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O BC explica por que não reagiu integralmente à piora do cenário. Mercado acredita que o Copom seguirá em ritmo de cortes, que serão calibrados de olho no cenário econômico

A aguardada ata do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central dá poucos detalhes sobre o futuro da taxa Selic. Na última reunião, em que cortou a taxa básica de juros em 0,25 ponto porcentual, o comitê divulgou um comunicado confuso, e por isso a ata de hoje era tão aguardada.
No entanto, não está claro qual será o tamanho e a duração do ciclo de cortes. Se por um lado o Comitê declara que a inflação continua desancorada, por outro diz que considera trajetórias de pausas e de retomada nos cortes.
A ata elencou diversas fontes de pressão para a inflação e diz que o aumento de preços continua acima da meta em todos os horizontes analisados. Mesmo assim, a autoridade diz que tomou a decisão de corte para reduzir a volatilidade nos mercados, e que irá calibrar o ciclo de redução da Selic de olho na evolução do cenário.
Entenda abaixo o que o Copom disse sobre inflação e a continuidade do ciclo de cortes dos juros.
Em todos os horizontes analisados, as expectativas de inflação permanecem acima da meta, cenário que piorou desde a última reunião.
O Comitê está olhando agora para o último trimestre de 2027 como horizonte relevante, um alongamento em relação às últimas reuniões. Na próxima reunião, o prazo muda para o primeiro trimestre de 2028.
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Para esse cenário, a expectativa é que a inflação chegue a 3,7% - a última análise era de 3,5%, o que significa que o aumento de preços continua acima do centro da meta até nesse prazo mais longo.
“Com relação ao balanço de riscos, o Comitê avaliou que os riscos para a inflação, tanto de alta quanto de baixa, permanecem mais elevados que o usual, com assimetria altista”, disse a ata.
Quando as expectativas ficam desancoradas, ou seja, a previsão para a inflação está muito acima da meta, o custo para reduzir esse aumento dos preços é maior.
"Desde a reunião anterior ficou evidente uma desancoragem adicional das expectativas de inflação para horizontes mais longos, em particular para o ano de 2028. Foi ressaltado que o custo de desinflação sobre o nível de atividade ao longo do tempo é maior em ambientes com expectativas desancoradas. "
Esse cenário exige juros ainda mais contracionistas, dizem os economistas do banco. "A principal conclusão obtida, e compartilhada por todos os membros do Comitê, foi a de que, em um ambiente de expectativas desancoradas, como é o caso do atual, exige-se uma restrição monetária maior e por mais tempo do que outrora seria apropriado."
Mesmo assim, o Banco Central resolveu cortar a Selic. Também não há indicação de que essa taxa possa voltar a subir.
O texto elenca diversos motivos que levaram à piora do cenário.
O ambiente externo permanece incerto, ainda sem um acordo de paz definitivo entre Estados Unidos, Irã e Israel. Isso tem efeito tanto na inflação quanto nos juros globais.
Além disso, há o risco de que o aumento do preço do petróleo e derivados tragam uma segunda onda de aumento nos preços, além de efeitos climáticos sobre a produtividade agrícola e custos de energia.
"Tal cenário exige cautela por parte de países emergentes em ambiente marcado por elevação da volatilidade de preços de ativos e commodities", diz o Banco Central.
Já por aqui, a atividade econômica continuou acelerando no primeiro trimestre, com o retorno de setores mais cíclicos e mercado de trabalho forte, com taxa de desemprego em patamares historicamente baixos e rendimentos reais médios em alta.
No entanto, esse crescimento não é homogêneo entre os diversos mercados analisados, o que é compatível com a política monetária em curso, diz a ata.
O Copom também cita que, nas últimas divulgações, tanto a inflação cheia quanto as subjacentes aceleraram e superaram até o limite superior da meta.
Mesmo assim, os juros altos tiveram seu efeito esperado na economia, afirma o Copom. “O Comitê ponderou que o período prolongado de manutenção da taxa básica de juros em patamar contracionista propiciou evidências da transmissão da política monetária sobre a desaceleração da atividade econômica.”
A autoridade disse que a política monetária mais dura ainda está tendo efeitos no crédito. "Os efeitos da política monetária restritiva por período prolongado sobre a demanda agregada ainda se fazem sentir por meio da desaceleração do saldo de crédito, em particular de créditos livres."
A autoridade afirmou que há um esmorecimento no esforço de reformas estruturais, que possam ajudar o balanço do governo, e aumento de crédito.
Com isso, o banco diz que há dois efeitos dessa política fiscal mais expansiva. Existe um impacto de curto prazo, em que os benefícios pagos estimulam a demanda agregada, e um efeito mais estrutural: o aumento da dívida pública "tem potencial de afetar a percepção sobre a sustentabilidade da dívida e impactar o prêmio a termo da curva de juros".
"O Comitê mantém a firme convicção de que as políticas devem ser previsíveis, críveis e anticíclicas. Em particular, o debate do Comitê reforça, novamente, a necessidade de políticas fiscal e monetária harmoniosas."
Agora, o Comitê deixa a decisão da próxima reunião em aberto, depois de afirmar que considerou diferentes cenários para o futuro da Selic.
Essas trajetórias contemplavam cenários com combinações de diferentes momentos de pausa e retomada do ciclo de cortes, diz a autoridade.
Neste momento, decidiu seguir a trajetória da Selic que já era esperada pelo mercado, segundo as divulgações do boletim Focus, que era de um corte de 0,25 ponto porcentual. Essa decisão foi tomada para evitar "induzir volatilidade excessiva nos preços dos ativos financeiros".
Para o futuro, diz que "a magnitude do ciclo de calibração será ajustada à luz da evolução do cenário, de forma a assegurar a convergência da inflação à meta".
Para o mercado, a ata tenda reduzir o ruído de comunicação. A ata ainda tem um tom dovish, diz a Warren, e o BC explica por que não reagiu integralmente à piora do cenário. A Warren também afirma que o BC deve seguir trajetórias semelhantes às expectativas do mercado, para evitar instabilidades.
"Pelo que conseguimos desprender da ata, o BC diz que, entre subir os juros e ter que cortar intensamente, introduzindo volatilidade ao mercado, ele preferiu cortar vagarosamente, mesmo diante de uma estrutura hawkish", afirma Étore Sanchez, da Ativa Investimentos, em nota.
Olívia Flôres de Brás, CEO da Magno Investimentos, diz que a principal mensagem do documento não está na redução dos juros, está no diagnóstico. "O Copom reconhece que a inflação segue pressionada, que as expectativas continuam desancoradas e que os riscos permanecem assimétricos para cima. Em outras palavras, o Banco Central cortou a taxa, mas não cortou suas preocupações".
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