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Com 75% do mercado brasileiro e R$ 2 bilhões em receita, a fabricante de maquininha de cartão agora aposta em ecossistema próprio. A companhia está por trás de marcas como Stone, Cielo e outras
Foi Clarice Lispector quem escreveu que só se consegue a simplicidade por meio de muito trabalho. Se é assim, há uma empresa brasileira que encarna a ideia com precisão: a Transire. Mesmo depois de já ter simplificado a vida de quase todo brasileiro, pouquíssimos têm noção da engrenagem que ela opera.
A companhia é uma gigante na fabricação de maquininhas de cartão e outras ferramentas de pagamento, figurando entre as maiores do mundo fora da China. Após se consolidar no Brasil, a empresa agora quer crescer fora do país. Para isso, prepara uma oferta inicial de ações (IPO) e o sonho é a Nasdaq, em Nova York.
Com cerca de 75% do mercado brasileiro conquistados em uma década de estrada, segundo a própria companhia, você já deve ter interagido com ela. É o nome por trás de Stone, PagSeguro, Cielo, GetNet, Inter Pag, BTG Pay ou até mesmo de alguns totens de autoatendimento em redes de fast food ou cinema.
“Você vê nossos produtos em várias cores por aí, mas o público em geral não nos conhece porque trabalhamos ‘na cozinha’”, afirmou Fernando Otani, vice-presidente de negócios da empresa, ao Seu Dinheiro.
Segundo o executivo, a Transire teve receita anual de R$ 2 bilhões em 2025 com fabricação de 4 milhões de aparelhos por ano e média de 350 mil mensais. Hoje, não tem nenhum fundo de investimento ligado a empresa, que possui um único acionista: o fundador e CEO, Gilberto Novaes.
Apesar de sonhar com a bolsa dos gigantes da tecnologia em Wall Street, a Transire não descarta, por exemplo, uma dupla listagem com ações negociadas simultaneamente em Nova York e na B3.
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“A gente está em um cenário muito favorável porque não precisamos fazer IPO. Queremos fazê-lo para concretizar nossa atuação internacional. Quando esse processo avançar, a abertura deixa de ser uma vontade e passa a ser elementar”, afirma Otani.
A intenção é realizar esse desejo nos próximos três anos. Para tal, a Transire conta com o suporte de uma consultoria não divulgada para realizar o desenho estratégico da operação, estabelecendo marcos que devem ser cumpridos para que o desejo vire realidade.
O primeiro marco é a consolidação do ecossistema Zire, anunciado neste ano. Até então, a Transire oferecia soluções de hardware ao “tropicalizar” soluções chinesas — ou seja, basicamente importar as tecnologias e comercializar no Brasil.
Com a nova etapa, a empresa passa a ser proprietária de ponta a ponta, do hadware (a maquininha) ao software (o sistema em que ela opera), além de outros elementos, como camadas de segurança.
“Viramos, de fato, uma empresa de tecnologia. Hoje temos tecnologia e produto próprios, ainda com fornecimento chinês relevante para chips e componentes, mas com marca e ecossistema nossos”, destacou Otani.
Hoje a estrutura operacional da Transire é centralizada em uma fábrica na Zona Franca de Manaus (AM), que se divide entre as plantas especializadas para a produção de placas e montagem de dispositivos e o pós-venda, com a manutenção e reparo dos equipamentos.
A segunda meta é justamente a internacionalização — que tonaria a captação de recursos via IPO indispensável, segundo Otani. “Para um player de tecnologia, sendo bem claro, é muito difícil manter a liderança sem ter protagonismo global”, destaca o executivo.
Embora já tenha escritórios operando fora do Brasil, hoje a receita internacional não é significativa para os resultados da empresa.
Atualmente, a Transire tem um escritório e um centro de serviços na Argentina, replicando as mesmas capacidades tecnológicas que possui no Brasil. O cronograma de expansão para este ano prevê a abertura no México já neste segundo trimestre, além de uma base em Portugal estruturada para atender dez países da Europa.
Embora o mercado dos Estados Unidos seja a maior ambição da companhia, Otani ressalta que ainda não há uma data definida para o início das operações por lá.
O terceiro marco é a preparação da governança da Transire. “É realmente a transformação da companhia, que é uma companhia muito jovem, com o preparo completo da governança dela para um processo de IPO”, afirma Otani.
A empresa nasceu há pouco mais de dez anos, justamente quando o mercado brasileiro de adquirência — o segmento das maquininhas e do processamento de pagamentos — começava a se abrir.
A virada veio com o fim da exclusividade entre bandeiras e adquirentes, movimento conduzido pelo Banco Central e pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).
Até então, o mercado funcionava praticamente em regime fechado: a Cielo (então Visanet) processava com exclusividade os cartões Visa, enquanto a Rede (ex-Redecard) concentrava a Mastercard.
Com o fim desse modelo, as credenciadoras passaram a operar com múltiplas bandeiras, o que ampliou a concorrência, reduziu barreiras de entrada e abriu espaço para novos entrantes e inovação tecnológica.
Foi quando surgiu a Transire, o primeiro sucesso do fundador Gilberto Novaes, que já tinha fracassado em outros empreendimentos. Ele ampliou o mercado com a criação de produtos como maquininhas sem fio.
A inovação viralizou, abrindo espaço para clientes como a PagSeguro. Desde então, o salto na produção foi rápido, saindo de 300 mil equipamentos vendidos em 2013 para a casa dos milhões em 2025. A fábrica em Manaus veio em 2015.
Para 2026, a companhia projeta um salto de 30% na receita, com metas de crescimento de dois dígitos nos próximos anos.
“No segmento de tecnologia, crescer dois dígitos é obrigação. Os ciclos são muito curtos e a Inteligência Artificial (IA) está acelerando isso. Não conseguimos fazer nada sem a ambição de crescer dois dígitos”, afirma Otani.
Inclusive, uma das grandes janelas de oportunidade para a companhia é a explosão da inteligência artificial nos últimos tempos, uma vez que os clientes estariam mais dispostos a pagar por dispositivos que consigam performar bem usando a ferramenta.
Diferente do setor de software, que teve sua dinâmica desafiada por novos produtos de IA, o hardware se beneficia do boom. Isso porque há um aumento no valor percebido pelo cliente na hora da compra.
“Se você chegasse nos varejistas há alguns anos com um equipamento com quatro núcleos de processamento, eles negariam pelo preço. Eles iriam querer o mais barato possível. Agora já conversei com executivos que, se a máquina custasse o dobro, não seria problema porque eles estão interessados no que tem a oferecer”, conta Otani.
Ou seja, agora há espaço para aumentar os preços dos produtos, com mais capacidade de processamento e tecnologia — seja uma máquina de cartão ou um toten de autoatendimento.
Os tótens, por exemplo, passaram por uma onda de digitalização que priorizou eficiência operacional, mas não necessariamente melhorou a experiência do usuário. Agora, segundo ele, a nova etapa passa pela personalização e pela adaptação em tempo real.
“Agora, com inteligência artificial, a experiência deve deixar de ser estática e passa a se adaptar ao usuário — você conversa com o sistema como falaria com um atendente, e ele entende e personaliza o pedido na hora”, conta.
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