresa precisa estar um tanto deteriorada. Calote é coisa muito séria.

Recentemente, algumas empresas passaram por esse nível de desgaste e chegaram a pedir recuperação judicial ou extrajudicial. É o caso de nomes como Raízen (RAIZ4) e GPA (PCAR3).

No entanto, outros nomes que não chegaram a esse ponto (ao menos não ainda) já estão no radar do mercado de renda fixa.

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O relatório semanal de acompanhamento do mercado de crédito do BTG Pactual mostrou que Hapvida, CSN e Assaí passaram por uma reprecificação intensa em suas dívidas de fevereiro para março.

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Juntas, as três empresas tiveram o maior peso na abertura de prêmio do índice geral de debêntures indexadas ao CDI, o IDA-Geral.

Dados até o dia 18 de março mostram uma abertura adicional de 14 pontos-base, levando o índice para CDI + 1,42%. Desse total, Hapvida, CSN e Assaí responderam por 11 pontos-base.

Prêmios maiores na renda fixa

Primeiro é preciso entender o que é o prêmio da renda fixa. Chamados de spreads, esses prêmios são a diferença de taxa que um título de crédito privado paga em relação ao título público de mesmo vencimento.

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Como os títulos públicos têm risco soberano, são considerados os mais seguros da renda fixa. A dívida das empresas, por outro lado, tem o risco do emissor e requer um prêmio para o investidor ter interesse em comprar.

Quanto maior o spread, maior o prêmio que a empresa está pagando para o investidor encarar o risco da sua dívida.

O IDA-DI é um índice que monitora as taxas das debêntures indexadas ao CDI. A pontuação desse índice aumentar significa que os spreads dos títulos acompanhados aumentaram.

Como são centenas de títulos, é incomum que empresas específicas tenham um peso muito significativo na abertura ou fechamento desses spreads. Quando acontece, é porque o movimento foi intenso.

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E foi o que aconteceu com Hapvida, CSN e Assaí. Em outras palavras, os títulos emitidos por essas três empresas viram um forte aumento nas suas taxas e uma queda nos seus preços, indicando que a percepção de risco do mercado em relação a eles aumentou.

O processo começou em fevereiro. Segundo o relatório do BTG, o IDA-DI terminou o mês passado com uma abertura de 9 pontos-base (bps) e spread médio de CDI + 1,28%.

Naquele período, a abertura foi ditada quase inteiramente por dois nomes: Hapvida, com impacto de +5 bps, e CSN, com +4 bps.

Mas a tendência de alta nas taxas persistiu em março. Dados parciais até o dia 18 mostram uma abertura adicional de 14 bps, levando o índice para um spread médio de CDI + 1,42%.

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Neste período, o Assaí (Sendas) juntou-se ao grupo, contribuindo com +3 bps, enquanto Hapvida e CSN somaram mais +5 bps e +3 bps, respectivamente.

IDA-DI como referência

O IDA-DI é o principal termômetro do mercado secundário de dívida corporativa, em que investidores negociam títulos de dívida entre si por meio das plataformas de corretoras. No mercado secundário, o que dita os preços e taxas é a oferta e demanda dos papéis.

Quando os investidores querem se desfazer de um título de dívida e há grande volume de vendas, o preço do papel cai e a taxa aumenta, na tentativa de atrair compradores. É isso que gera a abertura ou fechamento dos spreads.

Uma saída em massa de papéis, que gera abertura significa nos prêmios, é um mau sinal sobre a empresa emissora do título. Quer dizer que os investidores estão vendo mais risco no pagamento à frente.

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Em outras palavras, quando o spread médio do IDA-DI sobe, o mercado está dizendo que o risco médio de emprestar para empresas aumentou. Em fevereiro e março, especificamente, esse risco aumentou para Hapvida, CSN e Assaí.

Por que Hapvida, Assaí e CSN?

A cautela do mercado com essas empresas não é aleatória.

O relatório do BTG aponta que a aversão ao risco na renda fixa cresceu diante de companhias em situações financeiras mais vulneráveis.

  • Alavancagem alta: endividamento elevado em relação à capacidade de gerar lucro;
  • Queima de caixa: consumo intenso de recursos operacionais, em volume superior à entrada de capital; e
  • Deterioração da qualidade de crédito: sinais mais evidentes de que a capacidade de pagamento dessas empresas piorou nos últimos meses.

Os analistas ponderam que, diante dos eventos de crédito recentes, os investidores não estão mais dispostos a ignorar sinais de fraqueza financeira em troca de retornos baixos.

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A CSN corre contra o tempo para vender ativos e conseguir empréstimos para refinanciar dívidas de curto e médio prazo.

A Hapvida passa por altos e baixos há alguns meses, sem conseguir resultados constantes. Após o balanço do quarto trimestre de 2025, a diretoria sinalizou a possibilidade de vender ativos e revisar as operações.

Por fim, o Assaí apresenta resultados fracos consecutivos diante dos juros altos. A companhia, que já fez parte do Grupo Pão de Açúcar, sinalizou que cogita demissões, redução na expansão das lojas e possíveis fechamentos de unidades para melhorar as contas.

Atenção nos títulos e fundos de crédito

Para o investidor pessoa física, ‘abertura de spread’ é sinônimo de volatilidade negativa no curto prazo.

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Taxa e preço têm correlação negativa no universo da renda fixa. Quando as taxas de mercado sobem para refletir um risco maior, os títulos corrigem seus preços e perdem valor de mercado para se ajustarem à nova realidade.

Na carteira, o investidor vai ver o seu retorno negativo após essa correção. Caso o investimento seja via fundo, a performance do fundo também será prejudicada — a depender do tamanho da exposição aos títulos que tiveram abertura de taxas.

Este processo de marcação a mercado está impactando a performance dos fundos de crédito tradicional há algum tempo.

Segundo o BTG, esses fundos de debêntures sem isenção de imposto de renda registraram resgates de R$ 21 bilhões no acumulado do ano até meados de março.

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A correção das taxas já afeta a estratégia das empresas que buscam captar recursos. O volume de emissões desacelerou em fevereiro, totalizando R$ 37 bilhões. O mercado agora exige prêmios condizentes com o risco, forçando uma seletividade que pune as empresas mais endividadas.

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