Parabéns, Warren Buffett! Por que o “Oráculo de Omaha” segue como referência no mercado financeiro aos 92 anos
Aos 11 anos, Buffett fez seu primeiro investimento na bolsa de valores; CEO da Berkshire Hathaway, construiu riqueza com alocações a longo prazo e baixo risco

Comemorar quase um século de vida não é para muitos. O que dizer, então, de Warren Buffett, que completa 92 anos nesta terça-feira não só na ativa como na elite dos investidores globais?
O megainvestidor — conhecido como "Oráculo de Omaha" graças aos retornos impressionantes de seu portfólio ao longo de décadas — é um dos empreendedores mais bem sucedidos da história e se tornou uma das maiores referências do mercado financeiro.
As falas de Buffett são ouvidas com atenção e colocadas em prática, quase como regra, por investidores do mundo inteiro. Entre as principais lições está a estratégia de "buy and hold" (compre e segure [a ação de uma companhia], em tradução livre).
O bilionário já teve a sua vida documentada em vários livros e filmes que tentam descrever a sua genialidade no mundo dos negócios. Warren Buffett é hoje considerado o sétimo homem mais rico do mundo, com uma fortuna de US$ 99,5 bilhões (R$ 503,6 bilhões, no câmbio atual), segundo o ranking em tempo real da Forbes.
Warren Buffett: um investidor nato
Para entender a trajetória bem-sucedida de Warren Buffett é preciso retornar ao cenário econômico global em 91 anos. O bilionário nasceu em 30 de agosto de 1930, em meio a uma das mais profundas crises financeiras do século XX, que ficou conhecida como a “Grande Depressão”.
Para contextualizar: naquele período, o mundo acabava de sair da Primeira Guerra Mundial e se afundava em crise econômica. Mas os EUA, até então, pareciam intactos: com a política do “american way of life”, os americanos viveram uma época de “boom” econômico e entrada de milhares de pequenos investidores na Bolsa de Valores de Nova York.
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O ocidente, ao contrário do restante do planeta, vivia a prosperidade financeira e a superprodução, já que os EUA passaram a exportar produtos em larga escala. Mas a época de vacas gordas durou pouco: a “bolha” estourou e os americanos adentraram na “Grande Depressão”.
Pois Buffett nasceu nesse tempo de escassez no mercado financeiro, em Omaha, no estado de Nebraska.
Seu pai, Howard Buffett, que era um corretor de ações, perdeu o emprego durante a crise e decidiu abrir seu próprio negócio: uma corretora de investimentos.
Warren Buffett, então, teve a sorte de “ingressar” no universo das finanças ainda pequeno. Aos sete anos, pode-se dizer que ocorreu seu primeiro contato voluntário com o mundo dos negócios, por meio de livros.
Na ocasião, Buffett foi até a biblioteca da sua cidade e alugou o livro “100 formas de ganhar US$ 1.000”, de Frances Mianker. Aquele foi o pontapé para a sua definitiva entrada no mercado financeiro.
Primeiros passos
O primeiro investimento de Warren Buffett aconteceu ainda na infância. Aos 11 anos, ele comprou três ações de uma empresa petrolífera, a Cities Service, cada uma por US$ 38.
Ele vendeu os papéis, depois de algumas perdas por US$ 40 cada. No ponto de vista do mundo dos investimentos, os ganhos foram poucos; para Buffett, não valeu a pena. Isso porque, se ele tivesse um pouco mais de paciência, teria vendido cada ação por US$ 200.
Esse foi um dos primeiros aprendizados de quem se tornaria um bilionário: ele passou a se fundamentar em investimentos de longo prazo. Também foi nessa época que Buffett traçou uma das metas mais arriscadas da sua vida: se tornar um milionário aos 35 anos.
Enquanto a riqueza não chegava, aquele menino se virava como podia, sempre com o objetivo de ver o seu dinheiro “fazer dinheiro”. Buffett recebia cerca de cinco centavos de dólares por semana, o que para ele nunca foi suficiente.
O pequeno empreendedor se tornou entregador de jornais de porta em porta e aproveitava para vender Coca-Cola, assinatura de revistas, bolas de golfe e tudo o que podia carregar.
Em pouco tempo, comprou um Rolls Royce velho e o reformou. Para cada passeio, cobrava cerca de US$ 35. O que lhe rendeu uma boa grana, para aos 13 anos fazer a sua primeira declaração de renda. Entre os bens, uma bicicleta e um relógio.
Próximo aos seus 16 anos, Buffett ainda vendia jornais, que lhe rendiam cerca de US$ 175 por semana. Em sua primeira sociedade, com um amigo, comprou algumas máquinas de pinball e as distribuiu em salões de beleza em Omaha.
O negócio deu tão certo que, no final daquele mesmo ano, em 1946, ele vendeu sua parte por US$ 1.200. Por fim, Warren Buffett já tinha acumulado US$ 9.800 no final da adolescência.
Aprimorando os investimentos
O bilionário, mesmo com os conhecimentos adquiridos pelos livros e pela experiência, se aperfeiçoou na academia.
Pressionado pelo pai, Buffett deixou os seus empreendimentos, de forma temporária, e se dedicou aos estudos. Ele se formou em administração pela Universidade de Nebraska.
Em 1950, Buffett ingressou em uma turma de mestrado na Columbia Business School, da Universidade de Columbia, após ser rejeitado por Harvard.
Essa rejeição, no entanto, permitiu a Buffett conhecer um dos seus principais “gurus”, o professor de análise fundamentalista de investimentos Benjamin Graham. Único aluno a tirar nota máxima da turma, aquele jovem empreendedor foi contratado para trabalhar na gestora de investimentos de Graham.
Seis anos depois de ingressar em Columbia, com o curso concluído e investindo sempre, Warren Buffett decidiu retornar à cidade natal, Omaha, em 1956. Por lá, criou o seu próprio fundo, a Buffett Partnership, com suas “economias” de US$ 140 mil.
Em três anos, o fundo já dava um retorno de 250% aos cotistas, muito além dos 75% do índice Dow Jones. Em uma década, o retorno era de 1.156%. Com os ganhos, o fundo rapidamente alcançou a casa dos milhões de dólares em valor de mercado.
Durante esse período, Buffett conheceu Charlie Munger, um de seus grandes amigos e “gurus” de investimentos — e que viria a se tornar seu sócio na Berkshire Hathaway.
Berkshire Hathaway
Ainda gerindo o seu fundo de investimentos, Warren Buffett encontrou a oportunidade perfeita de ingressar no mercado têxtil por meio de ações. A escolhida foi a Berkshire Hathaway; na ocasião, cada ação custou US$ 7,60.
Quando comprou os papéis, mal Buffett sabia que, em três anos, assumiria o controle da empresa — que, posteriormente, foi convertida numa holding de investimentos. Quando se tornou executivo da companhia, ele encerrou o fundo Buffett Partnership
A partir de 1969, a Berkshire Hathaway passou a investir fortemente no ramo de seguros, permanecendo com esse foco por quatro décadas. Mas, a partir dos anos 2000, o conglomerado tem apostado em gigantes industriais e da tecnologia.
Por exemplo, o conglomerado tem uma posição relevante em Apple; grandes petroleiras, como Chevron e Occidental, também estão entre as preferidas de Buffett — que até comprou um “pedacinho” do Nubank.
Com valor de mercado superior a US$ 500 bilhões, a empresa é a sexta mais valiosa listada no índice S&P 500. E, em breve, Warren Buffett, que já tem 91 anos, deve deixar a cadeira de CEO.
Greg Abel, executivo da Berkshire, deve ser o sucessor de Buffett na presidência; seu filho, Howard Buffett — que tem o mesmo nome do avô —, vai assumir o conselho de administração.
Jeito Buffett de investir
Sob o lema de “ficar rico devagar”, a estratégia de Warren Buffett é investir a longo prazo.
Com os fundamentos de value investing, aprendidos na época de Columbia com o seu “guru” Benjamin Graham, ele mantém uma carteira de investimentos diversificada.
Além disso, o bilionário prefere concentrar em seu portfólio fatias relevantes de grandes companhias, de modo que possa participar da tomada de decisão. Se ele entende o negócio — e seu preço é considerado atrativo —, existe uma boa chance dele analisar mais a fundo a possibilidade de uma compra.
“Invista em negócios que qualquer idiota pode comandar porque, um dia, algum idiota pode fazer isso”, disse Buffett certa vez, ilustrando um dos pilares de sua filosofia de investimento.
Crítico de práticas como day trade e rotação excessiva dos portfólios de investimento, a estratégia “buy and hold” — “compre e segure”, em português — é a que melhor define o “jeito Buffett de investir”. Vale ressaltar que o bilionário tem uma “aversão extrema a qualquer tipo de perda permanente.
Durante o seu último encontro anual da Berkshire Hathaway, em abril, Buffett reforçou sua aversão ao risco. “A ideia de perder o dinheiro das pessoas que confiam em nós… nós [Charlie Munger e eu] morreríamos psicologicamente.”
Agora, com a queda de ações de inúmeras empresas listadas nas bolsas americanas, Buffett tem ido às compras, utilizando-se da famosa estratégia de “compra na baixa e venda na alta”.
Jantar anual e carta aos acionistas
O tradicional jantar anual com Warren Buffett começou no ano 2000. Com o objetivo de levantar recursos para a Fundação Glide, uma instituição de caridade em São Francisco, o bilionário se encontra com outras oito pessoas, sendo um o vencedor do leilão para o evento.
Contudo, não há mais como jantar com o bilionário. O último encontro já foi leiloado por quase US$ 19 milhões (recordando o início desse especial) a um anônimo. Ele terá direito de levar mais sete pessoas para passar um tempo com o “Oráculo de Ohama”.
Esse é o recorde em toda a história, superando o leilão de 2019, em que o empresário de criptomoedas Justin Sun arrematou o convite por US$ 4,57 milhões.
Além disso, Warren Buffett realiza anualmente, em maio, a conferência da Berkshire Hathaway com os acionistas. No evento, o CEO comenta sobre o mercado e responde questionamentos da plateia.
Os investidores do mundo inteiro ainda contam com a carta anual aos acionistas da Berkshire, lançada sempre em fevereiro, em que Buffett escreve sobre suas últimas alocações, erros, acertos, visões sobre o mercado e tendências, além de informações sobre a sua empresa.
Essa carta é considerada um dos documentos mais importantes do mercado — suas manifestações já foram compiladas e se transformaram em livros.
Warren Buffett e a filantropia
Em 2010, o megainvestidor criou juntamente com Bill e Melinda Gates, então esposa do dono da Microsoft, o projeto “The Giving Pledge”. A ideia era estimular bilionários a destinarem pelo menos a metade de sua fortuna à filantropia.
Entusiasta nesse ramo, o bilionário anunciou quatro anos antes do projeto com os Gates que iria doar todas as ações que possui da Berkshire Hathaway para instituições de caridade.
Buffett, então, tornou-se curador da Fundação Bill & Gates e realizou doações bilionárias. A última foi feita em junho de 2021, quando renunciou ao cargo na instituição, no valor de US$ 32,7 bilhões.
Além disso, outros US$ 4,1 bilhões em ações foram distribuídas entre cinco casas filantrópicas: Fundação Susan Thompson Buffett, Fundação Sherwood, Fundação Howard G. Buffett, Fundação NoVo e Fundação Bill & Melinda Gates.
Na carta de renúncia ao cargo de curador da fundação do dono da Microsoft, Buffett afirmou que a sociedade tinha um destino para o seu dinheiro e ele, “não”. Confira a seguir a nota do bilionário emitida na época:
“Ao longo de muitas décadas, acumulei uma soma quase incompreensível [de dinheiro] simplesmente fazendo o que amo fazer. Não fiz nenhum sacrifício, tampouco a minha família.
Juros compostos, [investimentos de] longo prazo, associados maravilhosos e nosso incrível país [Estados Unidos] simplesmente fizeram a sua mágica. A sociedade tem um destino para o meu dinheiro; eu, não.”
Por fim, um dos grandes ensinamentos e legados de Warren Buffett é a visão a longo prazo para a construção da riqueza.
Frases que viraram lições (de vida)
Buffett, em poucas palavras, dá dicas e pistas sobre os segredos de seu sucesso, que, em grande maioria, viram lições de vida e "regras" no mundo dos investimentos. Confira a seguir alguns frases conhecidas do bilionário:
- Você deve investir num negócio que até um idiota poderia dirigir, por que algum dia um idiota dirigirá;
- A diversificação é uma proteção contra a ignorância, faz pouquíssimo sentido quem sabe o que está fazendo;
- Pessoas racionais não arriscam o que têm e precisam pelo o que não têm e não precisam;
- Compre uma empresa, não uma ação;
- Regra número 1, nunca perca dinheiro. Regra número 2: não esqueça a regra número 1.
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