Mais vale o IPCA+ ou o CDI? Estudo mostra que o investimento ‘livre de risco’ no Brasil não é o que todos pensam
Dados mostram que investimentos indexados à inflação (IPCA+) protegem melhor o poder de compra e preservam patrimônio em prazos longos, superando o CDI

A ideia de que investimentos pós-fixados, indexados aos juros (CDI e Selic), são os “menos arriscados” está em debate. Estudos recentes mostram que, no Brasil, essa tese ignora uma realidade importante: a inflação consistente e duradoura que corrói o poder de compra do real.
O estudo “Repensando o ativo sem risco: uma visão brasileira”, afirma que a segurança de um investimento deve ser medida pela sua capacidade de financiar planos futuros. Enquanto o CDI aumenta o valor em tela, o IPCA+ protege a capacidade de compra desse mesmo volume de dinheiro ao longo do tempo.
O documento da Atlantiqis, em parceria com a XP, e assinado por Eduardo Marinho, Ruy Ribeiro e Artur Wichmann, argumenta que entender essa diferença é fundamental para o investidor que busca não apenas acumular capital, mas efetivamente preservar riqueza ao longo das décadas.
Dados brasileiros e dos EUA mostram que títulos indexados a juros falharam em proteger o patrimônio real em janelas de estresse na economia, como durante a pandemia.
Em contrapartida, os títulos indexados à inflação ofereceram proteção e retorno, especialmente quando o horizonte de investimento foi maior.
CDI não é ‘livre de risco’
O investidor que foca apenas no CDI enfrenta o chamado risco de reinvestimento: a incerteza sobre a taxa real (juro descontado da inflação) que conseguirá no futuro ao reinvestir o valor aplicado após resgate ou vencimento.
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Hoje, a taxa básica de juros é de 14,25% ao ano, com uma inflação de 4,72% acumulada em 12 meses. Na prática, isso significa uma taxa real de 9,5% ao ano. Trata-se de um valor alto e significativo, até maior do que o juro real pago pelos títulos indexados à inflação, que rondam a faixa dos 8%.
Mas essa taxa não é garantida para o longo prazo — e pode virar para o negativo.
Entre janeiro de 2019 e janeiro de 2023, por exemplo, quem aplicou no CDI viu seu retorno nominal de aproximadamente 27% ser quase totalmente consumido pela inflação acumulada no período, de 23,5%.
Em anos específicos, como 2020 e 2021 — em que os juros caíram para 2% ao ano e depois subiram para quase 8%, enquanto a inflação bateu 10% ao ano — o CDI entregou retornos reais negativos, de -1,73% e -5,37%, respectivamente. Ou seja, perdeu da inflação.
“Para investidores que recorreram a esse instrumento em busca de proteção patrimonial diante da maior crise sanitária em um século, o resultado foi a erosão silenciosa do poder de compra precisamente quando mais se buscava preservá-lo”, diz o estudo.
Essa falha do CDI não é exclusiva do Brasil. O estudo afirma que os indicadores equivalentes de outros países apresentaram o mesmo comportamento diante de eventos de estresse econômico.
Nos EUA, as T-Bills, similares norte-americanas do Tesouro Selic, tiveram retorno real médio negativo entre 2006 e 2026.
IPCA+ é o novo porto seguro
A grande questão do CDI é que ele é um instrumento financeiro para o curto prazo. Não é o investimento adequado para médios e longos prazos.
Investidores com horizontes maiores devem se preocupar em preservar o poder de compra para além do retorno real momentâneo. E, neste quesito, os títulos indexados à inflação são menos arriscados que o CDI.
Os dados do estudo demonstram que o risco dos papéis IPCA+ cai drasticamente conforme o prazo aumenta.
As flutuações de curto prazo nos preços dos títulos (chamadas de marcação a mercado), que os investidores tanto temem, tendem a ser temporárias e compensadas por retornos maiores no futuro.
Neste ponto, entretanto, o estudo pondera que os títulos IPCA+ são para carregar até o vencimento.
“Manter títulos individuais até o vencimento também constitui uma estratégia de mitigação de risco — sobretudo quando se busca casar objetivos de longo prazo com ativos que protejam contra a inflação (o Tesouro IPCA+, por exemplo).”
Diferentemente do CDI, em que a taxa real futura é desconhecida, o título indexado à inflação permite conhecer a taxa de juros real no momento da compra (é sempre IPCA + juro real).
Embora hoje o juro real de 9,5% do Tesouro Selic pareça mais interessante em relação aos níveis de 7,5% a 8% do Tesouro IPCA+, sua consistência ao longo dos anos é incerta.
A inflação pode aumentar bastante e o título indexado aos juros não necessariamente irá corrigi-la. Ou a inflação pode diminuir e os juros também, diminuindo a taxa real.
Como a inflação no Brasil apresenta um caráter consistente e frequentemente supera as expectativas do mercado — de 2000 a 2025, a inflação média do Brasil foi de 5,7% ao ano —, o estudo diz que somente títulos IPCA+ garantem o poder de compra futuro de forma contratual.
Simulação de faculdade: IPCA vs. CDI
O estudo de Marinho, Ribeiro e Wichmann traz um exercício prático: um investimento de longo prazo para a faculdade.
Imagine uma investidora que, em janeiro de 2010, precisava poupar para pagar a faculdade do filho dali a cinco anos, um custo estimado em R$ 500 mil. Para atingir esse objetivo, ela poderia investir em IPCA+ ou em CDI.
Em cinco anos:
- a faculdade ficará mais cara, pois sofrerá ajustes inflacionários, e
- o investimento renderá.
Logo, em 2015, não será necessário um portfólio de R$ 500 mil, mas um valor maior. O investimento renderá, a questão é se o rendimento acompanhará o ajuste inflacionário.
Os resultados mostram que o investimento em IPCA+ garantiu o valor necessário em diferentes possibilidades de aplicação inicial. Já o investimento em CDI falhou, deixando "buracos" financeiros em relação ao custo corrigido da faculdade.
Exemplos 1 - aplicação em janeiro de 2010
- Resgate: janeiro/2015
- Aporte: R$ 361.216,06
- Tesouro IPCA+ (data de resgate): R$ 675.973,26
- CDI (data resgaste): R$ 574.335,01
- “Buraco do CDI”: -R$ 101.638
Exemplos 2 - aplicação em julho de 2010
- Resgate: julho/2015
- Aporte: R$ 370.476,53
- Tesouro IPCA+ (data de resgate): R$ 713.291,97
- CDI (data resgaste): R$ 598.309,47
- “Buraco do CDI”: -R$ 114.982
O custo da inflação no Brasil
A inflação ser consistente no Brasil tem seus motivos. Um outro estudo — apresentado na carta mensal de julho da TAG Investimentos — argumenta que o principal deles é o descontrole das contas públicas.
O fato de o aumento generalizado de preços não ser imediato em relação à emissão de dívida do governo pode gerar uma falsa percepção de que os gastos excessivos da União não têm consequências diretas para o cidadão.
No entanto, esse estudo conseguiu traduzir em meses quanto tempo leva para a conta chegar.
O Brasil demora, em média, 15 meses para transformar em inflação oficial (IPCA) a emissão de dinheiro. Isso significa que, a dívida de hoje é o que ditará a remarcação dos preços nos supermercados daqui a pouco mais de um ano.
Desde 2002, a quantidade de dinheiro disponível no país cresceu a uma taxa média de aproximadamente 14,09% ao ano, enquanto a inflação avançou cerca de 6,42% no mesmo período.
Para a TAG, ao gastar além do que arrecada, o Estado condena a moeda a valer menos no futuro, transferindo silenciosamente o custo da dívida pública para o poder de compra da população.
Escolhas de investimento da TAG
Para o cenário atual, de inflação acima da meta por alguns anos e incerteza em relação às contas públicas, a recomendação da TAG Investimentos é manter sobrepeso em títulos indexados à inflação (Tesouro IPCA+), especialmente os de prazo mais curto.
Nesta terça-feira (7), o Tesouro IPCA+ 2032 estava oferecendo 8,27% de juro real na plataforma do Tesouro Direto. Essa é uma taxa historicamente pouco observada entre os títulos públicos, com potencial de dobrar o patrimônio em poucos anos.
A gestora afirma que o Brasil possui infraestrutura sofisticada para investimento em IPCA+ para objetivos de longo prazo. Os títulos Tesouro RendA+, para aposentadoria, e Tesouro Educa+, para educação, permitem alinhar fluxos de renda real a necessidades futuras.
Os dois instrumentos também estão pagando taxas reais de cerca de 7,5% a 8% em diferentes vencimentos.
A TAG destaca também a inflação implícita (expectativa de inflação futura embutida nos preços dos títulos de renda fixa) próxima de 6% nesses títulos, versus uma inflação projetada de mercado abaixo de 4%.
No mercado financeiro, essa diferença de 2% é considerada um “prêmio” que vale muito a pena em um país que “insiste em ter inflação acima das expectativas do mercado”.
Mas calma, que não é o fim do CDI. Tanto o estudo da XP com a Atlantiqis quanto a carta da TAG defendem a indexação ao juro básico para o curto prazo. Entretanto, esse investimento deve ser limitado à reserva de emergência ou ao dinheiro para liquidez operacional.
“O que não faz sentido é o caixa tático se passar por plano de aposentadoria”, diz a gestora.
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