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A possibilidade de reabertura da janela de IPOs atrai empresas dispostas a abrir o capital, mas movimento nessa direção ainda é tímido
Com a volta dos investidores estrangeiros à bolsa brasileira e a alta do Ibovespa, é natural que o interesse por IPOs volte a surgir. A lista de pretendentes a novas empresas listadas ainda está pequena, mas a expectativa já é grande. Afinal, a B3 não vê nenhuma abertura de capital desde 2021.
Algumas companhias já pediram o registro para uma abertura de capital à CVM (Comissão de Valores Mobiliários), enquanto outras ainda estão na fase de planos. Em muitos desses casos, a concretização da oferta depende da aprovação dos controladores e de condições favoráveis.
Mesmo assim, algumas dúvidas vão surgindo. Quem são essas companhias? Qual a diferença entre o cenário de 2026 e o da última janela de aberturas, encerrada em 2021, quando dezenas de companhias fizeram IPOs?
Além disso, que investidores devem apostar nessas ofertas? E será que há oportunidades para a pessoa física ou é melhor ficar de fora?
Para ajudar a responder essas perguntas, Seu Dinheiro conversou com Rafael Oliveira, gestor de ações da Kinea, gestora com R$ 147 bilhões sob gestão.
Por causa desse bom momento, é natural a volta do interesse por IPOs. "Os bancos sugerem a abertura de capital aos seus clientes, dão uma esperança ao fundador da empresa fechada de que ele conseguirá um múltiplo interessante em uma emissão de ações", afirma Oliveira.
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Os conflitos no Oriente Médio pesaram no apetite ao risco dos investidores, com ida para investimentos mais seguros diante da volatilidade. Isso pode afetar os prospectos de IPO. Mesmo assim, a alta no Ibovespa é de 11% desde o início do ano.
Na última janela de IPOs, entre 2020 e 2021, 74 empresas abriram capital na bolsa. Ainda que grandes empresas tenham estreado na bolsa no período, como a Rede D'Or, Smartfit e PetroReconcavo, algumas companhias menores também fizeram esse processo, como GetNinjas, Enjoei, Mobly e outras.
Eram negócios conhecidos dos investidores pessoas físicas, que usavam seus produtos no dia a dia. No entanto, poucas dessas deram o retorno esperado aos acionistas e diversas chegaram a fechar o capital nos anos seguintes.
Será que veremos 2026 repetindo os erros do passado? Para o gestor, a situação é bem diferente.
A taxa básica de juros era de um dígito na época, e chegou a 2% ao ano durante a pandemia, a menor da história. Por causa da baixa rentabilidade na renda fixa, os IPOs surgiram como uma alternativa muito atraente.
Agora, a Selic está em 15% ao ano e deve chegar a 12% ao ano até o fim de 2026. "Os juros ainda estão elevados, e não deve haver muitas empresas na fila para IPOs", afirma Oliveira. Por isso, há maior seletividade.
O perfil das companhias também é outro. Hoje, as empresas estão em setores como infraestrutura e saneamento, segmentos mais pesados e que demandam mais estudo dos investidores, ao contrário de empresas de consumo.
Além disso, são companhias com diretores e presidentes que já passaram por empresas de capital aberto e já têm uma área de relações com investidores, por emitirem dívida no Brasil e no exterior, diz o especialista.
Assim, já conhecem os ritos do mercado, sabem preparar documentos para a CVM e conduzir uma reunião de resultados, por exemplo.
O investidor também deve ser outro em relação a meia década atrás. A pessoa física não deve entrar nessas aberturas de capital, acredita Oliveira, já que ainda há certa reticência com a bolsa.
Quem deve aportar capital nessas empresas devem ser principalmente fundos estrangeiros — muitos deles já têm veículos dedicados a infraestrutura e setores correlatos — e investidores institucionais locais.
"Para o investidor pessoa física, acho que é uma roleta russa", afirma.
As informações disponíveis em um prospecto não são suficientes para dar uma visão detalhada da empresa. Os investidores institucionais conseguem uma análise mais aprofundada com reuniões com a empresa, mas ainda assim é um processo assimétrico.
Por enquanto, a bolsa brasileira não viu nenhum IPO acontecer desde 2021. Pelo contrário, diversas empresas fecharam o capital e se despediram do mercado.
Mas duas brasileiras já abriram capital lá fora, e uma fez um follow-on substancial.
O PicPay levantou US$ 500 milhões, com o preço saindo no topo da faixa indicativa, em IPO na Nasdaq no dia 29 de janeiro. No entanto, nos dias seguintes os seus papéis sofreram perdas na bolsa.
Já o Agibank cortou, na véspera, as emissões de seu IPO, realizado no dia 10 de fevereiro na Bolsa de Nova York (NYSE). A oferta, que inicialmente mirava uma captação US$ 828 milhões, acabou sendo concluída por US$ 240 milhões, segundo a Bloomberg — menos da metade do planejado.
Já no Brasil, o Banco Pine (PINE4) bateu à porta da bolsa para reforçar o caixa com um follow-on para levantar até R$ 400 milhões, mas o banco informou ter captado cerca de R$ 245,9 milhões.
A empresa mais recente a pedir um registro de IPO é a Compass, uma espécie de “Sabesp do gás” e uma subsidiária da Cosan. Já é a terceira vez que a empresa dá início a esse processo, mas que foi encerrado das outras vezes por falta de cenário adequado.
A empresa de distribuição de gás surgiu quando a Comgás foi adquirida pela holding de Rubens Ometto em 2012. Em 2020, surgiu a Compass. Segundo o site da empresa, são mais de 3 milhões de clientes conectados.
Além da Comgás, maior distribuidora de gás natural do país localizada em São Paulo, a empresa tem participação em mais seis distribuidoras de gás gerenciadas pela Commit, controlada da Compass que tem como sócia a Mitsui, divisão brasileira da gigante japonesa.
A Cosan tem 88% do capital da companhia. Um bloco de fundos da Atmos, Bradesco Vida e Previdência, BC Gestão de Recursos, Prisma Capital e Núcleo Capital também têm posições minoritárias.
A Vale Base Metals (VBM) é outra divisão que pode se tornar uma empresa independente na bolsa. A Vale (VALE3) quer colocar seu braço de níquel e cobre na vitrine — e antes do que o mercado imaginava.
A subsidiária trabalha para deixar a operação pronta para um possível IPO até a metade deste ano, antecipando o cronograma que antes apontava para 2027.
Segundo o CEO da unidade, Shaun Usmar, a organização interna está andando mais rápido do que o previsto. O plano envolve cortar custos, reduzir a necessidade de capital e destravar projetos.
A Aegea, companhia de saneamento, começou a flertar com a bolsa em dezembro, quando contratou assessores legais e financeiros para um possível IPO. Recentemente, deu um passo importante e converteu o seu registro na CVM para a categoria A, que permite que uma empresa emita ações na bolsa.
Ela está presente em 892 cidades em 15 estados brasileiros. Criada em 2010, atualmente detém 37% do market share do setor privado, atendendo mais de 39 milhões de brasileiros.
Entre os sócios da companhia estão a Equipav, empresa de saneamento que detém 68,69% do capital votante da Aegea, o fundo soberano de Cingapura (GIC), com 20,40%, e a Itaúsa, que possui 10,91%.
Dois dos sócios, a Itaúsa e o fundo de Cingapura, aumentaram a aposta na empresa de saneamento com compras de participação. Somados, os aportes garantem à Aegea um reforço de R$ 1,2 bilhão no caixa. Um dos objetivos é a compra de uma fatia na Copasa, que está em vias de ser privatizada.
A BRK Ambiental, também uma empresa privada de saneamento, entrou com pedido na CVM para realizar uma oferta pública de ações em dezembro. Segundo apuração do Valor Econômico, a empresa pode levantar cerca de R$ 2,5 bilhões com a oferta.
A BRK foi criada em 2008 a partir do spin-off dos ativos do segmento ambiental da Organização Odebrecht. Atualmente, a companhia já possui toda a estrutura de uma empresa de capital aberto, com divulgação de resultados trimestrais e site de Relações com Investidores.
Ela já chegou a tentar uma abertura de capital em 2021. É controlada pela Brookfield, que detém 70% da companhia. Os outros 30% pertencem ao fundo de investimentos do FGTS.
A BRK presta serviços de água e esgoto e está presente em mais de 100 municípios, em estados como Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Bahia, Goiás, Tocantins, Pernambuco, Sergipe, Maranhão e Pará. É a segunda maior empresa privada de saneamento do Brasil.
A Transire, gigante na fabricação de maquininhas de cartão e outras ferramentas de pagamento, agora quer crescer fora do país. Para isso, prepara uma oferta inicial de ações (IPO) e o sonho é a Nasdaq, em Nova York, nos próximos três anos.
Com cerca de 75% do mercado brasileiro conquistados em uma década de estrada, é o nome por trás de Stone, PagSeguro, Cielo, GetNet, Inter Pag, BTG Pay e até mesmo de alguns totens de autoatendimento em redes de fast food e cinema.
A Transire teve receita anual de R$ 2 bilhões em 2025 com fabricação de 4 milhões de aparelhos por ano e média de 350 mil mensais. Hoje, não tem nenhum fundo de investimento ligado a empresa, que possui um único acionista: o fundador e CEO, Gilberto Novaes.
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