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Com investidores exigindo prêmios cada vez maiores para financiar a dívida pública, Tesouro prefere adiar emissões

O investidor que acompanha o Tesouro Direto tem visto uma cena se repetir nos últimos meses: as taxas dos títulos indexados à inflação rompendo patamares que pareciam improváveis. A alta do Tesouro IPCA+ 2032 é o melhor retrato desse movimento. Na abertura do Tesouro Direto nesta segunda (22), o papel oferecia 8,56% de juro acima da inflação.
Foi justamente nesse contexto que o Tesouro Nacional decidiu cancelar o leilão de NTN-B — nome técnico do Tesouro IPCA+ — previsto para terça-feira (23).
A justificativa oficial foi a preservação do “bom funcionamento do mercado de títulos públicos”, sem detalhar o volume que seria ofertado.
A decisão chamou atenção porque não acontece em um momento qualquer. Ela ocorre justamente quando as taxas dos papéis atrelados à inflação renovam máximas e a discussão sobre uma possível atuação do Tesouro para conter esses prêmios volta a ganhar força entre gestores.
A pressão sobre as taxas dos títulos públicos tem duas origens, segundo analistas.
Lá fora, investidores passaram a revisar as expectativas para os juros globais após sinais mais duros dos bancos centrais, especialmente do Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA).
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No Brasil, os receios se concentram na persistência da inflação, no quadro fiscal e nas dúvidas sobre a condução da política monetária.
O resultado é a cobrança de um prêmio maior pelos investidores institucionais para carregar os títulos públicos brasileiros por mais tempo. Diante de uma inflação elevada e incerteza sobre os juros locais e globais, as projeções futuras para o país ficaram mais turvas.
Embora o cancelamento do leilão tenha gerado questionamentos, os especialistas descartam a interpretação de que o Tesouro Nacional está enfrentando dificuldades para financiar a dívida pública.
A leitura predominante é outra: o governo não viu sentido em emitir títulos em um momento em que o mercado exige taxas consideradas excessivamente elevadas.
Em outras palavras, ao cancelar a operação, o Tesouro evita assumir um custo maior de financiamento e deixa de referendar os níveis atuais da curva de juros.
A avaliação de analistas é que o órgão federal poderá lançar mão de novas medidas caso a volatilidade sobre os títulos públicos continue aumentando ou o mercado apresente sinais de disfuncionalidade mais evidentes.
Mas ninguém espera uma solução definitiva por meio dessas intervenções.
A mensagem é que o comportamento dos juros continuará dependente dos fatores que provocaram a abertura ou fechamento da curva em primeiro lugar: inflação, política monetária e, principalmente, a percepção de risco fiscal.
“Intervenções ajudam a suavizar movimentos de curto prazo, mas a ancoragem definitiva das taxas depende de uma sinalização crível sobre a trajetória das contas públicas”, afirma Fernando Benavenuto, especialista em investimentos e sócio da Anvex Capital.
Embora seja difícil apontar um teto para as taxas, os especialistas acreditam que ainda existe espaço para novas altas no juro real caso o ambiente continue se deteriorando.
Taxas entre IPCA + 8,7% e IPCA + 9% não podem ser descartadas caso persistam as dúvidas sobre o quadro fiscal e a trajetória da inflação. Há também quem aposte mais longe, em IPCA + 10% em um cenário de maior estresse.
Apesar das projeções, os analistas afirmam que boa parte do pessimismo já está incorporada aos preços atuais.
Não por acaso, os prêmios pagos pelos títulos públicos estão entre os mais elevados dos últimos anos.
Para quem investe pensando no longo prazo, a resposta é positiva.
A avaliação dos especialistas é que os níveis atuais representam uma oportunidade rara de travar juros reais elevados em um ativo considerado de baixo risco. O principal alerta fica para os investidores que não pretendem carregar o papel até o vencimento.
Se as taxas continuarem subindo, os títulos podem sofrer perdas no preço, via marcação a mercado, pressionando a rentabilidade no curto prazo. Saiba mais aqui.
*Com informações do Money Times.
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