Ações da Hapvida (HAPV3) sobem 24,5% na semana, mas otimismo não chega nas debêntures: prêmio de risco está na faixa de CDI +8%
Troca de CFO e possível venda de ativos animou os acionistas, mas repercussão nos títulos de dívida foi mais comedida

Esta semana foi bastante positiva para a Hapvida (HAPV3). As ações dispararam 24,5% no acumulado dos cinco dias, diante de notícias que indicam que a diretoria está revendo a rota da empresa.
Entretanto, essa euforia não chegou nos títulos de dívida da empresa. As debêntures HAPV15, HAPV19 e HAPV20, indexadas ao CDI, fecharam ligeiramente o prêmio de risco em comparação com a abertura registrada desde fevereiro.
Na prática, isso indica que os credores (detentores das debêntures) de Hapvida estão mais desconfiados com o futuro da empresa do que os acionistas. E isso se explica pela diferença na natureza dos investimentos: ações versus debêntures.
Os resultados operacionais ou financeiros de uma companhia tendem a afetar rapidamente o preço das ações, uma vez que impactam o lucro e, consequentemente, o retorno aos acionistas.
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Já os títulos de renda fixa costumam ser mais influenciados pela saúde financeira da empresa. Isto é, sua capacidade de honrar as dívidas, independentemente dos resultados de curto prazo.
Como os credores têm prioridade de pagamento em relação aos acionistas, para a renda fixa sofrer na precificação, a situação da empresa precisa estar razoavelmente deteriorada.
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Os pedidos recentes de recuperação extrajudicial de Raízen (RAIZ4) e GPA (PCAR3) aumentaram a percepção de risco dos investidores de renda fixa e reverberaram nos papéis de Hapvida também.
O que aconteceu nas debêntures da Hapvida?
Os spreads — diferença na taxa dos títulos de empresas em relação aos títulos públicos do governo, que servem como prêmio de risco — nas debêntures da Hapvida começaram a aumentar no terceiro trimestre do ano passado, segundo relatório do BTG Pactual.
Isso significa que os investidores começaram a ver mais risco na empresa e, por isso, exigir mais prêmio para investir na sua dívida. O spread nas três debêntures da Hapvida abriu de CDI + 1,1% para CDI + 2% naquele momento.
Então, estabilizou.
Em relatório, o BTG destaca que a situação se deteriorou mais após o anúncio de novas aquisições em São Paulo e resultados fracos do quarto trimestre. Após o balanço, em março, a abertura dos spreads disparou para CDI + 10%, chegando a CDI + 14% no pior momento.
Aqui, é válido destacar que a abertura de spreads significa queda no preço do título. As taxas abrem pela leitura de maior risco do ativo, porém, para compensar essa abertura, o preço das debêntures cai.
Ao atingir CDI + 10%, o preço dos papéis diminuiu para cerca de 70% do valor nominal, que seria pago no vencimento, segundo dados da plataforma Vitrify.
Uma carta publicada pela gestora Squadra — que detém 6,98% de participação na Hapvida — no início de abril, resumiu a percepção do mercado sobre a gestão da empresa.
A carta questiona a remuneração dos conselheiros, pede a troca de membros e mudança no sistema de votação, expõe o endividamento e investimentos de alto custo e baixo retorno.
Acionistas se animam, credores seguem desconfiados
Nesta semana, a Hapvida começou a se mexer em relação às críticas recebidas.
Começou na quarta-feira (8), com uma matéria do portal Pipeline dizendo que a empresa está cogitando vender suas operações na região Sul, incluindo ativos originalmente adquiridos pelo Grupo NotreDame Intermédica (GNDI).
Os ativos são a Clinipam e o Centro Clínico Gaúcho, além de três hospitais erguidos pelo GNDI. No total, essa estrutura engloba oito hospitais, 21 clínicas e uma base de 490 mil beneficiários.
A reação do mercado foi bastante positiva. No dia, os papéis HAPV3 subiram 9%, a R$ 11,2.
Nesta sexta-feira (10), no entanto, a companhia disse que não há qualquer decisão formal sobre a venda desses ativos. Em nota, a Hapvida disse que a região Sul segue relevante para a estratégia do grupo.
Também hoje, a companhia anunciou a troca da vice-presidência financeira. Trata-se da segunda mudança na diretoria, visto que Luccas Augusto Adib assumiu a cadeira de CEO também nesta semana, concretizando uma transição na presidência que teve início em dezembro.
Novamente, as ações responderam. Os papéis HAPV3 subiram 13% nesta sexta, chegando a R$ 13,25.
A repercussão nas debêntures foi bem mais tímida. O prêmio de risco recuou de CDI + 10% para CDI + 8%, conforme dados da plataforma Vitrify.
O que dizem os analistas?
O JP Morgan avaliou a possível venda dos ativos no Sul e Sudeste como um “reforço do compromisso de longo prazo da família controladora com a companhia”. Isso porque, esses são os ativos vistos como “não essenciais” e com desempenho abaixo do esperado.
A Hapvida tem mais mercado e resultado no Nordeste, enquanto o Sul e Sudeste tem sido regiões de prejuízo operacional.
O JP Morgan ainda pontua que que esses ativos têm baixa relevância para os resultados da companhia — cerca de 5% da receita consolidada —, enquanto dados da Agência Nacional de Saúde (ANS) sugerem contribuição negativa para o lucro.
Mas essa é a avaliação do ponto de vista de acionistas, para as ações.
No que diz respeito à análise para as debêntures, o BTG é mais cético. A posição do banco é neutra.
“Embora um plano de desinvestimento mais abrangente e formal possa atuar como um catalisador fundamental, melhorando a liquidez e reduzindo os riscos de execução, a visibilidade no curto prazo permanece limitada e os desafios de execução persistem”, diz o relatório.
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