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Taxas sobem após mercado entender que o Copom deixou mensagem aberta para novos cortes nos juros no futuro

Os títulos do Tesouro Direto estão em polvorosa após a Super Quarta. A decisão dos bancos centrais do Brasil e dos Estados Unidos sobre os juros levou a um movimento de reprecificação das taxas dos títulos públicos que começou ontem e chegou ao ápice nesta quinta-feira (18).
A primeira esticada nas taxas aconteceu ainda na quarta-feira. Assim que o Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA) decidiu pela manutenção dos juros na faixa dos 3,50% e 3,75% ao ano, as negociações na plataforma do Tesouro Direto foram interrompidas devido à volatilidade.
Não porque o Fed manteve os juros, mas porque adotou um tom duro com a inflação, dando a entender que poderá aumentar as taxas ainda neste ano. O efeito foi imediato nos Treasurys, títulos públicos dos EUA. Os principais vencimentos, de dois, 10 e 30 anos, tiveram alta na taxa.
E quando os Treasurys disparam, os títulos do Tesouro Direto acompanham.
O Tesouro Prefixado 2029, que oferecia taxa de 14,46% ao ano antes de interromper as negociações, voltou oferecendo 14,73% ao ano. O papel de vencimento em 2032 abriu na mesma medida, saindo de 14,41% para 14,67% ao ano.
Os títulos indexados à inflação passaram pela mesma reprecificação. O Tesouro IPCA+ 2032 saiu de uma taxa real de 8,22% para 8,33% ao ano; enquanto o papel de vencimento em 2040 abriu de 7,43% para 7,51%.
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Mas a reprecificação nos papéis do Tesouro Direto não parou por aí.
Depois que os mercados brasileiros já tinham fechado, o Copom divulgou a sua decisão sobre os juros locais. Assim como aconteceu com o Fed, a decisão de corte de 0,25 ponto percentual (p.p.) era amplamente esperada. O que pegou foi o comunicado.
Os diretores do Banco Central deixaram em aberto a possibilidade cortar mais a taxa Selic ou interromper o ciclo de queda.
O comunicado detalhou todos os riscos que a autoridade monetária está monitorando para a inflação, indicando a postura vigilante. Porém, os agentes financeiros avaliaram a postura do Copom como leniente com o aumento de preços.
Em relatório, o economista-chefe do Goldman Sachs para a América Latina, Alberto Ramos, afirma que “a declaração e a orientação futura carecem de clareza e objetividade e parecem pacifistas”.
“A declaração não parece dar a devida ênfase à deterioração significativa do cenário inflacionário, ao aumento significativo nas previsões de inflação condicional baseadas no modelo do Banco Central ao longo do horizonte relevante para a política monetária e a um crescimento mais resiliente e pano de fundo no mercado de trabalho”, escreve o economista.
Diante deste incômodo, a reprecificação dos títulos que começou na véspera se estendeu nesta quinta-feira (18).
O salto no juro real do Tesouro IPCA+ 2032 foi significativo e representa um novo recorde para o papel. O prêmio subiu dos 8,33% para 8,51% ao ano.
O novo patamar reflete a incerteza que os agentes financeiros estão vendo para a trajetória de juros e inflação no futuro.
O Tesouro IPCA+ 2040 também subiu, de 7,51% para 7,61% ao ano. Não se trata de um novo recorde, embora esteja próximo (7,71%). Já o Tesouro IPCA+ 2050 foi menos afetado, dado o vencimento mais longo: de 7,21% para 7,26% ao ano.
O impacto nas taxas do Tesouro Prefixado foi bem menor, com pouca mudança em relação às taxas que já abriram no dia anterior.
O Tesouro Prefixado 2029 subiu de 14,73% para 14,75% na abertura, enquanto o título de vencimento em 2032 avançou de 14,67% para 14,76% ao ano.
Os analistas Victor Scalet e André Buzzini, da XP Investimentos, afirmam que houve uma piora consistente no humor dos agentes financeiros, que levou a essa reprecificação na leitura dos juros futuros.
Aumento dos juros globais, sequência de surpresas altistas dos indicadores locais, medidas de estímulo do governo ao consumo e discussões a respeito da eleição. Esse combo, somado à possibilidade de aumento de juros nos EUA, foi decisivo.
Para eles, o mercado está precificando uma possibilidade de aumento de juros no Brasil que “não é consistente com o cenário-base dos economistas nem com as projeções atuais do modelo do Banco Central”.
O aumento limitado das taxas no Tesouro Prefixado indica que essa leitura de alta da Selic está limitada. Mesmo assim, a leitura de inflação maior no futuro ganhou mais espaço.
“Apesar de vermos prêmio nos juros locais, não parece haver um gatilho claro no curto prazo para reversão total das altas precificadas (mesmo com a queda nos preços do petróleo)”, escrevem em relatório.
Na prática, isso significa que as taxas do Tesouro Direto têm pouco espaço para ceder no curto prazo — principalmente com a campanha eleitoral batento à porta.
As taxas acima de 8% do Tesouro IPCA+ são os maiores níveis desde a criação do título público, e isso não é trivial.
Para a XP, “sob uma perspectiva histórica, trata-se de uma janela pouco frequente para alocação em ativos indexados à inflação, que hoje combinam proteção do poder de compra com um prêmio real elevado.”
Em outras palavras, isso significa que, se a inflação piorar, o investimento tem correção e está protegido. Por outro lado, mesmo se a inflação ceder, o juro real acima de 8% garante um prêmio significativo, o que pode fazer com que o título se valorize no mercado secundário.
Isso é interessante para quem tem interesse em negociar o preço dos títulos públicos. Porém, a oportunidade agora, segundo os analistas, é o carrego desses papéis até o vencimento.
Rafael Winalda, especialista em renda fixa do banco Inter, destaca os vencimentos de médio e longo prazo, que oferecem a melhor oportunidade de travar as taxas altas por mais tempo.
A segunda escolha dos analistas de renda fixa é o Tesouro Selic para caixa ou reserva de emergência. Com a taxa básica ainda nas alturas, o principal título público do Tesouro segue atraente para aplicações de curto prazo.
O Tesouro Prefixado é mais complicado. Esse é o título público mais sensível às oscilações de expectativa de juros dos agentes financeiros. Quando a expectativa é de juros maiores ou menos, a taxa do prefixado é a primeira a oscilar — e isso tem acontecido bastante.
É claro que a premissa do “levando até o vencimento, a taxa contratada é paga” vale aqui também. Mas para um investidor que não aguenta ver oscilação na carteira pode não ser a melhor pedida.
A XP recomenda uma exposição pequena e tática, com prazos pequenos de vencimento, principalmente diante de um cenário de aumento da inflação.
Afinal, ainda há o risco de travar uma taxa em 14,7% ao ano e ver o juro subir de novo. Vai saber.
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