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Leilão cancelado, Copom confuso, IPCA+10%: os incêndios que o Tesouro Nacional tenta controlar e como isso afeta as taxas do Tesouro Direto

Órgão público tenta apaziguar os humores dos agentes financeiros, que ficaram mais reticentes em relação ao controle da inflação e das contas públicas

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Baú cheio de moedas, com a logo do Tesouro Nacional ao lado. - Imagem: Canva | Montagem: Maria Eduarda Nogueira

As taxas dos títulos públicos do Tesouro Direto estão na manchete há dias. Eis que nessa semana começou a se falar de cancelamento de leilão, de taxa do Tesouro IPCA+ chegando a 10% ao ano e estresse do mercado. Afinal, o que está acontecendo?

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Primeiro é preciso entender que os agentes financeiros estão estressados há algum tempo, não é de agora.

O ano de 2026 era para ser de dólar fraco, cortes nos juros globais e desaceleração da inflação. Mas a guerra no Oriente Médio e a disparada do petróleo virou esse cenário. Agora a expectativa é de juros altos, repique de inflação consistente e maior força do dólar.

Esse é um combo de notícias muito ruins para o Brasil, que vinha de uma tendência de arrefecimento da inflação até fevereiro. O repique de preços já atingiu nossa economia e os agentes financeiros esperavam uma resposta dura do Banco Central na taxa de juros, para controlar a situação. Mas ela não veio.

Copom confuso

Na última quarta-feira (19), o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central cortou a Selic em 0,25 ponto percentual (p.p.). A redução era consenso, o problema foi o comunicado.

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Os agentes financeiros acharam o texto confuso. Os diretores do BC fizeram diversas pontuações sobre os riscos para a inflação corrente e as expectativas, porém, sinalizaram a necessidade de precisar de mais dados para avaliar os próximos passos.

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No mesmo dia, o Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA) adotou um tom muito mais duro em relação à inflação no país. O entendimento do mercado foi de que a autoridade monetária deve aumentar os juros por lá ainda em 2026.

O Banco Central Europeu (BCE) retomou o aperto monetário na zona do euro e o Banco do Japão (BoJ) elevou as taxas para o maior nível em duas décadas. Tudo na mesma semana.

Para os agentes financeiros brasileiros, a postura do Copom foi descasada do que está acontecendo no mundo. Aumentou a incerteza em relação à inflação e aos juros no futuro — isso em um contexto de cenário externo mais difícil.

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Também está no radar a preocupação fiscal. Juros mais elevados alimentam o custo da dívida pública, e a expectativa em relação ao ajuste fiscal em 2027 depende do rumo eleitoral deste ano. Ou seja, mais incerteza.

Ainda na quarta-feira (19), as taxas do Tesouro Direto dispararam depois da decisão do Fed. Na quinta-feira (20), outra disparada dos juros em resposta ao Copom “confuso”.

Cancelamento do leilão

Eis que na segunda-feira (22), o Tesouro Nacional anunciou o cancelamento da oferta de NTN-B (nome técnico do Tesouro IPCA+) previsto para o dia seguinte.

A agenda de leilões de títulos públicos do governo para os investidores institucionais é semanal. As taxas do Tesouro IPCA+ e Tesouro Prefixado que aparecem na plataforma do Tesouro Direto são o resultado dos prêmios que os institucionais estabeleceram nos leilões.

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O cancelamento repentino gerou algumas avaliações entre os agentes financeiros.

A primeira foi de preservação das contas públicas. Toda a incerteza em volta do cenário local e externo fez os investidores institucionais exigirem taxas muito altas para comprar a dívida pública.

O juro real acima de 8,5% no Tesouro IPCA é um marco histórico — e um patamar muito elevado para um título soberano.

Ao evitar emitir dívida com essas taxas em um momento desfavorável, o Tesouro deixa de referendar os juros exigidos pelo mercado. Além disso, diminui o custo da dívida em prazos médios e longos.

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Em março, quando a guerra entre EUA, Israel e Irã tomava proporções mais amplas, o Tesouro Nacional cancelou alguns leilões e fez algumas recompras de títulos públicos para dar liquidez aos investidores que estavam vendendo os papéis públicos.

Como fica o Tesouro Direto?

Cancelamento de leilões e recompra de títulos públicos são movimentos técnicos que o Tesouro Nacional promove de tempos em tempos, diante de disfuncionalidades no mercado.

São operações em nível institucional, que não afetam diretamente os investidores pessoa física e o Tesouro Direto.

O efeito mais importante dessas operações é a precificação dos títulos públicos. Nesta terça-feira (23), as taxas do Tesouro Direto continuam em níveis historicamente muito elevados.

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O Tesouro IPCA + 2032 continua oferecendo 8,52% de juro acima da inflação. O Tesouro IPCA + 2040 está pagando 7,60% de juro real ao ano. Ambas são taxas expressivas, que permitem um retorno consistente por vários anos para o investidor que tiver apetite por levar o título público até o vencimento.

As taxas dos prefixados também estão nas alturas. O Tesouro Prefixado 2029 e o 2032 aparecem com o mesmo retorno, de 14,83% ao ano.

É importante lembrar que este cenário estressado e incerto significa mais volatilidade para os títulos públicos. Taxas e preços oscilam diariamente, mas em ambientes como o atual, essas oscilações podem ser mais fortes.

Para quem consegue levar os papéis até o vencimento e não se assusta com as oscilações, as taxas do Tesouro Direto são uma grande oportunidade.

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Tesouro IPCA + 10?

Novos cancelamentos de leilão, redução de lotes, recompras de títulos, entre outros movimentos podem acontecer nas próximas semanas.

Analistas de mercado não veem uma resolução rápida para os problemas externos e internos, no que fiz respeito a juros, inflação, guerra ou eleições.

A avaliação de o juro real chegar a 10% é em um cenário pessimista, que não é consenso no mercado.

Se o Tesouro Nacional já está reticente e tomando precauções para não emitir Tesouro IPCA com 8,5% de taxa, o que dirá a 10%. A avaliação de gestores é que as medidas de cautela devem surtir efeito nos próximos dias.

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Mas a solução real só vem com a melhora na inflação e o tal esperado ajuste fiscal.

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