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O novo presidente do banco central norte-americano mandou recados duros ao mercado e até para a Casa Branca; o Seu Dinheiro listou os principais pontos para você

Em um distante 21 de março de 2018, Jerome Powell comandou sua primeira decisão sobre os juros como presidente do Federal Reserve (Fed). Na ocasião, a taxa foi elevada em 0,25 ponto percentual (pp), para a faixa entre 1,50% e 1,75% e começava ali um ciclo de aperto monetário nos EUA.
O então comandante do banco central mais importante do mundo explicou a decisão — que naquela época já contrariava o chefe da Casa Branca, Donald Trump, que havia conduzido Powell ao cargo para manter juros baixos — com os efeitos da uma política fiscal expansionista sobre a economia, os ganhos de emprego e aumento dos salários.
Na ocasião, ele afirmou que essa combinação explosiva servia de combustível para a inflação acelerar para além da meta, de 2% ao ano.
Quase nove anos depois, Kevin Warsh, sucessor de Powell na presidência do Fed, comandou nesta quarta-feira (17) sua primeira decisão de juros nos EUA. Também indicado por Trump, agora no segundo mandato, o homem conhecido pelo mercado como implacável contra a inflação, encarou um cenário muito diferente aquele de março de 2018.
Com uma guerra entre EUA e Israel contra o Irã, iniciada no final de fevereiro deste ano, levando os preços do petróleo às alturas — o barril do Brent, a referência internacional e da Petrobras (PETR4), chegou a flertar com os US$ 120.
Não à toa, a decisão de hoje também é outra: os juros nos EUA foram mantidos na faixa entre 3,50% e 3,75% ao ano.
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Naquela ocasião, Powell lidava com uma inflação medida pelo índice de preços para gastos pessoais (PCE, na sigla em inglês) — a medida preferida do Fed — de 1,8% em 12 meses. O núcleo do PCE, que exclui itens voláteis como energia e alimentos, era de 1,6%.
O último dado oficial disponível indica que o PCE de abril de 2026 acelerou para 3,8% em 12 meses, quase o dobro da meta tolerada pelo banco central norte-americano. O núcleo do PCE subiu 3,3% na mesma base de comparação.
E a tendência é de aumento de preços, segundo as projeções do comitê de política monetária do Fed. A cada três meses, o Fomc divulga estimativas econômicas atualizadas e os números agora indicam que o PCE deve fechar 2026 em 3,6% e não mais em 2,7% como era antecipado em março deste ano.
Para 2027, as projeções para o PCE também são maiores: passaram de 2,2% para 2,3%. Já as estimativas do comitê de inflação para 2028 e para o longo prazo foram mantidas em 2%.
Powell vestia um terno preto, uma gravata cinza e uma camisa branca quando encarou sua primeira coletiva de imprensa após a decisão de subir os juros naquele 21 de março de 2018.
Diferente do que se viu nos anos seguintes, ele estava sentado em uma cadeira para responder às perguntas dos repórteres ávidos por entender como o novo chefe do Fed pensava a política monetária.
A surpresa não foi grande: Powell era da escola de sua antecessora, Janet Yellen, e seguiu uma linha muito parecida com a dela.
Trajado com um terno azul marinho e uma camisa branca, Warsh encarou a imprensa de pé e não gastou tempo falando sobre como foi bem recebido pelos colegas do Fomc.
O novo presidente do Fed mandou muitos recados ao mercado e ao próprio Trump sobre como pretende conduzir o maior banco central do mundo daqui para frente.
E as diferenças de seu antecessor começaram antes mesmo da coletiva ter início.
Para quem acompanhou o comunicado que trouxe a decisão de manter os juros nos EUA inalterados notou que o novo presidente do Fed promoveu uma revisão no comunicado de política monetária e eliminou o forward guidance.
Para quem não está tão familiarizado com o termo, isso significa que as referências sobre os próximos passos do banco central com relação aos juros não estão mais no texto da decisão.
No comunicado de hoje, saiu o trecho em que o Fomc afirmava que avaliaria "a magnitude e o momento de ajustes adicionais" na taxa de juros. Também desapareceram as referências ao monitoramento contínuo dos riscos para a economia e à disposição de ajustar a política monetária caso necessário.
Vale lembrar que, em abril, a referência sobre possíveis ajustes futuros na política monetária causou a dissidência de três presidentes regionais: Austan Goolsbee (Chicago), Beth Hammack (Cleveland) e Lorie Logan (Dallas).
Na ocasião, eles discordaram sobre o tom do comunicado e defendiam que o texto do Fed não deveria sugerir outras flexibilizações dos juros diante do cenário de incerteza.
Mas essa não foi a única mudança de hoje. O Fed também alterou a avaliação da economia norte-americana. Em vez de dizer que os ganhos de emprego permaneceram baixos, como no texto anterior, a autoridade monetária passou a afirmar que a criação de vagas acompanha o crescimento da força de trabalho.
Além disso, destacou pela primeira vez que o crescimento da produtividade e os investimentos de capital permanecem fortes.
Na inflação, o banco central dos EUA abandonou a menção à recente alta dos preços globais de energia e passou a atribuir as pressões inflacionárias a choques de oferta que afetaram diversos setores, incluindo energia.
Também substituiu o compromisso de retornar a inflação à meta de 2% pela afirmação mais direta de que o comitê "entregará estabilidade de preços".
Para quem pensou que a meta de inflação nos EUA pode mudar, Warsh trouxe a resposta na coletiva: "Não vejo motivo para rever a meta até que tenhamos atingido 2%".
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E esse era só o começo das mudanças que podem dar origem a uma nova era no Fed — e os jornalistas ali presentes, muitos deles habituados a cobrir política monetária há anos, tinham dificuldades de esconder a surpresa dos anúncios que se seguiram.
O principal deles foi a criação de uma força-tarefa que será responsável por passar um pente fino em todas as práticas do banco central norte-americano. Elas serão divididas em cinco áreas.
Segundo Warsh, serão estudados os comunicados do Fed, fontes de dados, balanço patrimonial e produtividade e emprego — esta última avaliará também o alcance da inteligência artificial e novas tecnologias.
No caso do balanço patrimonial, Warsh disse que a força-tarefa analisará benefícios e riscos do regime de reservas amplas. É importante lembrar que este é um tema gera divergências entre os membros do BC norte-americano.
As forças-tarefas funcionarão da seguinte maneira: cada grupo de trabalho contará com especialistas e terão o apoio da equipe do Fed. Com base nos levantamentos que devem começar nas próximas semanas e terminar no final deste ano, Warsh pretende propor alterações, inclusive na divulgação das projeções econômicas.
O gráfico de pontos, ou o chamado dot plot, faz parte as projeções econômicas que são divulgadas a cada três meses pelo Fed junto com a decisão sobre os juros e ajuda o mercado a entender se os membros do comitê pensam em manter, cortar ou subir os juros no futuro.
Ele também não passou batido por Warsh, que afirmou não ter identificado muita convicção nas projeções apresentadas no dot plot.
“O gráfico de pontos foi entregue com lápis que têm borrachas grandes”, afirmou Warsh em coletiva.
No documento divulgado hoje, o gráfico de pontos mostrou uma concentração maior de dirigentes que projetam aumento da taxa de juros nos EUA ainda neste ano.
As apostas compiladas pelo CME Group por meio da ferramenta FedWatch mostraram que a probabilidade de o Fed aumentar os juros este ano foi antecipada de dezembro para outubro.
Normalmente, os bancos centrais ao redor do mundo perseguem uma meta de inflação e usam, primordialmente, os juros para que essa missão seja cumprida. No caso do Fed, o mandato é duplo e determinado pelo Congresso norte-americano.
A missão do banco central dos EUA é estabilidade de preços, que significa inflação em 2% no longo prazo, e pleno emprego, medido pela taxa de desemprego do país e cujo percentual não é definido como acontece com a meta de preços.
Embora não tenha cravado uma mudança nos números do mandato duplo (ainda), Warsh salientou que a meta de inflação de 2% não é atingida nos EUA há cinco anos — e aproveitou para mandar uma mensagem contundente.
"Vamos corrigir isso", disse. "Temos a capacidade e o compromisso de manter a inflação em 2%", acrescentou ele, citando que o grupo de trabalho sobre estrutura de inflação analisará os fatores que a impulsionam.
Trump indicou Warsh ao comando do Fed. Assim como fez com Powell, que depois foi alvo de muita pressão do republicano, um ferrenho defensor de juros baixos.
Antes mesmo de sentar na cadeira de chefe do BC norte-americano, Trump já cutucava Warsh por taxas mais baixas. O Seu Dinheiro contou essa história e você pode conferir aqui os detalhes.
Hoje, ao abrir a coletiva, Warsh também disso à Casa Branca ao que veio. Além de reforçar a mensagem de seguir a tradição do Fed e de tomar decisões com responsabilidade, o novo chefe do BC afirmou: “meus colegas e eu estamos aqui para seguir o mandato duplo do Fed”.
Não demorou muito para que Trump se manifestar. Em um tom conciliador, o republicano surpreendeu e disse: “temos uma ótima pessoa no Fed; estou sendo guiado por ele”.
Agora é esperar para ver quanto tempo essa lua de mel vai durar na nova era do Fed.
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