Sem colete à prova de balas, Ibovespa cai mais de 2% e dólar vai às máximas do dia; bolsa sangra com Irã-EUA e fogo amigo do IPCA
Bolsas ao redor do mundo sentiram os efeitos do novo capítulo do conflito no Oriente Médio, enquanto o barril do Brent voltou a ser cotado aos US$ 100

O investidor brasileiro esteve sob fogo cruzado nesta quinta-feira (12). De um lado, os canhões da guerra entre EUA e Irã derrubaram as bolsas globais; do outro, o fogo amigo de um índice nacional de preços ao consumidor amplo (IPCA) acima do esperado derrubou as defesas do Ibovespa.
Enquanto o principal índice da bolsa brasileira renovou uma série de mínimas e buscou abrigo abaixo dos 180 mil pontos, o dólar avançou no mercado à vista como um tanque sobre o real, subindo 1,61% e deixando claro: em dia de combate, quem manda é a moeda norte-americana.
Para completar o cenário, os futuros do petróleo dispararam, com o Brent — referência para o mercado internacional e para a Petrobras (PETR4) — voltando para a casa dos US$ 100 o barril.
No fechamento, o Ibovespa recuou 2,55%, aos 179.284,49 pontos, enquanto o dólar à vista avançou 1,61%, cotado a R$ 5,2423.
Em Wall Street, o Dow Jones caiu 1,56%, ou 740 pontos, enquanto o S&P 500 teve queda de 1,52% e o Nasdaq, de –1,78%. As principais bolsas na Europa também recuaram assim como os mercado na Ásia.
Já o Brent teve alta de 9,21%, cotado a US$ 100,46 o barril, enquanto o WTI — referência para o mercado norte-americano — avançava 9,74%, cotado a US$ 95,73 o barril.
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IPCA: o fogo amigo do Ibovespa
Enquanto os canhões da guerra entre Irã e EUA derrubaram as bolsas internacionais, o Ibovespa foi alvo de fogo amigo: o IPCA subiu 0,70% em fevereiro, perto do teto das projeções (0,72%), após 0,33% em janeiro.
O dado surge quase uma semana antes da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) e coloca, de novo, em xeque o calibre do corte da Selic neste encontro. Na curva futura, a expectativa é de redução de 0,25 ponto porcentual (pp), com os juros indo a 14,75% ao ano.
“O resultado veio em linha com o observado no IPCA-15, com uma inflação pressionada pela sazonalidade de alta do período. E se compensarmos pela sazonalidade vemos a continuidade do processo de desinflação”, diz André Valério, economista sênior do Inter.
Ele manteve a aposta em um corte de 0,50 pp da Selic na próxima quarta-feira.
“Para os próximos meses, os potenciais impactos do conflito no Irã são causa de preocupação. Podemos ser afetados pela alta nos preços do petróleo e dos fertilizantes, além de possíveis efeitos de segunda ordem devido ao impacto sobre a cadeia global de suprimento por conta do fechamento do estreito de Ormuz”, afirma.
Valério lembra, no entanto, que o câmbio bem-comportado pode suavizar efeitos negativos da alta do petróleo.
O Itaú BBA, por sua vez, seguiu com a previsão de alta de 3,8% para o IPCA fechado em 2026, mas não descarta um número maior devido ao encarecimento do petróleo devido à guerra no Oriente Médio.
"Mantemos a projeção de inflação em 3,8%, com balanço de riscos altista diante do choque nos preços do petróleo", diz a economista Luciana Rabelo, em relatório.
O economista Leonardo Costa, do ASA, acredita que o banco central deve manter uma postura mais cautelosa e dependente de dados na decisão de política monetária da semana que vem.
Segundo ele, o BC deve aguardar novos dados para avaliar se o resultado do IPCA de fevereiro reflete um ruído estatístico — diante da surpresa para cima em itens mais voláteis e de comportamento incomum — ou um sinal mais persistente da inflação subjacente.
Atualmente, o ASA projeta que inflação em 3,6% ao final do ano, mas tudo indica que a casa deve rever para cima a projeção do IPCA em 2026.
EUA x Irã: petróleo, dólar e bolsa — o que muda para o investidor no Brasil
Ibovespa na linha de tiro da guerra entre Irã e EUA
Se o IPCA foi o fogo amigo do Ibovespa nesta quinta-feira (12), a escalada da guerra entre Irã e EUA colocou o principal índice da bolsa brasileira na linha de tiro, junto com outros mercados globais.
A fonte de tensão do dia foi a declaração do novo líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, nomeado em 9 de março depois a morte do pai, Ali Khamenei, nos ataques de 28 de fevereiro.
Segundo ele, o Estreito de Ormuz deve permanecer fechado como “ferramenta para pressionar o inimigo”.
Na madrugada, três embarcações estrangeiras foram atingidas no Golfo Pérsico, segundo a imprensa internacional. O ataque acontece após três navios diferentes, incluindo um no estreito, terem sido atingidos na quarta-feira (11).
Mais cedo, o secretário norte-americano de Energia, Chris Wright, disse à CNBC que a Marinha dos EUA não está pronta para escoltar petroleiros por Ormuz, embora tenha dito que conseguirá fazê-lo até o final do mês. O tráfego por lá praticamente parou à medida que o conflito no Oriente Médio se intensifica.
O resultado é visto nos mercados. Apenas cinco ações do Ibovespa operaram no azul no dia:
- SLC Agrícola (SLCE3): +4,04%
- MBRF (MBRF3): +2,79%
- Petrobras (PETR3): +1,68%
- Braskem (BRKM5): +1,33%
- Petrobras (PETR4): +0,33%
Entre as maiores baixas do índice, estão:
- Yduqs (YDUQ3): -14,42%
- CSN (CSNA3): -14,17%
- Embraer (EMBJ3): -11,28%
Dólar nas trincheiras, já o ouro...
Enquanto as bolsas ao redor do mundo afundaram, o dólar seguiu se fortalecendo em meio ao aumento da aversão ao risco. Por aqui, a moeda chegou a R$ 5,2493 na máxima do dia.
Já o desempenho do ouro, que costuma servir de abrigo para os investidores em momentos de incerteza, não acompanhou a disparada do dólar nos mercados internacionais.
O metal precioso com entrega para abril fechou em queda de 1,04%, cotado a US$ 5.179,10 por onça-troy na Comex (Nymex). A prata para maio acompanhou o movimento e recuou 0,49%, a US$ 85,112.
De acordo com analistas, o dólar mais forte e as apostas de corte de juros reduzidas compensaram a demanda por barras de ouro em meio à escalada da guerra entre EUA e Irã.
"Esses eventos são, naturalmente, o tipo de coisa que faria os preços do ouro subirem significativamente como demanda por porto seguro, mas acho que, dessa vez, o ouro esteja sendo um pouco limitado por causa das liquidações geradas por chamadas de margem sobre futuros de ações", disse Nitesh Shah, estrategista de commodities da WisdomTree, à CNBC.
Ele acrescenta que o dólar e os yields (rendimentos) também são ventos contrários para o ouro no momento.
Enquanto o dólar no exterior ampliou os ganhos para se manter próximos dos níveis mais fortes deste ano, os yields dos títulos de 10 anos do Tesouro dos EUA, uma referência para o mercado global, subiram para uma alta de cinco semanas.
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