A conta do rebaixamento da Raízen (RAIZ4) chegou e é de R$ 11 bilhões: entenda o que motivou o impairment
Com os recentes rebaixamentos feitos por agências de classificação de risco, a produtora acredita que será mais difícil vender ativos, recuperar créditos fiscais e até pegar crédito no mercado, já que perdeu o grau de investimento

A Raízen (RAIZ4) está no meio de seu inferno astral, com prejuízo seis vezes maior, aumento de risco, secas e até geadas afetando os canaviais. Com tudo isso, a conta chegou e trouxe um custo relevante para a empresa. A maior parte do prejuízo de R$ 15,65 bilhões no terceiro trimestre da safra 2025/2026 (3T26) veio de um impacto de R$ 11,1 bilhões.
É um impairment, sem efeito no caixa da companhia, que atualiza para baixo o valor de certos ativos da companhia de açúcar e etanol. A administração da Raízen afirma que, desconsiderando esses impactos não recorrentes, o prejuízo do período teria totalizado R$ 4,5 bilhões — o que também não é pouco.
Com os recentes rebaixamentos feitos por agências de classificação de risco, a produtora acredita que será mais difícil vender ativos, recuperar créditos fiscais e até pegar crédito no mercado, já que perdeu o grau de investimento.
A empresa também sofre com condições climáticas adversas, como seca e geadas, que afetaram os canaviais e a produtividade dos campos — o Ebitda de açúcar, etanol e bioenergia caiu 28% em um ano — além de aumento nos custos financeiros por causa do cenário de juros altos.
A ação RAIZ é o destaque negativo do Ibovespa hoje, com queda de 4,48% por volta das 11h50.
Endividamento e venda de ativos
A companhia tenta resolver suas dívidas de R$ 55,32 bilhões, o que representa uma alavancagem de 5,3 vezes sobre seu Ebitda, ante uma dívida de R$ 38,59 bilhões e alavancagem de 3 vezes há um ano.
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Nos últimos 12 meses, ela já conseguiu levantar R$ 5 bilhões em vendas de ativos, disseram os executivos em teleconferência. Foram vendidas seis usinas e ativos em energia e eletromobilidade. Além disso, a Raízen encerrou sua joint venture com a mexicana Femsa, no Grupo Nós, deixando de ser sócia da rede de mercados Oxxo no Brasil no ano passado.
"A gente voltou a ter um foco no core business na companhia, que é produzir açúcar e etanol e distribuir combustíveis e lubrificantes", afirmou o CEO Nelson Gomes, em teleconferência com analistas.
A venda de ativos na Argentina deve ser fechada até o final deste ano. O objetivo é chegar a uma alavancagem de 2 a 2,5 vezes ao final do processo. Para isso, a companhia precisaria de cerca de R$ 20 a R$ 25 bilhões, segundo cálculos feitos pelo UBS BB.
Rebaixamentos
No entanto, não será fácil recuperar o capital da companhia. Apenas na última semana, a classificação da Raízen foi rebaixada pelas principais agências de análise de risco: S&P, Moody’s e Fitch. A Fitch, inclusive, fez dois cortes no mesmo dia, com apenas sete horas de intervalo.
Essa percepção de risco atingiu até uma de suas controladoras. A S&P Global Ratings revisou nesta quinta-feira (12) a perspectiva da Cosan (CSAN3) de estável para negativa, citando os efeitos adversos da possível reestruturação da dívida da Raízen.
Um dos receios é o risco de crédito. Sem o grau de investimento, fica mais difícil — e mais caro — para a Raízen captar capital de giro no mercado. A empresa disse que tem R$ 17 bilhões em caixa e que, no curto prazo, não há prejuízo para a continuidade da operação.
Com isso, investidores estão correndo para vender bonds e debêntures, mesmo com prejuízo.
Os detentores de bonds da Raízen, títulos de dívida emitidos no exterior, uniram-se em um comitê e contrataram a Moelis para reestruturar a dívida com a companhia. O grupo também está sendo assessorado pelo escritório White and Case, segundo informações do jornal Valor Econômico e Bloomberg Línea.
Impairment
Tudo isso levou a diretoria a revisar quanto a empresa e seus ativos, de fato, valem. Ela realizou um impairment de R$ 11,1 bilhões, com "atualização de premissas contábeis do teste de recuperabilidade de ativos".
O que isso quer dizer? A empresa revisitou o valor de todos os seus ativos e acredita que, no atual cenário, pode recuperar menos valor nas vendas do que assumia inicialmente. No entanto, essa atualização no valor do patrimônio não significa uma saída imediata de dinheiro do seu caixa.
A empresa apresentou três motivos para o impairment:
- Deterioração do perfil de crédito, com downgrades de rating
- Pressão de curto prazo nos preços de açúcar e etanol
- Estrutura de capital desbalanceada, pressionada pelos encargos financeiros.
Essa revisão levou a cortes nos tributos a recuperar, imposto sobre a renda e contribuição social diferidos, e no valor de ativos imobilizados e intangíveis.
A empresa disse que não é impossível recuperar essas perdas. O caminho é a melhora do cenário, da dinâmica do setor e o reequilíbrio da estrutura de capital.
Busca de alternativas
Só a venda de ativos que está sendo feita atualmente não será o suficiente para resolver o problema financeiro da companhia.
"Ainda que a gente tenha hoje uma liquidez robusta na companhia, do ponto de vista da estrutura de capital, a gente chega num ponto de inflexão onde claramente toda a execução do nosso plano de transformação operacional de maneira isolada não é suficiente para mitigar o desequilíbrio que a gente tem na estrutura de capital da companhia", afirmou o CEO, Nelson Gomes, na teleconferência com analistas sobre os resultados.
Ele reforçou, ainda, que resolver o endividamento "é absolutamente prioritário tanto para nós aqui quanto para nossos acionistas".
Por isso, essa semana a Raízen informou o mercado sobre a contratação de diversos escritórios para avaliar alternativas.
A companhia selecionou a Rothschild & Co como assessora financeira, bem como os escritórios Pinheiro Neto Advogados e Cleary Gottlieb Steen & Hamilton LLP como assessores legais, segundo fato relevante divulgado nesta segunda-feira (9). A Alvarez & Marsal, conhecida por reestruturação de empresas e gestão de crise, também foi contratada como assessora financeira.
Entre as alternativas, está uma ajuda financeira dos controladores, a Cosan e a Shell. "Esse processo todo está sendo conduzido pela companhia em conjunto com os acionistas controladores, que se comprometeram em contribuir com capital dentro de uma solução que seja consensual, estruturante e principalmente que seja definitiva para que a companhia possa operar no longo prazo", afirmou Gomes.
Os resultados da Raízen
A Raízen (RAIZ4) reportou um prejuízo líquido de R$ 15,65 bilhões no terceiro trimestre da safra 2025/2026 (3T26), alta expressiva ante prejuízo de R$ 2,57 bilhões no terceiro trimestre da safra 2024/2025 (3T25).
O Ebitda (lucro antes dos juros, impostos, depreciação e amortização) foi negativo em R$ 4,4 bilhões, contra um resultado positivo de R$ 2,55 bilhões do 3T25. A receita líquida ficou em R$ 60,4 bilhões no 3T26, queda de 9,7% em relação ao ano anterior.
Segundo a empresa, o desempenho foi prejudicado por um ambiente macroeconômico adverso, incluindo impactos negativos sobre a produtividade agrícola e, mais recentemente, sobre os preços do açúcar e do etanol.
A dívida líquida da companhia saiu de R$ 38,6 bilhões no 3T25 para R$ 55,3 bilhões, com a alavancagem (Dívida Líquida/Ebitda) saltando de 3 vezes para 5,3 vezes no mesmo comparativo.
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