Supercomputador de 400 anos vai a leilão e pode alcançar R$ 18 milhões — 7 vezes mais que um Apple-1
Astrolábio era parte de coleção real de marajás, título dado à realeza indiana, mas instrumento foi vendido e agora vai a leilão na Europa

Um objeto raro que atravessou mais de quatro séculos está em exibição e será leiloado na quinta-feira (29) pela Sotheby´s, em Londres. Trata-se de um astrolábio de latão que, de acordo com estudiosos, talvez seja o maior já produzido em toda a história.
Esse supercomputador do passado representava as três dimensões do universo em apenas duas, o que era extremamente avançado para o século XVII. Ele integrava a coleção real do marajá Sawai Man Singh II, o último rei governante de Jaipur, que atualmente pertence ao estado indiano do Rajastão.
Após a morte do marajá em 1970, o objeto foi herdado por sua esposa, que mais tarde o vendeu, e agora irá a leilão na Sotheby's. A casa de leilões afirma que o dispositivo — uma espécie de "supercomputador portátil" — continua tendo uma aparência impecável mesmo após mais de 400 anos.
O instrumento promete atrair grande interesse de museus e colecionadores. A expectativa é de que ele alcance £ 2,5 milhões (o que equivale a quase R$ 18 milhões).
A título de comparação, uma rara unidade do cobiçado Apple-1, primeiro computador comercializado por Steve Jobs e Steve Wozniak, pode alcançar US$ 500 mil em leilões, ou cerca de R$ 2,5 milhões na cotação atual.

Tecnologia avançada
Um astrolábio é uma espécie arcaica e portátil de computador, criado e utilizado por astrônomos antigos para diversos fins. Ele é composto por camadas interligadas de discos metálicos.
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Historiadores costumam comparar o astrolábio com os smartphones modernos. Isso porque ele é capaz de desempenhar múltiplas funções, desde calcular o horário do nascer e do pôr do sol a medir latitudes, altitudes, distâncias e profundidades. Quase um GPS.
O astrolábio também é capaz de mapear o céu e as cidades, motivo pelo qual o instrumento também era usado na elaboração de horóscopos e mapas astrais.
Os primeiros astrolábios foram desenvolvidos na Grécia Antiga, no século II a.C., mas foi somente no século VIII que se espalharam e passaram a ser produzidos por todo o oriente.
Por trás do astrolábio
Esse “supercomputador” em específico foi produzido no início do século XVII em Lahore, no atual Paquistão. A região fazia parte do Império Mogol, que governou parte do subcontinente indiano entre os séculos XVI e XIX.
Na época, a cidade de Lahore era um importante polo de fabricação de astrolábios no mundo mogol, cuja corte demonstrava crescente interesse em astronomia e astrologia.
O objeto foi criado por dois irmãos, Qa'im Muhammad e Muhammad Muqim, alunos da "Escola de Lahore" — um dos centros mais renomados de produção de astrolábios da época — e encomendado por Aqa Afzal, que governava a cidad.
No pedido, o nobre mogol exigiu que o astrolábio tivesse grandes proporções. Por isso, ele chega a ter 30 cm de diâmetro, 46 cm de altura e pesar 8,2 kg, o equivalente a quatro vezes o tamanho de uma peça típica da Índia no século XVII.
Após a queda do Império Mogol, os instrumentos científicos excepcionais eram tratados como bens de prestígio, equivalentes a joias e raridades. Por isso, circulavam entre as elites como herança, trocas, ou aquisições para coleções reais.
Assim, o astrolábio migrou para a coleção real da cidade de Jaipur antes do século XX e passou a ser guardado como patrimônio da corte. Quando Sawai Man Singh II assumiu o governo, ele herdou a peça e permaneceu possuindo-a mesmo após deixar o trono, em 1949, com a independência da Índia.
Em 1970, quando o marajá faleceu, o instrumento foi herdado pela sua esposa Maharani Gayatri Devi. No entanto, ela o vendeu ainda em vida para uma coleção particular após o fim de seus privilégios.
O que o torna único
O astrolábio em questão é muito mais do que uma mera ferramenta. Trata-se de um instrumento de ponta, complexo e relevante tanto científica quanto cultural e artisticamente.
Segundo a Sotheby’s, a peça contém a marcação da latitude e da altitude de 94 diferentes cidades, além de 38 ponteiros de estrelas e divisões de grau extremamente finas. Esses detalhes demonstram uma precisão técnica e um conhecimento geográfico muito avançados para a época.
Os nomes das estrelas aparecem inscritos em persa e em sânscrito — uma língua ancestral indiana —, o que indica que o objeto nasceu do encontro entre as culturas islâmica, persa e indiana. Isso o faz tornar-se um símbolo da troca de conhecimento entre civilizações.
Além disso, o astrolábio apresenta um acabamento refinado e uma estética elaborada, que o tornam belo e não apenas funcional. Esse cuidado com a aparência diferencia-o de astrolábios anteriores, que muitas vezes se limitavam ao uso prático, sem grande preocupação artística.
Esse conjunto de características evidencia que a corte mogol valorizava a ciência em consonância com a convivência cultural e com uma estética sofisticada, e justifica o porquê de a raridade ser leiloada por um preço tão alto.
*Sob supervisão de Ricardo Gozzi.
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