Tesouro Direto e CDB voltam a roubar espaço de debêntures, CRIs e CRAs; veja por que o investidor está migrando
Enquanto títulos públicos ganham espaço nas carteiras e os bancos ampliam sua fatia na captação, o crédito privado perde protagonismo

Depois da moda de investir em debêntures, Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) e do Agronegócio (CRAs), que durou anos, o dinheiro do investidor brasileiro continua na renda fixa, mas está mudando de endereço (ou voltando para casa).
De um lado, os títulos públicos disponíveis na plataforma do Tesouro Direto voltaram a crescer. De outro, produtos bancários como CDBs e Letras Financeiras avançam num ritmo superior ao do crédito privado.
Esses movimentos aparecem em diferentes estatísticas compiladas pelo BTG Pactual e contam uma história.
Diante de juros elevados e de uma percepção de risco maior nos títulos corporativos, o investidor voltou a privilegiar ativos considerados mais simples, líquidos e previsíveis.
Dos calotes à saída dos investidores
Ao longo dos últimos meses, os fundos de crédito privado enfrentaram uma sequência de resgates. As reestruturações de dívida e os eventos de crédito envolvendo grandes emissores, como Raízen e GPA, elevaram a desconfiança dos investidores em relação ao crédito corporativo.
Embora as saídas tenham perdido força recentemente, a indústria ainda acumula retiradas relevantes em 2026.
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Os fundos dedicados a debêntures tradicionais (sem isenção de IR) registram resgates de R$ 85 bilhões no ano, segundo o relatório do BTG.
Já os fundos de infraestrutura (FI-Infras), que têm isenção de imposto de renda sobre os rendimentos e investem em debêntures incentivadas, acumulam R$ 18 bilhões em resgates até 24 de julho.
A pergunta que vem acompanhando o mercado desde o início dos resgates é: para onde foi esse dinheiro?
Em junho, a Empiricus questionou os gestores de crédito sobre essa migração. A grande maioria deles (88,2%) respondeu que o dinheiro continuava na renda fixa, mas em títulos de alta liquidez e baixíssimo risco. A chamada renda fixa tradicional.
Mais precisamente, Tesouro Selic e fundos indexados ao CDI (52,9%) e emissões bancárias, como CDBs, LCIs e LCAs (35,3%). Agora, o levantamento do BTG oferece uma resposta mais clara.
Tesouro Direto no centro do palco
Dados de private banking e varejo mostram que a alocação em títulos públicos cresceu 27,8% em 2026, para R$ 337 bilhões. Os papéis do Tesouro Direto são destaque, como uma das classes que mais avançaram nas carteiras dos investidores.
O BTG compilou os números com base nos dados da Anbima. O private banking é composto por clientes de altíssima renda, com patrimônio financeiro de pelo menos R$ 1 milhão. Já o varejo inclui o segmento tradicional e o chamado "varejo alta renda", que são clientes premium como Select, Prime, Personnalité, Van Gogh e outros.
Em um ambiente de juros elevados, na faixa de 14,25% ao ano, o Tesouro Direto, seja nos papéis do Tesouro Selic ou no Tesouro IPCA+, está oferecendo retornos suficientes para reduzir a necessidade de assumir risco corporativo.
Para muitos investidores, a conta ficou simples: se é possível travar taxas elevadas em títulos soberanos, com garantia da União, por que buscar retornos adicionais em ativos de empresas, que são mais arriscados?
Os fundos de renda fixa também registraram um crescimento significativo no ano, de 9,1%, alcançando R$ 1,1 trilhão.
Considerando os regates dos fundos de debêntures, gestores acreditam que os fundos que estão recebendo esse dinheiro são os fundos DI e soberanos de curto prazo, que acompanham os juros e têm liquidez diária.
Se de um lado os títulos públicos ganham espaço, a exposição direta a crédito privado — incluindo debêntures, CRIs e CRAs — permaneceu praticamente estável no ano. A alocação de R$ 387 bilhões em dezembro de 2025 aumentou para R$ 389 bilhões em maio.
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Renda fixa bancária já não é a mesma
O universo bancário também passa por uma transformação silenciosa. À primeira vista, os números mostram estabilidade.
O estoque de CDBs, LCIs, LCAs, LIGs e Letras Financeiras chegou a R$ 5,2 trilhões ao fim de junho, com crescimento de 6,8% no acumulado do ano — ritmo que o BTG classifica como praticamente em linha com o CDI no período, o que apontaria para um rendimento do estoque, não volume de captação.
No entanto, os estoques de CDBs e Letras Financeiras cresceram no período, com altas de 9,5% e 8,3% em 2026, respectivamente. Já as LCAs caminharam na direção oposta: o estoque desses papéis caiu 6,2% no ano.
A diferença é importante porque sugere que não há apenas uma disputa entre títulos públicos, crédito privado e produtos bancários. Existe também uma reorganização dentro da própria classe de emissão bancária.
Enquanto os investidores continuam encontrando nos CDBs uma forma simples de capturar os juros elevados, as LCAs enfrentam um cenário de menor oferta, consequência da redução do lastro disponível para novas emissões, segundo o BTG.
Por fim, como fica o crédito privado
As emissões de crédito privado voltaram a ganhar ritmo e somaram R$ 51 bilhões em junho, alta de 28% em relação a maio. O mercado primário voltou a acelerar nos últimos meses após a onda de resgates que desestimulou as emissões no começo do ano.
Entretanto, uma parte significativa dessa demanda vem dos próprios fundos, não dos investidores individuais. Conforme o relatório, "a necessidade de alocação pelos fundos continua oferecendo suporte técnico à classe, mas com intensidade menor do que no início do ano."
Isso não significa, porém, que o crédito privado esteja perdendo relevância. A classe continua crescendo e as taxas seguem em patamares historicamente atrativos para muitos investidores.
A diferença é que o dinheiro já não chega com a mesma facilidade observada nos últimos anos. Depois de uma sequência de eventos de crédito e em um ambiente de juros elevados, a disputa por recursos ficou mais dura.
No final das contas, o dinheiro continua na renda fixa, mas, ao que tudo indica, o investidor ficou mais criterioso para sair da proteção oferecida pelos títulos do governo e pelos bancos.
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