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Órgão público tenta apaziguar os humores dos agentes financeiros, que ficaram mais reticentes em relação ao controle da inflação e das contas públicas

As taxas dos títulos públicos do Tesouro Direto estão na manchete há dias. Eis que nessa semana começou a se falar de cancelamento de leilão, de taxa do Tesouro IPCA+ chegando a 10% ao ano e estresse do mercado. Afinal, o que está acontecendo?
Primeiro é preciso entender que os agentes financeiros estão estressados há algum tempo, não é de agora.
O ano de 2026 era para ser de dólar fraco, cortes nos juros globais e desaceleração da inflação. Mas a guerra no Oriente Médio e a disparada do petróleo virou esse cenário. Agora a expectativa é de juros altos, repique de inflação consistente e maior força do dólar.
Esse é um combo de notícias muito ruins para o Brasil, que vinha de uma tendência de arrefecimento da inflação até fevereiro. O repique de preços já atingiu nossa economia e os agentes financeiros esperavam uma resposta dura do Banco Central na taxa de juros, para controlar a situação. Mas ela não veio.
Na última quarta-feira (19), o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central cortou a Selic em 0,25 ponto percentual (p.p.). A redução era consenso, o problema foi o comunicado.
Os agentes financeiros acharam o texto confuso. Os diretores do BC fizeram diversas pontuações sobre os riscos para a inflação corrente e as expectativas, porém, sinalizaram a necessidade de precisar de mais dados para avaliar os próximos passos.
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No mesmo dia, o Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA) adotou um tom muito mais duro em relação à inflação no país. O entendimento do mercado foi de que a autoridade monetária deve aumentar os juros por lá ainda em 2026.
O Banco Central Europeu (BCE) retomou o aperto monetário na zona do euro e o Banco do Japão (BoJ) elevou as taxas para o maior nível em duas décadas. Tudo na mesma semana.
Para os agentes financeiros brasileiros, a postura do Copom foi descasada do que está acontecendo no mundo. Aumentou a incerteza em relação à inflação e aos juros no futuro — isso em um contexto de cenário externo mais difícil.
Também está no radar a preocupação fiscal. Juros mais elevados alimentam o custo da dívida pública, e a expectativa em relação ao ajuste fiscal em 2027 depende do rumo eleitoral deste ano. Ou seja, mais incerteza.
Ainda na quarta-feira (19), as taxas do Tesouro Direto dispararam depois da decisão do Fed. Na quinta-feira (20), outra disparada dos juros em resposta ao Copom “confuso”.
Eis que na segunda-feira (22), o Tesouro Nacional anunciou o cancelamento da oferta de NTN-B (nome técnico do Tesouro IPCA+) previsto para o dia seguinte.
A agenda de leilões de títulos públicos do governo para os investidores institucionais é semanal. As taxas do Tesouro IPCA+ e Tesouro Prefixado que aparecem na plataforma do Tesouro Direto são o resultado dos prêmios que os institucionais estabeleceram nos leilões.
O cancelamento repentino gerou algumas avaliações entre os agentes financeiros.
A primeira foi de preservação das contas públicas. Toda a incerteza em volta do cenário local e externo fez os investidores institucionais exigirem taxas muito altas para comprar a dívida pública.
O juro real acima de 8,5% no Tesouro IPCA é um marco histórico — e um patamar muito elevado para um título soberano.
Ao evitar emitir dívida com essas taxas em um momento desfavorável, o Tesouro deixa de referendar os juros exigidos pelo mercado. Além disso, diminui o custo da dívida em prazos médios e longos.
Em março, quando a guerra entre EUA, Israel e Irã tomava proporções mais amplas, o Tesouro Nacional cancelou alguns leilões e fez algumas recompras de títulos públicos para dar liquidez aos investidores que estavam vendendo os papéis públicos.
Cancelamento de leilões e recompra de títulos públicos são movimentos técnicos que o Tesouro Nacional promove de tempos em tempos, diante de disfuncionalidades no mercado.
São operações em nível institucional, que não afetam diretamente os investidores pessoa física e o Tesouro Direto.
O efeito mais importante dessas operações é a precificação dos títulos públicos. Nesta terça-feira (23), as taxas do Tesouro Direto continuam em níveis historicamente muito elevados.
O Tesouro IPCA + 2032 continua oferecendo 8,52% de juro acima da inflação. O Tesouro IPCA + 2040 está pagando 7,60% de juro real ao ano. Ambas são taxas expressivas, que permitem um retorno consistente por vários anos para o investidor que tiver apetite por levar o título público até o vencimento.
As taxas dos prefixados também estão nas alturas. O Tesouro Prefixado 2029 e o 2032 aparecem com o mesmo retorno, de 14,83% ao ano.
É importante lembrar que este cenário estressado e incerto significa mais volatilidade para os títulos públicos. Taxas e preços oscilam diariamente, mas em ambientes como o atual, essas oscilações podem ser mais fortes.
Para quem consegue levar os papéis até o vencimento e não se assusta com as oscilações, as taxas do Tesouro Direto são uma grande oportunidade.
Novos cancelamentos de leilão, redução de lotes, recompras de títulos, entre outros movimentos podem acontecer nas próximas semanas.
Analistas de mercado não veem uma resolução rápida para os problemas externos e internos, no que fiz respeito a juros, inflação, guerra ou eleições.
A avaliação de o juro real chegar a 10% é em um cenário pessimista, que não é consenso no mercado.
Se o Tesouro Nacional já está reticente e tomando precauções para não emitir Tesouro IPCA com 8,5% de taxa, o que dirá a 10%. A avaliação de gestores é que as medidas de cautela devem surtir efeito nos próximos dias.
Mas a solução real só vem com a melhora na inflação e o tal esperado ajuste fiscal.
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