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O dólar à vista subiu forte na semana, influenciado pela tensão dos mercados em relação aos cortes nos juros e à guerra comercial entre EUA e China
O mercado abriu a semana estressado, com um único assunto em mente: a decisão de juros nos Estados Unidos e no Brasil — e a incerteza quanto às posturas a serem adotadas pelo Federal Reserve (Fed) e pelo Banco Central do Brasil (BCB) em relação aos próximos passos da política monetária.
O mercado passou o meio da semana estressado: os martelos dos BCs só foram batidos na quarta-feira (31), e nem tudo correu conforme os agentes financeiros gostariam. Afinal, apesar de ambas as instituições terem reduzido os juros dos países, o Fed deu a entender que o movimento nos EUA foi apenas pontual.
O mercado fechou a semana estressado: passado o turbilhão das decisões de juros, a guerra comercial entre Estados Unidos e China voltou aos holofotes — e gerou uma onda de aversão ao risco que atingiu em cheio as negociações globais, especialmente no câmbio.
O resumo dessa história pode ser visto no comportamento do dólar à vista: a moeda americana fechou em alta nas últimas cinco sessões — nesta sexta-feira (2), avançou 1,15%, a R$ 3,8915 — é o maior nível de encerramento desde 17 de junho. Com os ganhos de hoje, o dólar à vista acumulou alta de 3,15% na semana.
Já o Ibovespa conseguiu sustentar um desempenho melhor: teve alta de 0,54% nesta sexta-feira, a 102.673,68 pontos, embora tenha acumulado baixa de 0,14% desde segunda-feira. É a quarta semana consecutiva em que o principal índice da bolsa brasileira fica com saldo vermelho.
O Ibovespa foi menos afetado por todo esse contexto de tensão porque o índice contou com alguns fatores para amenizar tais efeitos. Por aqui, a temporada de balanços corporativos contribuiu para dar um ânimo às negociações no mercado de ações — e a própria postura do Copom serviu para impulsionar o índice.
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No entanto, o dólar à vista não teve nenhum amortecedor — e, ao contrário do Ibovespa, a diferença na abordagem dos BCs desfavorece o real ante a moeda americana. Como resultado, o dólar teve um amplo fortalecimento na semana, se aproximando novamente do patamar de R$ 3,90.

A questão das políticas monetárias concentrou a atenção dos mercados na primeira metade da semana — e, sem ter clareza quanto ao que poderia acontecer na "super quarta-feira", o mercado adotou uma postura mais cautelosa, especialmente no câmbio.
Essa abordagem mais defensiva disparou um movimento clássico dos períodos de aversão ao risco: os agentes financeiros se desfizeram dos ativos emergentes e correram para a segurança do dólar. Assim, a moeda americana se valorizou em relação às divisas com esse perfil, como o real, o peso mexicano e o rublo russo, entre outras.
E a "super quarta-feira" mostrou que essa postura estava correta, uma vez que o Fed quebrou as expectativas do mercado. A autoridade monetária americana reduziu os juros do país em 0,25 ponto — conforme esperado pelos agentes financeiros —, mas depois deu sinais considerados decepcionantes.
O presidente da instituição, Jerome Powell, deu a entender que o movimento atual do Fed foi "pontual" e que não implicava no início de um ciclo prolongado de corte de juros — uma postura frontalmente diferente do que era aguardado pelos mercados. E isso se traduziu em mais aversão ao risco, dando mais força ao dólar.
Ainda na quarta-feira, o BC também cortou os juros do Brasil, mas numa intensidade maior: de 0,5 ponto, para o nível de 6% ao ano. Só que, diferentemente do Fed, a autoridade monetária brasileira deixou a porta aberta para mais reduções da Selic daqui para frente.
Essa diferença de postura entre os dois bancos centrais tem implicações diferentes para o Ibovespa e para o dólar. Juros mais baixos reduzem a rentabilidade das aplicações em renda fixa, o que acaba estimulando os investidores a buscarem ativos mais arriscados para conseguirem retornos mais atraentes — e, no caso, a bolsa é uma dessas opções.
Assim, o corte de juros e a postura firme do Copom provocaram uma corrida à bolsa na quinta-feira (1). No entanto, o mesmo não foi visto no dólar à vista.
A explicação é técnica: com os juros brasileiros caindo mais rápido que os americanos, diminui o diferencial entre as taxas dos dois países, e, assim, é menor o apelo do chamado carry trade — uma operação em que o investidor capta dinheiro “barato” lá fora, entra com ele no Brasil e ganha o diferencial de juros. Meu colega Eduardo Campos explica melhor essa questão nesta matéria especial.
Assim, apesar de a bolsa ter passado por um alívio, o dólar seguiu pressionado. E, na tarde de quinta-feira, a situação piorou ainda mais...
Enquanto os mercados globais ainda se ajustavam às sinalizações emitidas pelos bancos centrais, o presidente dos EUA, Donald Trump, foi ao Twitter para comentar sobre as negociações comerciais com a China. E os comentários não foram exatamente amigáveis.
O republicano anunciou que iria aplicar tarifas de 10% sobre mais US$ 300 bilhões em produtos importados chineses a partir de 1º de setembro — esse montante não inclui os US$ 250 bilhões em mercadorias da China que já sofrem com sobretaxas de 25%.
O reaquecimento da guerra comercial mexeu com a confiança dos mercados, que temem que a escalada nos atritos entre Washington e Pequim se traduzam num enfraquecimento maior da economia global. Como resultado, as bolsas americanas mergulharam ao campo negativo e o dólar disparou — o Ibovespa ainda sustentou leve alta, mas se afastou das máximas.
E, nesta sexta-feira, esse pessimismo e forte aversão ao risco continuaram dando as cartas para o mercado. "Ninguém quer ficar posicionado, sendo que temos o fim de semana pela frente e podemos ter outras notícias ruins nos próximos dias", diz um operador. "Na dúvida, é melhor vender".
Por mais que autoridades americanas tenham sinalizado que as novas tarifas podem ser suspensas caso a China se mostre aberta a negociar, porta-vozes do governo chinês afirmaram que será necessário adotar medidas "para defender os interesses do país". Com isso, o tom seguiu firmemente negativo nos mercados globais.
O Dow Jones fechou o pregão de hoje em queda de 0,37%, o S&P 500 recuou 0,73% e o Nasdaq teve baixa de 1,32% — na semana, os índices acumularam perdas de 2,71%, 3,10% e 3,92%, nesta ordem. Já o Ibovespa foi contra a maré e encerrou o dia no campo positivo, graças ao bom desempenho de duas ações
O desempenho do Ibovespa só não foi pior porque as ações da Petrobras tiveram altas firme. Os papéis PN da estatal (PETR4) avançaram 3,59%, enquanto as ONs (PETR3) subiram 3,03%, despontando entre os maiores ganhos do índice nesta sexta-feira.
Dois fatores ajudam a explicar essas altas das ações. Em primeiro lugar, há o balanço trimestral da companhia — a Petrobras reportou lucro líquido de R$ 18,9 bilhões, cifra impulsionada pela venda da Transportadora Associada de Gás (TAG). Sem esse efeito, o lucro teria sido de R$ 5,157 bilhões, uma queda de 53% na base anual.
Apesar disso, analistas destacam que a estatal conseguiu gerar caixa e reduzir o endividamento no trimestre, fatores que dão uma percepção positiva ao balanço. Além disso, as ações da empresa também são ajudadas pela recuperação do petróleo no exterior: o WTI subiu 3,17% e o Brent teve alta de 2,30%.
A curva de juros resistiu à apreensão global e passou apenas por alguns ajustes positivos nesta sexta-feira. Os DIs seguem ancorados na expectativa de novos cortes na Selic ainda neste ano, conforme sinalizado pelo Copom na última quarta-feira — a autoridade monetária já promoveu uma redução de 0,5 ponto na taxa, para 6% ao ano.
Nesse contexto, as curvas com vencimento em janeiro de 2020 subiram de 5,501% para 5,505%, e as para janeiro de 2021 avançaram de 5,40% para 5,42%. Na ponta longa, os DIs para janeiro de 2023 tiveram alta de 6,35% para 6,37%, enquanto os para janeiro de 2025 ficaram estáveis em 6,91%.
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