Esse investidor global estaria disposto a vender EUA e comprar Brasil; saiba quem é ele
Gestor faz críticas ao modelo econômico norte-americano, baseado em incentivos que prejudicam a inovação e a destruição criativa

A economia brasileira vem enfrentando alguns problemas, com quedas de braço uma hora com o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, outras com o Congresso.
Por seu lado, os mercados reagem. A Bolsa não tem vivido seus melhores momentos e o câmbio está nas alturas, com a cotação do dólar em relação ao real marcando recordes diários.
Mas há quem não esteja tão desanimado com os rumos do país. O investidor e colunista do Financial Times Ruchir Sharma, acaba de afirmar, segundo a BBC News: "Eu retiraria meu dinheiro dos EUA e colocaria em mercados emergentes".
Sharma faz a ressalva de que não acredita no modelo de crescimento do Brasil — e que não acha que o desempenho país seja exemplar entre emergentes. Pelo contrário: ele segue pessimista em relação a economia brasileira.
Otimismo exagerado com os EUA
O que acontece agora, segundo ele relatou à BBC, é que na sua visão existe um otimismo exagerado dos mercados com a economia dos Estados Unidos, o que fez encarecer os preços dos papéis americanos. Já os emergentes, ele acredita, estão subvalorizados além da conta.
Dessa forma, haveria espaço nos próximos cinco a dez anos para ganhar dinheiro com esse descompasso. Ele diz acreditar que é o momento para sacar dinheiro investido nos EUA e colocá-lo em mercados emergentes diversos — o que inclui o Brasil.
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O investidor nasceu na Índia e trabalhou como colunista de economia no começo de sua carreira. Foi estrategista-chefe global do banco de investimentos Morgan Stanley. Hoje, é diretor da empresa de gestão de fortunas Rockefeller International e colunista do jornal Financial Times.
“O Brasil está emergindo desde sempre. Há 200 países no mundo, e só 40 deles são classificados como desenvolvidos. Todos os demais são emergentes”, afirmou Sharma, à BBC.
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Intervencionismo estatal
“O Brasil tem uma abordagem bem estatizante, com muito envolvimento do governo. Eu sigo acreditando no que disse em meu livro de 2012. Nada mudou. O Brasil, nos últimos dez ou doze anos, fez algumas correções de curso no lado fiscal. Mas agora, de novo, as pressões no lado fiscal estão aumentando.”
Se acordo com ele, nada mudou fundamentalmente no Brasil nesses últimos anos, com poucas exceções. “Houve algumas mudanças positivas. O setor agrícola está com um desempenho melhor, com um boom de produtividade. No geral, muito pouco mudou no Brasil na década”, diz.
Questionado sobre as reformas recentes implementadas pelo Brasil, como trabalhista, previdenciária e em outras áreas, ele dispara: “Houve mudanças. E isso impediu o Brasil de ter uma crise fiscal”, afirma.
“Mas o que eu digo que não mudou é o modelo fundamental de crescimento do Brasil”, diz. “Eles fizeram o suficiente para evitar um problema fiscal em momentos críticos, mas novamente o endividamento está crescendo e investidores estrangeiros estão preocupados com a interferência do governo na economia.”
Para ele, esse envolvimento do Estado e a baixa produtividade no Brasil fazem com que não veja mudanças no país ao longo dos anos.
Histórico de acertos
Sharma ficou famoso no começo da década passada por dizer justamente o oposto do que recomenda agora. Entre 2010 e 2012, ele resolveu viajar por diversos países emergentes em busca do próximo milagre econômico.
Na época, existia um enorme otimismo com países como o Brasil — e até previsões de que, coletivamente, os grandes emergentes iriam superar em riqueza os países desenvolvidos.
No entanto, em suas viagens, Sharma concluiu o oposto. Seu livro de 2012, Breakout Nations: In Pursuit of the Next Economic Miracle ("Países Emergentes: Em Busca do Próximo Milagre Econômico", em tradução livre), fez sucesso entre economistas em parte por ser um dos primeiros a questionar a empolgação exagerada com os Brics (Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, além de novos membros).
O Brasil, segundo ele, não resistiria ao fim do ciclo das commodities e voltaria ao padrão de baixo crescimento. A China pararia de crescer em dois dígitos, afetada pelo alto endividamento do país.
Até a Índia, classificada por ele como o país mais promissor entre os Brics, teria apenas 50% de chances de um milagre econômico, considerando os problemas crônicos de corrupção e burocracia.
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EUA viveriam o próximo milagre
A conclusão do investidor foi que o próximo milagre econômico aconteceria não nos emergentes, mas sim nos Estados Unidos — um país que continuava possibilitando que seus empreendedores praticassem a chamada “destruição criativa”.
Segundo esse conceito que remonta a Karl Marx e Joseph Schumpeter, novas empresas e novas tecnologias “disruptivas” surgem e aniquilam o que existia antes.
Esse processo seria a base fundamental do capitalismo que garante o progresso da humanidade. Algumas das suas previsões se provaram corretas.
Hoje, 12 anos depois do primeiro livro, Sharma avalia que a situação se inverteu. Para ele, existe um otimismo exagerado com a economia americana — que estaria dando sinais de falhas no seu capitalismo.
Novos focos de investimento
Por conta disso, e vê em países emergentes do Leste Europeu e da América Latina — inclusive no Brasil — oportunidades um pouco melhores de investimento para o momento.
Ele deixa claro que segue não acreditando no modelo de crescimento brasileiro, que critica por ser dependente demais da intervenção do Estado (“o país está emergindo desde sempre”).
Mas afirma que investiria no Brasil e outros emergentes apenas como forma de diversificar dinheiro que está nos EUA — e não pelos fundamentos desses países.
O problema da economia americana é tema do seu novo livro, lançado este ano — What Went Wrong With Capitalism (“O Que Deu Errado no Capitalismo”, em tradução livre). Sharma argumenta que, nos últimos cem anos, a intervenção do governo na economia cresceu demais.
Em tese, esse crescimento serviria para melhorar a vida de todos. Mas seu argumento é que o excesso de estímulos financeiros, subsídios e injeção de recursos na economia é prejudicial sob diversos aspectos.
Críticas ao modelo americano
Um dos problemas relatados é que incentivos financeiros do governo acabam beneficiando as grandes multinacionais e as elites — porque maior liquidez no mercado provoca aumento de preço de ativos e imóveis, que estão justamente na mão dos mais ricos.
Outro problema é que estímulos criam inflação e aumentam os juros — e os efeitos econômicos disso são, novamente, o aumento da desigualdade.
Mas o principal defeito dos estímulos econômicos do governo americano é que eles prejudicam a inovação e a destruição criativa — que são as bases do capitalismo.
Segundo ele, os mercados hoje estão viciados em estímulo financeiro — um pouco como pacientes ficaram viciados em opioides nos EUA por não tolerarem mais dor.
Para o autor, o excesso de estímulos criou “empresas zumbis” — negócios que já deveriam ter quebrado e sido substituídos por ideias inovadoras, mas que sobrevivem graças a auxílios governamentais que só atrasam o capitalismo.
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Maior liberdade aos agentes econômicos
Outro problema do capitalismo atual é a sensação de insatisfação que provoca na maioria das pessoas — e que, para Sharma, explica as tensões políticas que o mundo vive hoje.
Para ele, a solução para os problemas do capitalismo passa por governos e bancos centrais mais cautelosos e menos propensos a conceder estímulos. Ou seja: dando maior liberdade econômica aos agentes privados.
Sharma disse à BBC que, quando escreveu seu livro de 2012, estava bastante pessimista em relação aos países emergentes. E estava mais “bullish” com os EUA.
“Acho que hoje tenho a visão oposta. Os [investimentos nos] EUA estão sendo superestimados por todos”, avalia.
“Ainda assim, a grande incoerência no mundo é que os EUA representam 26% do PIB global. Mas representam mais de 50% da capitalização de mercado global. Nos índices MSCI [índices de ações do mundo todo], os EUA representam 65% da capitalização”, afirma.
Por esses fatores, ele diz que sacaria os investimentos nos Estados Unidos. “Acho que tem algo errado com isso. Eu retiraria meu dinheiro dos EUA e colocaria em mercados emergentes, que eu acho que tiveram desempenho ruim nos últimos dez, doze anos.”
Segundo o investidor, nos emergentes “os retornos podem ser bem melhores nos próximos cinco a dez anos. Isso inclui lugares como Leste Europeu e até mesmo na América Latin, como no México ou na Argentina. Ou até mesmo no Brasil”.
Sharma avalia que alguns desses países estão subestimados pelos investidores. “Então sinto que há oportunidades reais hoje em termos de investimento, que é comparar: o que os mercados veem e o que eu vejo.”
E continua: “Eu vejo mais oportunidades em mercados emergentes hoje do que vejo nos EUA. Há uma década era o oposto”.
“Eu não estou otimista em relação aos fundamentos do Brasil, mas estaria procurando formas de diversificar fora dos EUA hoje em dia. O Brasil não é uma das minhas principais escolhas”, diz.
*Com informações da BBC News
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