Grupo Pão de Açúcar (PCAR3) quer desarmar de vez sua ‘bomba relógio’, e CEO detalha como fazer isso
Em teleconferência com analistas, Alexandre Santoro detalhou o plano de recuperação do GPA, que passa por reestruturação da dívida, simplificação da operação e foco em geração de caixa para tentar recolocar a varejista nos trilhos

O Pão de Açúcar (PCAR3) está tentando sair do buraco e, na noite de ontem (14), divulgou o plano de como pretende fazer isso — junto com o balanço do primeiro trimestre de 2025. Os números vieram mistos, segundo o JP Morgan e Santander, mas o foco do mercado está na mensagem para o futuro.
Em teleconferência com analistas nesta manhã, o CEO Alexandre de Jesus Santoro tentou convencer o mercado que, embora o caminho pela frente seja longo, há esperança no fim do túnel para a companhia, em recuperação extrajudicial.
O plano de recuperação do GPA passa por três pilares principais: reorganização da dívida, simplificação da operação e foco em geração caixa.
“Ainda temos muitos desafios pela frente, mas acreditamos que a companhia reúne os atributos necessários para voltar a evoluir de forma consistente ao longo dos próximos anos. Nosso lema é fazer o básico bem feito, e pessoalmente me sinto honrado poder contribuir nesse momento da companhia”, afirmou Santoro durante a teleconferência.
Por volta das 12h30, as ações da companhia caíam 2,17%, para R$ 2,24.
O primeiro pilar da recuperação do GPA
Começando pelo lado financeiro, a prioridade da diretoria da rede de supermercados foi desmontar a bomba-relógio de dívidas que pressionava a companhia.
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Atualmente, a dívida líquida financeira do Grupo Pão de Açúcar está em R$ 3,2 bilhões, com alavancagem de 3,6 vezes o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) ajustado.
A projeção da empresa é que, após a conclusão do plano, esse valor poderia cair para R$ 822 milhões, representando uma redução potencial de 74,3%. A alavancagem financeira também despencaria para 0,9 vez.
Para chegar nisso, o Pão de Açúcar estruturou um plano baseado em três mecanismos principais. O primeiro delas é transformar parte das dívidas em participação na companhia no futuro. Segundo a varejista, cerca de R$ 1,13 bilhão das dívidas entrariam nessa estrutura por meio de debêntures conversíveis, títulos de dívida que podem ser transformados em papéis do PCAR3.
Durante a teleconferência, o CFO Pedro Albuquerque explicou que essa conversão não seria automática, nem imediata. Segundo ele, os títulos poderão ter “janelas” de conversão ao longo do tempo e existe a possibilidade de que alguns só sejam convertidos no vencimento final da estrutura, previsto para 2031.
Cabe ressaltar que essas debêntures ainda não foram emitidas, mas fazem parte da proposta da recuperação extrajudicial. Ou seja, ainda dependem de homologação judicial, emissão efetiva e eventual decisão futura de conversão ao longo do cronograma previsto no plano.
A proposta de remoção da poison pill
Justamente por essa parte da proposta, a companhia também anunciou, na noite de ontem, a convocação de uma assembleia para discutir a remoção da cláusula poison pill do estatuto da varejista. Segundo a diretoria, isso é parte do plano para a recuperação da empresa.
Atualmente, esse mecanismo obriga um investidor a fazer uma Oferta Pública de Aquisição (OPA) caso ultrapasse participação de 25% na empresa.
“Estamos com um plano para emissão de debêntures conversíveis e, no momento que a gente for fazer isso, teremos que dar direito de preferência para eventuais acionistas que quiserem entrar. Achamos adequado também trazer novamente essa discussão da poison pill, visando essa possibilidade futura de conversão”, afirmou Albuquerque.
Para um gestor com quem o Seu Dinheiro conversou, isso faz sentido dentro da lógica da RE porque os principais credores da companhia — especialmente bancos — dificilmente aceitariam converter suas dívidas em ações se isso automaticamente os obrigasse a lançar uma OPA para a empresa inteira.
Isso porque a diluição potencial prevista no plano é bastante relevante. Dependendo do volume de conversão das debêntures em ações no futuro, alguns credores poderiam ultrapassar facilmente o limite de 25%.
O restante do plano para desarmar a ‘bomba relógio’
Além dos títulos conversíveis em ações, o GPA também pretende reduzir o peso da dívida por meio de descontos negociados diretamente com os credores e amortizações usando recursos da venda de ativos.
Segundo a apresentação, cerca de R$ 1,36 bilhão da dívida entraria em uma estrutura que prevê um deságio de 70% sobre parte dos créditos negociados. Ou seja, parte dos credores aceitariam receber apenas uma parcela do valor originalmente devido pela varejista para viabilizar a recuperação financeira do grupo.
Já uma terceira frente envolve o uso de aproximadamente R$ 289 milhões provenientes da venda da participação do GPA na Financeira Itaú CBD — braço criado em parceria com o banco para operações de crédito, cartões e financiamento ligados às lojas da companhia.
Antes da recuperação extrajudicial, o grupo previa desembolsar aproximadamente R$ 5,2 bilhões entre 2026 e 2027, concentrando justamente nos próximos dois anos o pico das obrigações financeiras da companhia.
Após o reperfilamento, esse desembolso cairia para cerca de R$ 700 milhões no mesmo intervalo, distribuídos em um cronograma mais longo, que se estenderia até 2036.
Além disso, o prazo médio da dívida deve subir de 2,1 anos para 6,4 anos, enquanto o custo médio cairia de CDI + 1,8% ao ano para CDI + 0,5% ao ano.
É importante ressaltar que o plano ainda precisa de homologação judicial para ir para frente.
O foco é deixar o passado para trás
Mas o plano da nova gestão não depende apenas da engenharia financeira do balanço. Ao longo da teleconferência, Santoro repetiu diversas vezes que o GPA precisa reaprender a operar de forma mais simples, eficiente e compatível com o tamanho atual da companhia.
Segundo o executivo, a empresa iniciou uma ampla revisão da estrutura corporativa, logística, contratos, tecnologia e operação das lojas. A avaliação é que o GPA ainda carrega estruturas montadas para um grupo muito maior, especialmente do período em que operava hipermercados.
- Cabe lembrar que, em seu auge, o GPA detinha controle sobre uma série de marcas relevantes no varejo brasileiro. Entre elas, destacam-se Pão de Açúcar, Extra, Assaí, Minuto Pão de Açúcar, Drogaria Extra e a participação na Via Varejo, que reunia Casas Bahia e Ponto Frio.
“A gente redesenhou a nossa sede corporativa e hoje ela é certa de 25% menor do que ela era no início do ano”, afirmou o CEO.
Santoro também citou distorções na estrutura logística da companhia, principalmente em regiões onde o grupo perdeu escala ao longo dos últimos anos.
“Quando você olha para o Nordeste e o Centro-Oeste, percebe que ainda temos estruturas muito acima do que o negócio demanda hoje. Toda a logística foi desenhada para uma operação que já não existe mais, porque muitas dessas lojas deixaram de fazer parte da companhia”, afirmou Santoro.
Além disso, a companhia iniciou renegociação de contratos, redução de quadros, revisão de imóveis ociosos e ajustes operacionais nas lojas. Segundo Santoro, o GPA mantinha unidades e ativos fechados que ainda geravam despesas relevantes de aluguel, segurança e IPTU.
A geração de caixa
O terceiro pilar da recuperação é transformar toda essa reorganização em geração de caixa operacional — um dos principais desafios históricos do GPA nos últimos anos.
Segundo a companhia, o plano de eficiência de 2026 prevê captura de pelo menos R$ 415 milhões em redução de custos e despesas operacionais. Apenas no primeiro trimestre, o GPA afirma já ter capturado R$ 99 milhões em ganhos de eficiência, equivalente a quase 24% da meta anual.
Ao mesmo tempo, a companhia reduziu o capex (investimentos) em 55% no trimestre, para R$ 87 milhões, em um movimento que faz parte da estratégia de preservação de caixa da nova gestão.
Mesmo assim, Santoro reconheceu que o cenário operacional ainda segue desafiador, principalmente por causa da pressão sobre a renda do consumidor.
“A gente vê um desafio da própria disponibilidade de renda”, afirmou. “Existe alguns outros fatores que estão direcionando parte dessa renda não para o consumo”.
O grande problema do grupo
Apesar da recuperação extrajudicial, uma das grandes preocupações do mercado sobre GPA está em outro lugar: os potenciais passivos tributários da companhia. Você pode entender detalhes nesta reportagem especial do Seu Dinheiro.
Durante a teleconferência, o tema voltou à mesa. Albuquerque que houve redução nesses passivos devido principalmente à utilização de créditos tributários e do andamento do chamado “acordo paulista”, firmado anteriormente pela companhia.
Mas ele reconheceu que a discussão mais pesada ainda está concentrada na esfera federal e segue sem solução definitiva. Para o CEO, finalizada a reestruturação da companhia, esse será o próximo grande passo.
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