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CORTOU... E PAROU?

Selic cai para 14,25% ao ano, mas Copom endurece comunicado e deixa em aberto novos cortes nos juros

Comitê destacou a piora da inflação e seus efeitos disseminados, reiterou a necessidade de juros altos por tempo prolongado e tempo para acompanhar o cenário

Presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo - Imagem: Montagem Seu Dinheiro | Agência Brasil

18h30. Esse é o horário que tradicionalmente o Comitê de Política Monetária (Copom) costuma anunciar suas decisões sobre a taxa básica de juros (Selic). Mas não nesta quarta-feira (17). Faltava um minuto para às 19h quando finalmente os diretores do Banco Central entregaram a resposta que o mercado esperava: um corte de 0,25 ponto percentual (p.p.) na Selic.

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Com isso, os juros de referência do país caem de 14,50% para 14,25% ao ano.

A decisão foi unânime e era amplamente esperada, diante da comunicação de diretores do Copom ao longo dos últimos 45 dias desde a última reunião.

Os agentes financeiros chegaram a precificar a possibilidade de manutenção da Selic em 14,5% na semana passada, mas voltaram para o consenso de corte depois do anúncio do possível acordo de paz entre os Estados Unidos e Irã no final de semana.

A grande questão agora é: vai continuar cortando ou não?

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% ao ano, com dados diários. Fonte: Banco Central.

Inflação mais alta, tom mais duro

Os diretores do Banco Central endureceram o comunicado, destacando a piora nos dados correntes e projeções futuras para a inflação. O texto diz que nas divulgações mais recentes, “a inflação cheia e as medidas subjacentes aceleraram, distanciando-se adicionalmente da meta para a inflação, superando seu limite superior na última leitura."

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Desde a última reunião, em abril, as expectativas para a inflação em 2026, 2027 e 2028 aumentaram no relatório Focus. O documento divulgado pelo BC consulta vários economistas de mercado e traz uma mediana de suas expetativas.

Para 2026, a projeção aumentou de 4,86% para 5,30% — uma abertura de 0,44 p.p.. Nas demais datas os aumentos foram menores, mas ainda significativos, porque demonstram que os agentes financeiros esperam um efeito prolongado do repique de inflação na economia.

Ano Último Copom (abril) Copom atual (junho) Diferença 
2026 4,86%    5,30%   +0,44 p.p.    
2027 4,00% 4,10% +0,10 p.p. 
2028 3,61% 3,68% +0,07 p.p. 
2029 3,50% 3,50% 0 p.p. 
Fonte: Banco Central e BTG Pactual

Os diretores avaliam que “os riscos para a inflação, tanto de alta quanto de baixa, permanecem mais elevados que o usual.”

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O comunicado do Copom cita os riscos de as estimativas futuras de inflação considerarem impactos de uma “segunda ordem de choques de oferta”, relacionados ao petróleo e seus derivados. O texto também cita possível “efeitos climáticos sobre a produtividade agrícola e custos de energia”, em referência ao El Niño previsto para o segundo semestre.

Além disso, os diretores acrescentaram que estão acompanhando os “desenvolvimentos da política fiscal doméstica”, o que pode ser uma referência aos recentes benefícios fiscais do governo, com os programas Desenrola 2.0 e o crédito de financiamento para motoristas de aplicativo e taxistas. (saiba mais aqui)

Embora as medianas do Focus sejam importantes para avaliar as expectativas do mercado, o Banco Central monitora a inflação dentro de modelos próprios, que consideram um horizonte de 18 meses à frente.

Nesta reunião, o horizonte em análise vai até o quarto trimestre de 2027. No modelo do BC, a inflação projetada nesta data é de 3,7%. Esse número é acima da meta de 3%, mas não só: em janeiro, a projeção era de 3,2%.

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A avaliação final é que “o cenário segue sendo marcado por expectativas desancoradas, projeções de inflação elevadas, e pressões no mercado de trabalho.” O repique inflacionário aumentou as estimativas futuras e tornou a tarefa do BC mais difícil.

Sem novos cortes na Selic?

O comunicado não trouxe nenhuma sinalização clara.

Para alguns analistas, isso é sinal de que o Copom tem a intenção de fazer novos cortes no futuro. Entretanto, o texto explicita a falta de clareza para projeções mais seguras sobre os riscos inflacionários.

“Nesse momento, as projeções de inflação apresentam distanciamento adicional em relação à meta no horizonte relevante para a política monetária. Ao mesmo tempo, a incerteza acerca dessas projeções permanece mais elevada que o usual, em função da falta de clareza sobre a trajetória dos condicionantes dos modelos de projeção analisados”, diz o texto.

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Os diretores do BC afirmam que a Selic neste nível restritivo já deu sinais de efeito na economia. Entretanto, nesta nova dinâmica de risco, o comitê indicou que precisa de mais informações.

“O Comitê reafirma que a magnitude total do ciclo de calibração será estabelecida à luz de novas informações visando assegurar a convergência da inflação à meta.”

O que as palavras não ditas dizem…

Para além do corte, os agentes financeiros esperavam um tom mais duro do comitê no comunicado.

Para Matheus Spiess, analista da Empiricus, o BC não disse que vai parar de cortar os juros, e isso será suficiente para os agentes financeiros entenderem que mais cortes devem vir nos próximos meses.

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De modo geral, a decisão do Copom vai muito além da definição da Selic em si. O que os diretores do Banco Central escrevem em sua comunicação também passa uma mensagem, que pode ajudar na tarefa de conter a inflação — ou atrapalhar.

É o que o mercado entende como credibilidade da autoridade monetária.

Muitos economistas esperavam que o comitê decretasse uma pausa nos ajustes já nesta reunião, enquanto outros esperavam pelo menos mais um corte.

Pois bem. O comunicado não trouxe nenhuma comunicação explícita e isso pode fazer preços nos ativos na manhã de quinta-feira (18), principalmente considerando que a decisão de juros nos Estados Unidos foi o inverso — tom duro, com cheiro de aumento dos juros ainda em 2026.

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