Leilão cancelado, Copom confuso, IPCA+10%: os incêndios que o Tesouro Nacional tenta controlar e como isso afeta as taxas do Tesouro Direto
Órgão público tenta apaziguar os humores dos agentes financeiros, que ficaram mais reticentes em relação ao controle da inflação e das contas públicas

As taxas dos títulos públicos do Tesouro Direto estão na manchete há dias. Eis que nesta semana começou a se falar de cancelamento de leilão, de taxa do Tesouro IPCA+ chegando a 10% ao ano e estresse do mercado. Afinal, o que está acontecendo?
Primeiro é preciso entender que os agentes financeiros estão estressados há algum tempo, não é de agora.
O ano de 2026 era para ser de dólar fraco, cortes nos juros globais e desaceleração da inflação. Mas a guerra no Oriente Médio e a disparada do petróleo viraram esse cenário. Agora a expectativa é de juros altos, repique de inflação consistente e maior força do dólar.
Esse é um combo de notícias muito ruins para o Brasil, que vinha de uma tendência de arrefecimento da inflação até fevereiro. O repique de preços já atingiu nossa economia, e os agentes financeiros esperavam uma resposta dura do Banco Central na taxa de juros, para controlar a situação. Mas ela não veio.
- LEIA TAMBÉM: O que o Copom disse sobre o futuro da Selic, depois de comunicado confuso ao cortar a taxa para 14,25% ao ano
Copom confuso
Na última quarta-feira (17), o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central cortou a Selic em 0,25 ponto percentual (p.p.). A redução era consenso, o problema foi o comunicado.
Os agentes financeiros acharam o texto confuso. Os diretores do BC fizeram diversas pontuações sobre os riscos para a inflação corrente e as expectativas, porém, sinalizaram a necessidade de mais dados para avaliar os próximos passos.
Leia Também
No mesmo dia, o Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA) adotou um tom muito mais duro em relação à inflação no país. O entendimento do mercado foi de que a autoridade monetária deve aumentar os juros por lá ainda em 2026.
O Banco Central Europeu (BCE) retomou o aperto monetário na zona do euro, e o Banco do Japão (BoJ) elevou as taxas para o maior nível em duas décadas. Tudo na mesma semana.
Para os agentes financeiros brasileiros, a postura do Copom foi descasada do que está acontecendo no mundo. Aumentou a incerteza em relação à inflação e aos juros no futuro — isso em um contexto de cenário externo mais difícil.
Também está no radar a preocupação fiscal. Juros mais elevados alimentam o custo da dívida pública, e a expectativa em relação ao ajuste fiscal em 2027 depende do rumo eleitoral deste ano. Ou seja, mais incerteza.
Ainda na quarta-feira (17), as taxas do Tesouro Direto dispararam depois da decisão do Fed. Na quinta-feira (18), outra disparada dos juros em resposta ao Copom “confuso”.
Cancelamento do leilão
Eis que na segunda-feira (22), o Tesouro Nacional anunciou o cancelamento da oferta de NTN-B (nome técnico do Tesouro IPCA+) previsto para o dia seguinte.
A agenda de leilões de títulos públicos do governo para os investidores institucionais é semanal. As taxas do Tesouro IPCA+ e do Tesouro Prefixado que aparecem na plataforma do Tesouro Direto são o resultado dos prêmios que os institucionais estabeleceram nos leilões.
O cancelamento repentino gerou algumas avaliações entre os agentes financeiros.
A primeira foi de preservação das contas públicas. Toda a incerteza em volta do cenário local e externo fez os investidores institucionais exigirem taxas muito altas para comprar a dívida pública.
O juro real acima de 8,5% no Tesouro IPCA+ é um marco histórico — e um patamar muito elevado para um título soberano.
Ao evitar emitir dívida com essas taxas em um momento desfavorável, o Tesouro deixa de referendar os juros exigidos pelo mercado. Além disso, diminui o custo da dívida em prazos médios e longos.
Em março, quando a guerra entre EUA, Israel e Irã tomava proporções mais amplas, o Tesouro Nacional cancelou alguns leilões e fez algumas recompras de títulos públicos para dar liquidez aos investidores que estavam vendendo os papéis públicos.
Como fica o Tesouro Direto?
Cancelamento de leilões e recompra de títulos públicos são movimentos técnicos que o Tesouro Nacional promove de tempos em tempos, diante de disfuncionalidades no mercado.
São operações em nível institucional, que não afetam diretamente os investidores pessoa física e o Tesouro Direto.
O efeito mais importante dessas operações é a precificação dos títulos públicos. Nesta terça-feira (23), as taxas do Tesouro Direto continuam em níveis historicamente muito elevados.
O Tesouro IPCA+ 2032 continua oferecendo 8,52% de juro acima da inflação. O Tesouro IPCA+ 2040 está pagando 7,60% de juro real ao ano. Ambas são taxas expressivas, que permitem um retorno consistente por vários anos para o investidor que tiver apetite por levar o título público até o vencimento.
As taxas dos prefixados também estão nas alturas. O Tesouro Prefixado 2029 e o 2032 aparecem com o mesmo retorno, de 14,83% ao ano.
É importante lembrar que este cenário estressado e incerto significa mais volatilidade para os títulos públicos. Taxas e preços oscilam diariamente, mas em ambientes como o atual, essas oscilações podem ser mais fortes.
Para quem consegue levar os papéis até o vencimento e não se assusta com as oscilações, as taxas do Tesouro Direto são uma grande oportunidade.
Tesouro IPCA + 10%?
Novos cancelamentos de leilão, redução de lotes, recompras de títulos, entre outros movimentos podem acontecer nas próximas semanas.
Analistas de mercado não veem uma resolução rápida para os problemas externos e internos, no que diz respeito a juros, inflação, guerra ou eleições.
A avaliação de o juro real chegar a 10% é em um cenário pessimista, que não é consenso no mercado.
Se o Tesouro Nacional já está reticente e tomando precauções para não emitir Tesouro IPCA+ com 8,5% de taxa, quem dirá a 10%. A avaliação de gestores é que as medidas de cautela devem surtir efeito nos próximos dias.
Mas a solução real só vem com a melhora na inflação e o tão esperado ajuste fiscal.
TESOURO DIRETO
Restrito ao Banco do Brasil, Tesouro Reserva chega a R$ 8 bilhões em apenas cinco meses; o que explica o sucesso do novo título público?
29 de outubro de 2026 - 13:19RENDA FIXA
“Marcação a mercado não é volatilidade, é transparência para o investidor”, diz diretor da BlackRock ao defender ETFs de renda fixa
28 de outubro de 2026 - 17:39OLHA O IMPOSTO DE NOVO
LCIs, LCAs e outros isentos voltam à mira do governo e podem passar a ter IOF, diz jornal
28 de outubro de 2026 - 11:49RENDA FIXA
Renda fixa em promoção? Juros sobem após a eleição e XP vê oportunidade em títulos que agora estão mais baratos
27 de outubro de 2026 - 19:45DIA DE SANGRIA
O Tesouro IPCA+ 8% está de volta: Tesouro Direto abre com altos retornos e tombo de mais de 20% nos títulos públicos
26 de outubro de 2026 - 13:19RENDA FIXA
Tesouro Direto permanece fechado após vitória de Lula por forte oscilação nos retornos; o que acontece agora?
26 de outubro de 2026 - 10:45RENDA FIXA
CRAs estão com os dias contados? Dinheiro do agronegócio está migrando para outros papéis isentos, mostram dados da Anbima
20 de outubro de 2026 - 18:31SD ENTREVISTA
Brasileiro é ‘viciado em CDI’, mas queda de juro pode fazer bem para a renda fixa, diz gestor de crédito que se antecipou à onda de resgates
20 de outubro de 2026 - 15:41RENDA PASSIVA EM DOBRO
Banco do Brasil lança ‘Cofrinho de Proventos’ para reinvestir dividendos de forma automática, mas tem um ponto de atenção
19 de outubro de 2026 - 17:02RENDA FIXA
Vale trocar um Tesouro IPCA+ por uma debênture da Sabesp? Títulos isentos passam a pagar mais que os públicos, mostra BTG
16 de outubro de 2026 - 17:33ESTRATÉGIA DE INVESTIMENTO
XP recomenda vender títulos do Tesouro Direto para comprar papéis isentos; veja as indicações na renda fixa
14 de outubro de 2026 - 18:32Conteúdo Empiricus
Tesouro IPCA+ entregou mais de 14% de valorização com resultado do 1º turno; confira as oportunidades na renda fixa para a segunda metade das eleições
14 de outubro de 2026 - 15:05SD EXPLICA
O que aconteceu com as LCIs e LCAs que pagavam de 95% a 100% do CDI? Entenda por que elas estão sumindo
13 de outubro de 2026 - 14:27RENDA FIXA
Tesouro Direto: o mercado queimou a largada? Confira a tese defensiva do Safra para os títulos públicos
8 de outubro de 2026 - 18:15RENDA FIXA
Tesouro Direto: Tesouro IPCA+ 8% não existe mais, e quem comprou já lucra até 25%; veja quanto os títulos pagam agora
7 de outubro de 2026 - 18:23CARTEIRA RECOMENDADA
Ainda tem renda fixa pagando IPCA+ 8% por aí: veja a escolha dos bancões para títulos isentos e Tesouro Direto
7 de outubro de 2026 - 16:02VISÃO DO GESTOR
A eleição já mudou a forma de investir? Gestora de fortunas aumenta aposta em Tesouro IPCA+, prefixados e ações
6 de outubro de 2026 - 18:29CRÉDITO PRIVADO
A correção das debêntures incentivadas acabou? Sparta vê risco de nova onda de resgates
6 de outubro de 2026 - 15:58RENDA FIXA
Tesouro Direto: preços disparam e taxas caem após primeiro turno, com ‘otimismo Flávio’; veja quanto o Tesouro IPCA+ oferece agora
5 de outubro de 2026 - 15:49RENDA FIXA