Bradesco (BBDC4): lucro de R$ 6,8 bilhões no 1T26 mostra que a recuperação está de pé — dá para acelerar?
Lucro cresce pelo nono trimestre seguido e ROE continua a superar o custo de capital; confira os destaques do balanço

O Bradesco (BBDC4) desembarca na temporada de resultados do primeiro trimestre de 2026 (1T26) com a missão nada trivial de convencer o mercado de que a recuperação enfim ganhou tração. Nesta safra, o banco registrou um lucro líquido recorrente de R$ 6,81 bilhões entre janeiro e março.
O resultado representa uma alta de 16,1% em relação ao mesmo período do ano passado e avanço de 4,5% frente ao trimestre imediatamente anterior.
Foi ainda o nono trimestre consecutivo de melhora gradual nos resultados — uma sequência que começa a consolidar a percepção do mercado de que o pior ficou para trás.
O resultado também veio ligeiramente acima das projeções do mercado, que apontavam para um lucro médio de R$ 6,652 bilhões, segundo consenso da Bloomberg.
A reação inicial dos investidores também foi positiva: os ADRs (recibos das ações negociados em Nova York) avançavam 1,55% no after market logo após a divulgação do balanço.
Mas, por trás da melhora dos números, o discurso da administração ainda é marcado por cautela. O Bradesco quer crescer, mas sem repetir os excessos do passado recente — especialmente em um ambiente que continua difícil para crédito, inadimplência e atividade econômica.
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"O ano começou em ritmo acelerado para o Bradesco, e o bom desempenho das nossas receitas é prova disso. Avançamos com cautela. O cenário macro piorou, vimos guerra, e ainda assim gerimos bem os riscos, preservamos a qualidade dos nossos ativos, reforçamos o nosso balanço, aproveitamos as oportunidades que apareceram e aumentamos a nossa rentabilidade”, disse o CEO, Marcelo Noronha, em nota à imprensa.
Rentabilidade melhora, mas ainda fica atrás dos rivais
Como tem sido regra nas últimas temporadas, o foco do mercado vai muito além do lucro. O grande termômetro da tese de turnaround do Bradesco continua sendo a rentabilidade.
No primeiro trimestre, o retorno sobre o patrimônio líquido médio (ROAE) do Bradesco atingiu a marca de 15,8%, também acima da expectativa média dos analistas, de 15,4%.
O indicador avançou 0,6 ponto percentual em relação ao trimestre anterior e subiu 1,4 ponto percentual na comparação anual. Ainda assim, o banco continua abaixo dos níveis de rentabilidade dos principais concorrentes privados.
Para efeito de comparação, o Santander Brasil (SANB11) encerrou o trimestre com ROE de 16%, enquanto o Itaú Unibanco (ITUB4) entregou uma rentabilidade de 24,8%.
Essa diferença ajuda a explicar por que parte do mercado ainda trata o turnaround do Bradesco com certa cautela: o banco já melhorou bastante, mas ainda não recuperou plenamente sua capacidade histórica de geração de retorno.
O próprio Noronha reconhece que o processo de recuperação do Bradesco ainda está em curso. Segundo o executivo, 2026 será um ano “superimportante” para consolidar a transformação da instituição.
“Começamos o ano em ritmo acelerado. Estamos otimistas, mas com cautela", disse o executivo.
Uma lupa na carteira de crédito do Bradesco
Se há um ponto que ajuda a entender o ritmo dessa recuperação, ele está na forma como o Bradesco vem reconstruindo sua carteira de crédito.
Depois de sofrer com deterioração relevante da inadimplência nos últimos ciclos, o banco adotou uma postura mais seletiva na concessão. A estratégia permanece praticamente a mesma dos últimos trimestres: priorizar operações com garantias, clientes de maior renda e linhas consideradas menos arriscadas.
Na prática, isso ajuda a blindar a qualidade dos ativos em um ambiente macroeconômico ainda delicado — embora também reduza espaço para um crescimento mais acelerado da carteira.
"Nosso apetite ao risco continua moderado, com viés para mais conservador, em função do acompanhamento dos indicadores de mercado sobre inadimplência, que apresentaram certa degradação, em particular no agronegócio e algumas modalidades", afirma o banco, no balanço.
No primeiro trimestre, a carteira de crédito expandida cresceu 8,4% em relação ao mesmo período do ano passado e ficou praticamente estável frente ao trimestre anterior, com leve alta de 0,1%, encerrando março em R$ 1,09 trilhão.
Ao mesmo tempo, o percentual de operações com garantia atingiu 60,8% da carteira, crescimento de 3,8 pontos percentuais em 12 meses.
Todos os olhos na inadimplência e provisões
Do lado da inadimplência, os indicadores seguiram relativamente comportados. O índice de atrasos acima de 90 dias ficou em 4,2%, praticamente estável, com leve queda de 0,1 ponto percentual na comparação anual e tímida alta de 0,1 ponto frente ao trimestre anterior.
Segundo o Bradesco, o leve aumento recente dos atrasos longos está concentrado principalmente em micro, pequenas e médias empresas (MPMEs), especialmente em operações de capital de giro com garantia, que possuem dinâmica diferente de recuperação.
O banco também reconheceu alguma deterioração em carteiras mais antigas de crédito rural, tanto para pessoas físicas quanto jurídicas. Ainda assim, afirmou que tem "produzido novas safras de crédito com qualidade".
Além disso, os ativos problemáticos da carteira reestruturada continuaram diminuindo, o que contribuiu para nova redução das operações classificadas em Estágio 3 — categoria que concentra créditos considerados problemáticos, de maior risco e que demandam provisionamento maior.
Mesmo assim, o reforço das provisões chamou atenção no trimestre. As despesas expandidas do Bradesco com provisões para perdas no crédito (PDD) — o colchão que os bancos mantêm para absorver eventuais calotes — saltaram no trimestre.
O indicador avançou 26,5% na comparação anual e avançaram 9,5% frente ao trimestre anterior, totalizando R$ 9,66 bilhões.
Já o custo do crédito atingiu a marca de 3,5%, 0,3 p.p acima do último trimestre e 0,5 p.p maior do que o mesmo intervalo de 2025. Segundo o banco, o movimento reflete “casos pontuais no segmento de atacado e maior custo de crédito do massificado”, isto é, de linhas voltadas para clientes de menor renda.
A expansão do indicador também é reflexo do reforço de balanço do Bradesco para casos específicos de inadimplência no segmento de Grandes Empresas e a cobertura da movimentação de Estágio 3 acima de 100%, segundo o banco.
Outros destaques do balanço do Bradesco (BBDC4)
Na linha de receitas, os números mostraram um avanço mais consistente no trimestre.
A margem financeira — que mede a diferença entre o que o banco ganha ao emprestar e o que paga para captar recursos — somou R$ 20,05 bilhões no 1T26, crescimento de 16,4% em relação ao mesmo período de 2025 e de 4,2% frente ao trimestre anterior.
Dentro desse resultado, a margem com clientes avançou 16,3% na comparação anual, atingindo R$ 19,49 bilhões. Segundo o banco, o movimento reflete o crescimento do volume médio das operações de crédito e spreads mais elevados em algumas linhas.
A margem financeira com o mercado — ligada às operações de tesouraria — também mostrou recuperação expressiva. O indicador avançou 19,7% na comparação anual e disparou quase 340% frente ao trimestre anterior, alcançando R$ 553 milhões.
Segundo o Bradesco, o desempenho foi impulsionado principalmente pela gestão de ativos e passivos (ALM) e pelas mesas de arbitragem.
Tarifas crescem, despesas seguem no radar
As receitas do Bradesco com tarifas e prestação de serviços cresceram 6,2% na comparação anual, somando R$ 10,37 bilhões. Na comparação trimestral, porém, houve queda de 6,4%.
“Estamos ganhando produtividade e aumentando as receitas de forma diversificada. Hoje, fazemos mais com menos”, afirmou Noronha.
Do lado das despesas, o banco registrou gastos operacionais de R$ 16,17 bilhões, alta de 7,8% em relação ao mesmo período de 2025, mas queda de 4,6% frente ao trimestre imediatamente anterior.
O Bradesco afirma que os custos continuam relativamente controlados, mesmo em meio aos investimentos robustos na transformação digital e tecnológica da instituição.
Segundo o banco, a alocação de recursos combina a captura de eficiência por meio da revisão da presença física (footprint) do banco com a preservação dos investimentos focados no sustento do crescimento e a devolução operacional.
"Estamos investindo muito em tecnologia, em pessoas, na nossa transformação. Essa agenda veio para ficar e a tendência é que a nossa produtividade continue a evoluir", acrescentou Noronha.
A força da nova BradSaúde
Se há uma frente que segue entregando resultados consistentes dentro do grupo, ela atende agora por um novo nome: BradSaúde (SAUD3).
A recém-estruturada holding — que reúne os ativos de saúde do Bradesco — estreou com lucro líquido consolidado de R$ 1,3 bilhão e uma rentabilidade anualizada (ROAE) de 24,8%.
Os números por si só já chamam atenção. Mas o principal argumento da companhia não está apenas nos resultados atuais, e sim no que pode vir a partir da integração dos negócios.
"Estamos destravando valor no Bradesco. A Bradsaúde nasceu, é realidade, um passo histórico", afirmou o CEO do Bradesco. "Seu potencial em saúde é incrível, e há também benefícios consequentes para a organização."
O movimento consolida três frentes relevantes que, até então, operavam de forma mais independente: Odontoprev, Bradesco Saúde e Atlântica Hospitais.
Separadas, essas operações já apresentavam crescimento consistente. Juntas, passam a formar um ecossistema mais integrado, com potencial de capturar sinergias, ampliar a oferta de produtos e melhorar a eficiência ao longo da cadeia de valor.
Na prática, a aposta é que a combinação desses ativos permita destravar novas avenidas de crescimento e rentabilidade, ainda não totalmente refletidas nos números atuais.
RESULTADO
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