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Ibovespa já caiu mais de 25% no ano, tendo despencado mais de 40% desde a máxima atingida em janeiro; entenda o motivos de as bolsas no Brasil e no mundo estarem caindo tanto
Nos últimos dias, a bolsa de valores tem ganho destaque nas manchetes de grandes jornais e telejornais e virado assunto nas mesas de bar, mas não por um bom motivo. Quedas expressivas nos preços das ações, no Brasil e no exterior, têm derrubado os índices ao redor do mundo e, só nesta semana, paralisaram quatro vezes as negociações na bolsa brasileira, o chamado circuit breaker. Mas, afinal, por que a bolsa está caindo?
Desde o início do ano e até 30 de março, o Ibovespa, principal índice da bolsa brasileira, já despencou 35,46% para 74.639.38 pontos - queda de 28,35% só neste mês -, o que levou o mercado de ações brasileiro a adentrar, tecnicamente, em um bear market, que é como o pessoal das finanças chama os mercados de baixa.
Mas antes de o índice começar a rolar ladeira abaixo - o que aconteceu logo depois do Carnaval - a expectativa era de um ano brilhante para a bolsa brasileira. Tanto que o investimento em ações era uma das nossas maiores apostas para 2020.
As perspectivas eram otimistas, mesmo diante da desaceleração econômica pela qual o mundo deveria passar, uma vez que economias desenvolvidas estão num estágio diferente do Brasil no seu ciclo econômico.
Depois de um 2019 pujante, em que o Ibovespa acumulou alta de 31,58% e o S&P 500, principal índice de ações americano, subiu 28,88%, as bolsas mundiais, incluindo a nossa B3, entraram num verdadeiro inferno astral.
A bolsa brasileira, especificamente, vivia um bull market (mercado de alta) desde 2016. Do início daquele ano até a máxima histórica de 119.527 pontos atingida em 23 de janeiro deste ano, a alta do principal índice da B3 foi de quase 200%!
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Contudo, uma sucessão de acontecimentos imprevisíveis e difíceis de controlar deteriorou o cenário de tal maneira que o Ibovespa passou a desacelerar e, mais recentemente, engatou queda firme.
Tudo começou no início de janeiro, quando Estados Unidos e Irã se estranharam, aumentando o clima de tensão no Oriente Médio, que já é uma das regiões mais tensas do mundo.
Todo mundo no mercado financeiro estava com medo da tal guerra comercial entre Estados Unidos e China, que vinham aumentando as tarifas dos produtos um do outro e jogando um jogo de morde-assopra nas negociações de um acordo comercial.
Acabou que este, que era um dos maiores riscos para o mercado de ações no ano, saiu um pouco do radar depois que os dois países finalmente assinaram a primeira fase de um acordo e pareciam um pouco mais amigáveis um com o outro.
Esse ponto de tensão acabou meio que substituído por um atrito geopolítico: no dia 2 de janeiro, um bombardeio ordenado pelos EUA ao terminal de carga do aeroporto de Bagdá, no Iraque, matou o general Qassem Soleimani, o militar mais graduado do Irã, considerado um herói nacional no país.
O Irã prometeu retaliação, e o temor de uma escalada nas tensões, que poderia resultar em um conflito armado, levou o preço do petróleo lá para cima. Nas redes sociais, teve gente falando até em "terceira guerra mundial" iminente.
Só que a retaliação do Irã acabou sendo um ataque inócuo e sem vítimas a alvos americanos na região, e logo em seguida os governos persa e americano baixaram bastante o tom das suas declarações.
Passada a tensão, o mercado pôde respirar um pouco aliviado, e o Ibovespa teve espaço para atingir a sua máxima nominal no fim de janeiro, aos 119.527 pontos. Mas mal deu tempo de comemorar, pois em breve o tempo voltaria a fechar por conta de outro personagem: um novo vírus.
No fim de janeiro mesmo, uma nova ameaça surgia no horizonte. Uma nova variante do coronavírus - um agente infeccioso que causa fortes sintomas respiratórios - surgiu na China e começou a se espalhar rapidamente pelo distrito de Wuhan.
Até o fim daquele mês, a doença causada pelo "novo" coronavírus já havia contaminado 10 mil pessoas e matado mais de 200, já causando alguma preocupação.
O temor era de que o espalhamento de uma doença altamente infecciosa na China poderia acabar tendo consequências desastrosas para a economia do país e, consequentemente, para a economia mundial. Afinal, pessoas doentes ou com medo de ficarem doentes saem menos de casa, viajam menos, consomem menos e também podem não trabalhar e produzir.
Mas como ainda era um fenômeno restrito à China e sobre o qual ainda não se sabia muito, os efeitos do surto de coronavírus foram mais sentidos na cotação do dólar do que nas bolsas. Os investidores, que já vinham punindo o real por conta do nosso juro historicamente baixo, começaram a correr para a moeda americana em busca de proteção.
Em janeiro, o dólar à vista saltou de R$ 4,02 para R$ 4,28, uma alta de 6,81%, enquanto o Ibovespa perdeu apenas 1,63%.
No mês de fevereiro, a coisa degringolou de vez. O coronavírus passou a se espalhar rapidamente pela China e países vizinhos no pior momento possível para a região: as vésperas do feriado do ano novo lunar, época em que muitos asiáticos viajam e consomem bastante, dado que os festejos duram uma semana. É uma data importante para as economias locais.
Em seguida, o vírus passou a se espalhar para fora da Ásia, e o céu ficou encoberto de vez para as bolsas quando se formaram três novos epicentros da doença: Itália, Irã e Coreia do Sul. Isso aconteceu durante o Carnaval, quando a bolsa brasileira permaneceu fechada. Já as bolsas mundiais despencaram com a notícia do avanço da doença na Europa.
Quando o mercado brasileiro abriu na tarde da Quarta-Feira de Cinzas, como de costume, veio a correção para colocar os preços das nossas ações na mesma página do resto do mundo. No mesmo dia, foi confirmado o primeiro caso de coronavírus no país, justamente em um homem que havia viajado para a Itália.
O Ibovespa caiu 7% só naquele meio dia de negociação, pior pregão desde maio de 2017, quando tivemos o "Joesley Day" - apelido do dia seguinte ao da divulgação da gravação de uma conversa comprometedora entre o empresário Joesley Batista e o então presidente Michel Temer.
Só naquela última semana de fevereiro, o Ibovespa caiu 8,37%, acumulando perda de 8,43% no mês. Os índices da bolsa americana também recuaram no período: -12,3% para o Dow Jones, -11,5% para o S&P 500 e -10,5% para o Nasdaq.
Mas as maiores quedas mesmo ocorreram neste começo de março. Os impactos do avanço do coronavírus na economia chinesa já começaram a ser sentidos, como mostram os indicadores do país.
Diversas companhias multinacionais vêm declarando que não vão conseguir bater suas metas anuais, como é o caso Apple, Microsoft e Starbucks. Muitas fábricas suspenderam ou reduziram as suas atividades e varejistas já declaram temor de desabastecimento.
A crise da doença na Itália chegou a um nível tão preocupante que o país inteiro foi colocado em quarentena: toda a população está sendo obrigada a seguir uma série de restrições de movimentação e viagens.
Diante do temor de desaceleração da economia global, o Federal Reserve (Fed), banco central dos Estados Unidos, fez um corte de juros extraordinário, bem antes à reunião marcada para o dia 18, na tentativa de injetar recursos na economia e reanimá-la.
Em que pese que a medida abre a possibilidade de outros bancos centrais no mundo fazerem o mesmo - inclusive o do Brasil - o tiro saiu um pouco pela culatra, pois muita gente de mercado interpretou a medida como algo ainda mais preocupante: se o Fed está cortando juros assim, de repente, será que a situação está pior do que o que estamos vendo? O que o Fed sabe que nós não sabemos?
A cereja do bolo (até agora) veio no último fim de semana, quando a Arábia Saudita resolveu aumentar sua produção de petróleo e ainda dar descontos para os compradores na tentativa de ensinar uma lição à Rússia.
A Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) e seus aliados (caso da Rússia) vinham negociando um corte na produção, devido à queda de demanda que o coronavírus vem provocando. Como a Rússia se recusou a reduzir sua produção, os sauditas resolveram deliberadamente jogar o preço do petróleo para baixo para machucar os russos.
Só na última segunda-feira (9 de março), o petróleo caiu mais de 20% (depois de ter chegado a cair 30%), chegando à faixa dos US$ 30 o barril. As bolsas ao redor do mundo desabaram com o novo conflito geopolítico, uma espécie de Megazord que unia guerra comercial, tensão no Oriente Médio envolvendo o petróleo e desaceleração econômica devido ao surto de coronavírus - um combo de todos os fantasmas que vinham abalando o mercado até então.
Tanto a bolsa americana quanto a brasileira acionaram o circuit breaker naquele dia. O "botão de pânico" das bolsas é acionado sempre que os índices acionários caem demais - no caso do Brasil, o primeiro gatilho é uma queda de 10%. A última vez em que isso tinha acontecido no Brasil havia sido justamente no "Joesley Day".
O Ibovespa terminou o pregão sangrando mais de 12%, maior baixa desde 10 de setembro de 1998, durante a crise da Rússia. Só a Petrobras perdeu mais de R$ 125 bilhões em valor de mercado em um dia, impactada pela queda nos preços do petróleo. Ao fim da sessão, o Ibovespa marcava 86.067,20 pontos, menor marca desde 27 de dezembro de 2018. Basicamente, o pregão de 9 de março terminou de apagar todo o ganho de 2019.
Apesar de uma breve recuperação das bolsas e do petróleo na terça-feira, dia 10, nesta quarta-feira os preços tornaram a desabar. Afinal, nada mudou, a não ser o status do coronavírus. Os sauditas e os russos continuam se estranhando, mas o surto da doença foi, agora, elevado à categoria de "pandemia mundial" pela Organização Mundial de Saúde (OMS).
A bolsa brasileira acionou novamente o circuit breaker - o segundo da semana - e fechou em queda de 7,64%, aos 85.171 pontos. Trata-se de uma queda de mais de 40% desde a máxima histórica atingida em 23 de janeiro.
Na sessão seguinte, no dia 12, o Ibovespa acionou o botão do pânico por duas vezes e fechou em um tombo de 14,78% — no pior momento, o índice chegou a perder mais de 19%. O mercado acionário reagia principalmente aos desdobramentos do novo coronavírus na economia, com o bloqueio de viagens entre Europa e Estados Unidos por 30 dias.
A semana de queda histórica na bolsa brasileira fechou com alívio numa sexta-feira 13: o índice acionário saltou 13,9% reagindo aos investidores que buscavam "pechinchas", além de anúncios de estímulo por parte de governos e bancos centrais que deram alívio às preocupações.
As maiores quedas da bolsa no ano, entre as ações do Ibovespa, ficaram por conta dos papéis de empresas de companhias aéreas e da agência de viagens CVC, fortemente prejudicadas pela alta do dólar e pela redução do fluxo de pessoas em viagens por conta do coronavírus; da Petrobras, prejudicada pela baixa nos preços do petróleo; e da CSN, impactada pela perspectiva de desaceleração chinesa.
Os papéis da CVC já passavam por problemas, e foram, recentemente, impactados também pelo anúncio de possíveis erros nos últimos balanços.
A ação que mais se desvalorizou no ano, no entanto, foi a da resseguradora IRB, mas isso não tem muito a ver com os recentes acontecimentos no mundo. A empresa teve os números questionados pela gestora carioca Squadra e ainda se meteu em um vexame internacional envolvendo o nome do megainvestidor Warren Buffett.

Os maiores riscos vistos para a bolsa no ano - guerra comercial entre EUA e China, eleições americanas e dificuldade na aprovação das reformas no Brasil - ficaram em segundo plano com todos esses acontecimentos sanitários e geopolíticos.
A queda abrupta do petróleo, no entanto, é um elemento novo que trouxe uma mudança mais forte de cenário, podendo ter consequências desastrosas no mercado de crédito. Nossos colunistas Felipe Miranda e Matheus Spiess já falaram um pouco sobre o assunto e deram algumas orientações para o investidor aqui e aqui.
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