Você pode estar investindo em FIDCs sem saber: como os fundos de crédito estão recorrendo aos recebíveis para entregar mais retorno
Fundos de crédito estão recorrendo cada vez mais aos FIDCs em busca de retornos e diversificação; entenda o que essa estratégia significa para os fundos

O investidor aplica dinheiro em um fundo de crédito esperando investir em uma carteira recheada de debêntures, crédito bancário, CRIs e CRAs. E, de fato, esses ativos continuam ocupando um espaço relevante nos portfólios. A novidade é que uma parcela crescente do retorno dessas carteiras tem vindo de um produto que há pouco tempo ocupava um espaço muito menor nos fundos distribuídos ao investidor de varejo: os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs).
Nos últimos anos, os FIDCs deixaram de ser uma classe concentrada nos investidores profissionais. Eles foram liberados para o investidor pessoa física e começaram a ganhar espaço dentro dos fundos de crédito distribuídos ao investidor de varejo.
Na prática, atualmente muitos brasileiros passaram a ter exposição a esses ativos sem necessariamente saber disso. E os números mostram a força desse movimento.
Conforme dados da Anbima, os FIDCs somaram R$ 5,3 bilhões em captações no mês de junho, consolidando-se como o segundo principal instrumento entre os ativos de renda fixa — atrás somente das debêntures.
No ano, esses fundos de crédito estruturado acumulam R$ 30,6 bilhões de captação, com as subscrições concentradas nos fundos de investimento.
Por trás desse avanço está a busca dos gestores por retorno, em um ambiente em que houve queda dos spreads — diferença entre as taxas dos títulos corporativos em relação aos títulos públicos de mesmo prazo e indexador, que representa o prêmio de risco do investimento.
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Mas não é tão simples assim. A participação dos FIDCs nos fundos de crédito tradicionais levanta alguns debates sobre risco, liquidez e diversificação em carteiras voltadas, em última análise, para investidores de renda fixa.
O que os fundos enxergam nos FIDCs
Em essência, um FIDC é um fundo de crédito. Porém, ele opera em uma estrutura mais complexa que reúne direitos creditórios — recebíveis originados de operações como crédito consignado, financiamento de veículos, cartões de crédito, duplicatas comerciais e outras modalidades.
O risco de crédito dessas operações, em sua maioria, é um risco “pessoa física”. Já as debêntures — incentivadas, com isenção de IR, ou tradicionais — têm um risco corporativo, vinculado ao emissor da dívida.
Para Pierre Jadoul, diretor-executivo e gestor responsável pela estratégia de crédito da ARX Investimentos, o principal atrativo dos FIDCs é essa capacidade de acessar ativos que dificilmente estariam disponíveis de forma direta para os fundos de crédito. Com créditos de diferentes naturezas, esses fundos oferecem uma combinação “interessante” de risco e retorno quando comparados às debêntures, afirma Jadoul.
Alan Corrêa, gestor de portfólio de crédito na Icatu Vanguarda, afirma que a atratividade dos FIDCs também passa pela estrutura das operações. Os FIDCs possuem uma divisão de cotas com camadas de proteção que não existe no crédito corporativo tradicional.
As cotas desses fundos podem ser subordinadas (com maior retorno e maior risco), mezanino (risco intermediário) e seniores (menor risco e menor retorno).
Quando há uma situação de inadimplência, as cotas subordinadas são as que ficam sem pagamento, para que as demais recebam o retorno. Se o evento de crédito for mais grave, então as mezaninos também entram no corte. As cotas seniores sempre têm a prioridade de pagamento, e geralmente é a elas que o investidor pessoa física fica exposto.
“É um alinhamento melhor para o credor. O mercado brasileiro ainda não atingiu camadas melhores de proteção para o credor, que sofre muito com as distorções de mercado. A estrutura do FIDC é bastante interessante nesse sentido”, disse Corrêa.
O prêmio e os riscos
Mas nem tudo são flores. FIDCs são ativos ilíquidos. No jargão financeiro isso significa que são produtos difíceis de negociar, com pouca saída no mercado.
“A gente entende que, ao alocar um pedaço do portfólio em FIDC você abre mão de um pouco de liquidez e consegue compensar com um retorno um pouco acima da média. Mas isso precisa ser muito bem calibrado para não comprometer a liquidez da carteira”, diz Jadoul, da ARX.
No universo do crédito, gestores costumam equilibrar três variáveis fundamentais: risco, retorno e liquidez. De modo geral, para melhorar um desses fatores é necessário renunciar, ainda que parcialmente, outro.
E é exatamente aí que entram os FIDCs. Na prática, o gestor recebe um prêmio (retorno maior) por alocar em aplicações que são mais difíceis de negociar.
Nicole Vieira, sócia da Polo Capital, afirma que tudo depende do tamanho da dose. Em fundos de crédito que exigem muita liquidez, como os fundos de resgate diário (D0) ou em um dia (D1), ou mesmo de resgate em 30 dias (D30), a parcela de FIDCs deve ser pequena.
Para ela, nesses casos, o investidor está priorizando a liquidez e o baixo risco.
Via de regra, fundos de crédito têm um limite de 20% para alocação em produtos estruturados e ilíquidos. Nessa parcela podem entrar FIDCs, CRIs, CRAs e outros fundos, como FIIs ou Fiagros.
Vieira defende uma alocação cautelosa, de 5%, nos fundos de crédito — incentivados ou não — que demandam mais liquidez e são abertos para pedidos de resgate.
Fundos de resgate longo, como os D60+, ou fundos fechados, como os listados em bolsa — que têm o patrimônio fixo e oscilação na cota em bolsa —, permitem mais espaço para esse tipo de alocação em ativos estruturados.
Acima do CDI
Vieira afirma que os FIDCs oferecem um prêmio bom, principalmente em relação às debêntures com melhor avaliação de crédito (AAA). O nível desse prêmio, entretanto, depende da escolha do lastro do fundo e da cota.
Fundos de crédito têm permissão para investir em subordinadas e mezaninos, entretanto, a maior parte dos gestores opta por ficar na cota sênior para não aumentar o risco do ativo.
Arnaldo Braga, sócio e gestor de crédito da Neo Investimentos, afirma que os lastros mais demandados nos FIDCs por esses gestores institucionais são:
- Consignado público e privado;
- Recebíveis de cartão de crédito;
- FIDCs multicedente e multissacado;
- Carteiras de duplicatas e recebíveis empresariais.
São recebíveis considerados comuns, que já oferecem uma padronização de processo que permite ao gestor do fundo de crédito ter mais clareza sobre como funciona a dívida e a operação do FIDC.
Mas essa padronização traz um contraponto: o aumento da demanda por esses (e outros) FIDCs enxugou os prêmios. Afinal, no mundo do crédito, quanto maior a demanda por um ativo, menores tendem a ser os spreads.
“Três ou quatro anos atrás a relação risco e retorno [dos FIDCs] era muito melhor que a de outros ativos de crédito. Justificava a iliquidez na carteira”, afirma Jadoul, da ARX.
Ele cita operações de consignado INSS que no passado chegaram a pagar CDI+ 2% ou 3% ao ano e que hoje podem oferecer algo próximo de CDI+ 1,2%.
Isso não significa que o prêmio esteja errado. Jadoul considera que a precificação está mais profissional e adequada. Porém, “hoje, para o mesmo retorno, tem que tomar muito mais risco.”
Corrêa, da Icatu Vanguarda, afirma que o prêmio adequado depende do fundo de crédito e do lastro do FIDC. CDI+ 1% ele considera adequado em uma carteira de recebíveis de cartão para um fundo com liquidez.
Já um CDI+ 3% em uma carteira de financiamento de veículos, para um fundo com resgate mais alongado, também parece adequado.
FIDCs vieram para ficar
Nos primeiros meses de 2026, os fundos de crédito passaram por um período de desempenho abaixo do CDI, que é o benchmark da renda fixa, depois de dois anos (2024 e 2025) em que mais de 90% dos fundos multiestratégia superaram o indicador de referência.
Até junho, somente 60% da indústria está conseguindo superar o CDI.
Para os gestores, os FIDCs têm sido uma alocação importante para atingir esse desempenho e devem continuar nas carteiras.
Segundo Jadoul, a ARX tem posições na casa dos 15%, porém em teses óbvias e defensivas, com histórico de pagamento e boa gestão. “São posições bem calculadas porque ninguém quer uma situação de precisar vender essas cotas. A ideia é levar até o vencimento”, diz o gestor.
A Polo está redesenhando parte de suas estratégias, transformando fundos com resgate em 90 dias em fundos D60 e D120. Segundo Vieira, diante dos resgastes recentes, a casa entendeu que o prazo de 90 dias não era confortável o suficiente para trabalhar melhor com operações estruturadas como os FIDCs.
“Precisa de mais tempo para alocar em produtos melhores, com a segurança de que o investidor não está sujeito a resgatar em qualquer oscilação de performance”, diz a sócia.
Braga, da Neo, que trabalha do outro lado, na estruturação de FIDCs, está de olho na demanda dos fundos de crédito. Desde o início das operações, há dois anos, a casa estava estruturando produtos para family offices e investidores qualificados.
Agora, entretanto, a Neo quer navegar essa onda do interesse dos fundos de crédito e está trabalhando em novos FIDCs para os institucionais.
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