Tesouro IPCA+ 2026 está prestes a vencer; vale a pena vender antes para travar taxas maiores (e isentas de IR) agora?
O BTG Pactual vê oportunidade na saída antecipada para travar juros altos por mais tempo em debêntures e títulos privados isentos de IR

Faltam menos de dois meses para o vencimento do Tesouro IPCA+ 2026. Em poucas semanas, o patrimônio acumulado ao longo dos anos — principal investido, correção pela inflação e juros contratados — vai cair na conta dos investidores. E, junto com o dinheiro, virá uma pergunta inevitável: onde aplicar agora?
Um relatório do BTG Pactual sugere que vale mais a pena se antecipar a esse momento.
Em vez de esperar o vencimento em 15 de agosto, a recomendação do banco é vender o título agora e realocar os recursos em papéis de crédito privado de alta qualidade.
A tese parte de uma avaliação simples: os juros reais brasileiros estão em níveis raramente vistos nas últimas décadas. Em alguns vencimentos mais longos, é possível encontrar remunerações próximas ou acima de IPCA+8% ao ano, um patamar raro em perspectiva histórica.
O problema é que ninguém sabe por quanto tempo essa janela permanecerá aberta.
O investidor pode esperar até agosto e ainda encontrar taxas semelhantes. Mas também pode acontecer o contrário: receber o dinheiro de volta e descobrir que o mercado já não oferece os mesmos retornos em papéis de risco equivalente.
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É o chamado risco de reinvestimento.
O risco do reinvestimento
Esse risco surge quando um investimento vence e o dinheiro precisa ser reaplicado em um ambiente de mercado menos favorável.
Imagine um investidor que comprou um título pagando IPCA+7,5% ao ano. Se, no vencimento, os papéis equivalentes estiverem oferecendo apenas IPCA+5%, ele não conseguirá manter a rentabilidade anterior.
“Não é uma tarefa trivial manter os ganhos nos níveis anteriores. Isso pode até ser possível, porém será necessário tomar mais risco”, afirma o BTG em relatório.
Na prática, pode significar investir em empresas com perfil de crédito mais arriscado ou alongar mais do que gostaria os vencimentos da carteira.
O argumento do banco ganha força porque o Tesouro IPCA+ 2026 já está praticamente no fim de sua jornada. Dados do Tesouro Direto mostram que o papel acumula rentabilidade de 8,22% somente neste ano e cerca de 14,8% em 12 meses até junho.
O estoque de aplicações nas versões com e sem juros semestrais somam R$ 13 bilhões. Ou seja, há uma montanha de dinheiro prestes a procurar um novo destino.
Como funciona resgatar antes do prazo?
Muitos investidores podem ter a ideia errada de que, ao vender o Tesouro IPCA+ antes do vencimento se recebe apenas a valorização do preço de mercado e perde a correção pela inflação acumulada.
Não é assim. O pagamento considera, sim, o preço de mercado do título naquele dia, mas esse preço já incorpora os dois componentes do papel:
- toda a inflação (IPCA) acumulada desde a emissão ou desde a compra, que entra no valor principal do título.
- taxa de juros real contratada pelo mercado naquele momento.
Na prática, o valor do investimento vai sendo atualizado pela inflação ao longo do tempo. Ao vender o papel, o investidor leva consigo toda essa correção acumulada até aquele momento.
O que muda é que o preço final também passa pelo filtro do mercado naquele dia.
É por isso que o relatório do BTG fala em vender antes do prazo final. Como faltam apenas dois meses, o papel já acumulou praticamente toda a inflação do período.
O banco calcula que a desvalorização do Tesouro IPCA + 2026 para quem optar por vender agora ficaria entre aproximadamente 0,4% e 1%, dependendo da taxa que o investidor travou originalmente no título.
Que tal o crédito privado?
A questão é compensar essa pequena perda no próximo investimento. Para o BTG, as melhores oportunidades estão no crédito privado, especificamente nas debêntures incentivadas, que tem isenção de imposto de renda (IR) sobre seus rendimentos.
“Com retornos entre IPCA+7% e IPCA+8,75%, considerando uma inflação de 5% no ano, seria possível obter um retorno nominal entre 12% e 14% no ano, o que recuperaria o leve deságio do resgate antecipado em cerca de um mês”, diz o relatório.
Entretanto, há de se considerar alguns pontos para que essa troca valha a pena.
A começar pela escolha de setores resilientes e defensivos sob a ótica de crédito, como energia e saneamento, especialmente em emissores com as melhores avaliações por agências de risco (AAA).
Além disso, o BTG recomenda não alongar demais a posição, optar por vencimentos médios, de até cinco anos.
Por fim, a questão da isenção de IR para pessoa física também é apontada como um diferencial significativo. As indicações são para debêntures incentivadas e Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs).
“Usando como preferência debêntures incentivadas e CRAs com ratings de crédito elevados (entre AA, AA+ e AAA), podemos ver que a diferença de retorno absoluto anual entre ativos de crédito privado e títulos públicos é bastante expressiva”, diz o relatório.
Saneamento e energia
O relatório afirma que a escolha de energia e saneamento é pelo modelo de negócio. Muitos ativos operam com contratos de longo prazo e corrigidos pela inflação (IPCA), garantindo receitas reguladas ou demanda relativamente estável, o que permite boa previsibilidade de receitas.
Setores de serviço essencial para a população tem menos probabilidade de ruptura abrupta de demanda ou obsolescência do negócio. Dessa forma, as companhias do setor conseguem ter maior recorrência de geração de caixa.
Para o crédito privado, essas são características essenciais, que dão mais clareza em relação ao pagamento de juros. Em seu relatório, o BTG não faz recomendações diretas, mas traz alguns nomes desses setores:
- TAEED2 / TAEEB2 — Taesa
- ENEV26 — Eneva
- ELET42 — Axia (Eletrobras)
- SBSPB6 / SBSPE9 — Sabesp
- NEOE16 — Neoenergia
- EGIEA6 — Engie Brasil
- EQPAA1 — Equatorial
- CTEE29 — CTEEP (Isa Energia Brasil)
Atenção ao risco
Neste ponto é preciso destacar a diferença do risco do Tesouro IPCA+ para o crédito privado do ponto de vista do emissor.
O Tesouro IPCA+ é um título público, emitido pelo governo federal — essa é a maior garantia possível, o chamado risco soberano. A chance de a União não arcar com sua dívida é muito baixa.
O mesmo não pode ser dito do crédito privado. O risco de debêntures e CRAs é o risco do seu emissor, por isso o banco destacou as empresas “de melhor qualidade”.
Diferentemente de CDBs, LCIs e LCAs que contam com o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), o crédito privado não tem garantidor externo. O pagamento depende única e exclusivamente do dinheiro em caixa da empresa.
Por isso, o juro oferecido por esses títulos deve ser maior do que o do Tesouro IPCA+, para compensar o risco que o investidor está correndo. É importante ter isso em mente na hora de decidir pela estratégia do reinvestimento.
Na máxima, se o risco do crédito privado for maior do que o seu perfil de investidor aguenta, os próprios títulos do Tesouro IPCA+ são opções para reinvestimento.
Na plataforma do Tesouro Direto, o Tesouro IPCA+ 2032 está pagando IPCA + 8,38% nesta quarta-feira (24) — uma taxa histórica, como o próprio BTG destacou.
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