Risco Brasil no limite? O que ninguém está falando sobre o Tesouro IPCA+ a 8%
André Leite, CIO da TAG Investimentos, explica no Touros e Ursos desta semana por que os títulos públicos estão pagando tanto e como o investidor pode se posicionar agora

O Tesouro IPCA+ está pagando um prêmio histórico de 8% acima da inflação para o vencimento em 2032, e tem sido repetidamente destacado por gestores e analistas como uma das oportunidades de investimento mais relevantes do momento. Entretanto, um juro real em patamar histórico também denota uma avaliação de risco para o Brasil nas mesmas proporções, certo?
André Leite, CIO da TAG Investimentos, afirmou no podcast Touros e Ursos desta semana que as taxas elevadas do Tesouro IPCA+ refletem, sim, um cenário de desequilíbrio fiscal e incertezas políticas. No entanto, isso não anula a chance de "travar" rendimentos sensacionais nos títulos públicos.
Para Leite, a segurança desse investimento é reforçada pelo baixo risco de o governo não pagar o que deve (calote) na dívida interna, já que 90% dos investidores são brasileiros.
Ao contrário de países que têm um alto volume de dívida em moeda estrangeira, o Brasil possui mecanismos para honrar seus compromissos em sua própria moeda, tornando o calote doméstico uma decisão politicamente muito improvável.
"Não vejo nenhum governo com dois neurônios dando um calote na dívida interna", afirmou, ao dizer que uma medida dessa seria um erro político e econômico autodestrutivo.
Para o diretor de investimentos, governos fiscalmente descontrolados preferem "inflacionar" a dívida — deixando os preços de bens e serviços subirem para diminuir o peso do que devem — do que interromper os pagamentos.
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Tesouro IPCA+: o antifrágil
Leite descreve o Tesouro IPCA+ como um ativo antifrágil — um termo usado para descrever investimentos que podem se beneficiar tanto de cenários de melhora da economia quanto de crises extremas.
No melhor cenário, se a economia se estabilizar e os juros caírem, o título valoriza-se no preço rapidamente, permitindo que o investidor obtenha lucro vendendo o papel antes do prazo final.
Se o cenário piorar e a inflação disparar, o título protege o patrimônio ao garantir a correção do aumento de preço durante o período investido.
Leite afirma que a situação da Turquia durante a pandemia serve de exemplo. O país viveu uma crise inflacionária intensa, com pressão nos preços e na moeda local. Antes da pandemia, os títulos públicos atrelados à inflação ofereciam um prêmio de juro real.
No entanto, durante a crise inflacionária a demanda por papéis foi tão forte que esse prêmio sumiu, foi a zero. "A demanda foi tão grande, porque o raciocínio era: não precisa nem me dar o juro real, eu só quero me defender da inflação”, afirmou Leite.
- LEIA TAMBÉM: Mais vale o IPCA+ ou o CDI? Estudo mostra que o investimento ‘livre de risco’ no Brasil não é o que todos pensam
Para ele, esse nem sequer é um risco para o Brasil, porque o país não tem exposição à dívida externa como a Turquia tem.
Para o investidor local, a correção pela inflação mais uma taxa de 8% está protegendo em ambos os cenários.
A posição da TAG
A TAG Investimentos tem uma recomendação de alocação acima da média (overweight) para os papéis indexados à inflação, sendo esta a classe de ativos favorita da gestora no momento.
Leite destaca que o Brasil é pioneiro e muito moderno ao oferecer títulos como o Tesouro Renda+ (focado em aposentadoria) e o Educa+ (para custear estudos), ferramentas que facilitam o planejamento financeiro familiar.
Para o gestor, esses instrumentos são fundamentais para garantir que o dinheiro guardado hoje não perca valor para a inflação nas próximas décadas.
Além dos títulos públicos, a estratégia de alocação da gestora inclui a diversificação da posição indexada à inflação via debêntures incentivadas de infraestrutura, que são títulos corporativos.
A grande vantagem desses ativos é a isenção de imposto de renda sobre os rendimentos, o que evita que a mordida do Fisco diminua os ganhos em períodos de inflação muito alta. Em um cenário em que a inflação pode chegar a dois dígitos, não pagar imposto sobre o rendimento faz uma diferença substancial no lucro.
Touros e ursos da semana
No quadro que dá nome ao podcast, entre os ursos (destaques negativos) da semana apareceram a Petrobras (PETR4), afetada pela queda nas cotações globais do petróleo após o fim do conflito entre EUA e Irã, e o Grupo Mateus (GMAT3), após uma cobrança bilionária da Receita Federal que impactou a confiança dos acionistas e o valor das ações.
Já os touros (destaques positivos) foram liderados pela Embraer (EMBR3), que registrou entregas recordes de aeronaves e forte valorização na bolsa, e pela Inteligência Artificial, vista como uma fonte massiva de ganhos de produtividade e redução de custos operacionais.
Confira o episódio completo do Touros e Ursos
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