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Eduardo Campos
Eduardo Campos
Jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo e Master In Business Economics (Ceabe) pela FGV. Cobre mercado financeiro desde 2003, com passagens pelo InvestNews/Gazeta Mercantil e Valor Econômico cobrindo mercados de juros, câmbio e bolsa de valores. Há 6 anos em Brasília, cobre Banco Central e Ministério da Fazenda.
Mercado

Vale tem queda contratada para segunda-feira, mas parece existir um piso

Recibo negociado em Nova York caiu mais de 8% na sexta-feira, mas avaliações iniciais sugerem que o desastre de Brumadinho foi menor que o de Mariana em 2015

26 de janeiro de 2019
5:16 - atualizado às 0:44
Barragem da Vale desaba em Brumadinho (MG) - Imagem: Corpo de Bombeiros/Divulgação

Os cisnes negros estão sempre por aí. Foi isso que um amigo escreveu em um grupo de mensagem logo depois que saiu a notícia sobre o rompimento da barragem da mineradora Vale em Brumadinho, região metropolitana de Belo Horizonte.

Naquele começo de tarde o recibo de ação da companhia, negociado em Nova York, iniciava uma violenta reversão, devolvendo uma alta de quase 4% para chegar a cair 13,5%, antes de fechar com queda de 8%, na linha dos US$ 13,6.

No mesmo grupo, outro colega retrucou “isso não é cisne negro” (um evento raro, imponderável e devastador no mercado), pois uma vez seria acidente, referindo-se ao desastre de Mariana de novembro de 2015, mas “dois acidentes em curto espaço de tempo é erro”.

Enquanto não sabemos o que causou o desastre, quem são os culpados e eclipsando o desastre humano, vamos tentar ver como esse evento pode mexer com o seu bolso na segunda-feira, quando a B3 voltará do feriado.

O que é certo é que as ações da Vale vão passar por ajuste de baixa, mas parece existir um piso, já que as avaliações iniciais sugerem que o desastre foi de menores proporções que o de 2015.

O evento gera uma fortuita alegria para o vendido em Vale e garante um “calor” para o comprado, que terá de correr para cobrir posições nos primeiros instantes da segunda-feira.  Como tem peso relevante no Ibovespa, o comportamento do papel também deve influir no desempenho do principal indicador acionário brasileiro, que fechou a quinta-feira em nova máxima acima dos 97 mil pontos.

Outros eventos, no entanto, podem garantir um pregão de alta, como o anúncio feito pelo presidente americano, Donald Trump, de que chegou a um acordo com democratas e republicanos no Congresso para encerrar a paralisação parcial da máquina pública federal. Os principais índices em Wall Street terminaram com altas de 0,75% (Dow Jones), 1,29% (Nasdaq) e 0,85% (S&P 500).

A forte queda das ações da mineradora também afetou o desempenho do ETF de papéis brasileiros EWZ, que chegou a subir mais de 2%, antes de fechar com leve alta de 0,39%, depois de um breve passeio pelo território negativo. As ações da Vale vinham em firme movimento de alta acompanhando a cotação dos metais negociados no mercado internacional.

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O que dizem os analistas?

"Queda da barragem é trágica e um revés, mas não tem a escala de Samarco", disse relatório do Bank of America Merrill Lynch divulgado ontem.

Os analistas da casa destacam que a segunda tragédia do tipo em tão pouco tempo pode desencadear maior supervisão do governo e mais penalidades financeiras. Reiteram, entretanto, a indicação de compra para o papel da mineradora.

O volume de rejeitos estimado é de 12,7 milhões de metros cúbicos, contra os 32,6 milhões em 2015. A primeira estimativa apresentada, de apenas 1 milhão de metros cúbicos, foi posteriormente corrigida.

Ainda na avaliação do BofA, é cedo ainda para especular sobre o impacto financeiro do evento, mas geralmente tais incidentes resultam em custos de limpeza, indenizações e penalidades financeiras. A Vale poderia compensar Brumadinho com a capacidade ociosa existente, mas a equipe de analistas também levanta a possibilidade de a tragédia atrasar a retomada de Samarco, que era esperada para o fim deste ano. E que haja outros entraves públicos para operar plenamente.

Os analistas do Itaú BBA observaram que o tombo das ADRs da mineradora nos EUA chegou a superar 10%, exatamente o mesmo declínio visto no dia seguinte ao rompimento da barragem da Samarco.

"Acreditamos que o acidente pode continuar a pesar no desempenho do preço das ações no curto prazo, considerando-se que pode atrasar as concessões de operação e licenças ambientais no Brasil. Também pode atrasar o reinício das operações da Samarco, se as autoridades decidirem aumentar os padrões de segurança para os resíduos de mineração."

Teste de impacto

O desastre ambiental ocorre em um momento em que a Vale está finalizando uma operação de captação de crédito de US$ 3 bilhões. Apesar de o acidente não cair bem para imagem da mineradora, os analistas esperam que ela consiga financiadores.

"A Vale é muito forte financeiramente. Esperamos que vários bancos ofereçam para a empresa crédito em condições favoráveis", destaca o analista americano John Tumazos, da John Tumazos Very Independent Research, ao Broadcast.

Reação da empresa

O presidente da Vale, Fabio Schvartsman, estava a caminho de Brumadinho (MG), na tarde de ontem. Em uma rápida entrevista à "GloboNews", ele lamentou o acidente e disse que as causas e os danos ainda são desconhecidos.

Em seguida, o executivo reafirmou o compromisso da empresa em um pronunciamento divulgado pela Vale no seu canal do YouTube. Veja abaixo:

Resposta governamental

A primeira reação do governo veio pelo "Twitter",  onde o presidente Jair Bolsonaro lamentou o ocorrido e disse que determinou o deslocamento dos ministros do Desenvolvimento Regional, Gustavo Canuto, Minas e Energia, almirante Bento Albuquerque, e Meio Ambiente, Ricardo Salles, para a região.

Mais tarde, por meio de seu porta-voz, o presidente lamentou eventuais mortes causadas pelo acidente, mesmo sem nenhuma confirmação do número de vítimas.

"O presidente da República lamenta eventuais perdas de vidas ocasionadas pelo rompimento da barragem na região de Brumadinho, em Minas Gerais", declarou o porta-voz da Presidência, Otávio Rêgo Barros, lendo uma nota de Bolsonaro.

Em reunião realizada mais cedo, participantes consideraram como "gravíssima" a situação em Minas Gerais, com danos considerados "ainda incalculáveis".

Em entrevista à rede "Record" e depois em pronunciamento, por volta das 18 horas, Bolsonaro voltou a lamentar o ocorrido e disse que militares estavam se dirigindo ao local para ajudar "a salvar vidas". O presidente confirmou que vai visitar Brumadinho na manhã deste sábado e que foram montados dois "gabinetes de crise" para monitorar e sugerir medidas para lidar com a situação.

Zema

O governador de Minas, Romeu Zema, também foi ao "Twitter" se pronunciar.

"Estava em deslocamento no interior do Estado, onde tinha compromisso, mas já estou a caminho de Belo Horizonte, local onde o governo de Minas instalou o gabinete de gestão de crise, assim que teve a notícia do ocorrido em Brumadinho", afirmou.

 

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