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Fundos de crédito começam a registrar resgates pelos investidores, mas volume ainda é pequeno — o risco é aumentar nos próximos meses
Os títulos de renda fixa vivem um momento turbulento. Nos últimos meses, casos envolvendo o calote de pagamentos bombardearam o noticiário — Banco Master, will bank, Ambipar e, mais recentemente, Raízen.
Cada um teve a sua particularidade. No entanto, todos envolveram o não pagamento de títulos de dívida dessas empresas.
Para os gestores de fundos de crédito, focados sobretudo em debêntures (títulos de dívida de empresas), esse aumento de eventos de inadimplência é um dos fatores que pode levar os investidores a desconfiarem dos ativos de crédito privado.
Não porque a indústria vá mal ou haja uma contaminação do risco para outras empresas, mas pela deterioração da confiança.
É isso o que mostra o relatório Perspectiva dos Gestores, elaborado pela Empiricus em março. “Quanto maior o número de recuperações judiciais, extrajudiciais ou mesmo defaults, maior o risco de contágio generalizado entre os emissores”, diz o documento.
Os 17 maiores gestores de crédito do país, que administram juntos R$ 2,34 trilhões, responderam no levantamento quais são os fatores mais relevantes para dar início a um ciclo de resgates intenso nos fundos.
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Performance negativa e eventos de crédito receberam o maior percentual de respostas, 86% e 73%, respectivamente. Entretanto, uma coisa está bastante atrelada à outra.
Essa performance negativa mencionada pelos gestores acontece por causa da volatilidade da precificação dos títulos de renda fixa no mercado secundário — onde os investidores compram e vendem títulos entre si.
Quando há muita demanda pelos papéis, como o registrado nos últimos dois anos (2024 e 2025), os preços dos títulos de renda fixa aumentam e os prêmios pagos em relação aos títulos públicos (spreads) caem.
O inverso também é verdadeiro — e está acontecendo agora.
A saída dos investidores, mesmo que sutil, está mexendo com essas precificações e causando volatilidade nas negociações. Isso acontece com as debêntures, CRIs e CRAs, principais ativos que compõe a carteira dos fundos de crédito.
O sobe e desce nos preços e nas taxas dos papéis de renda fixa influencia na performance dos fundos de crédito, o que, por sua vez, afasta os investidores — e assim começa um ciclo que se alimenta.
“O momento atual é delicado para o desempenho dos fundos de crédito”, diz o relatório da Empiricus. “A combinação de alto caixa e os spreads comprimidos das debêntures reduzem significativamente o carrego [rentabilidade diária] deles. Nesse cenário, qualquer estresse pontual, por menor que seja, já tem o potencial de reduzir o retorno em períodos curtos para abaixo do CDI.”
Aqui, vale lembrar que o CDI é um indicador que acompanha os juros e serve de benchmark para investimentos no Brasil. Render abaixo do CDI, para investidores de varejo, pode significar um “mau desempenho”.
Em sua carta mensal, a Sparta afirmou que em momentos como esse fica claro que crédito privado não é uma proxy do CDI. Embora seja renda fixa, a negociação dos ativos tem uma dinâmica própria.
E, ao se deparar com esse risco de retorno "ruim”, o investidor pode não gostar e decidir que é hora de sair.
As quatro respostas seguintes dos gestores envolvem o mesmo tópico: a queda dos juros:
Com juros menores, o carrego (rendimento diário ao manter títulos pós-fixados na carteira) deixa de ser excepcional e o investidor começa a olhar para outras classes de ativos.
“O crédito perde a condição de porto seguro automático”, diz o relatório da Sparta.
Há poucos dias, o primeiro corte na taxa Selic era dado como certo neste mês de março. No entanto, com o início da guerra entre Estados Unidos, Irã e Israel, o desequilíbrio no mercado de petróleo, que pode resultar em aumento da inflação, mudou essa perspectiva.
O corte de 0,50 ponto percentual (p.p.), que era o consenso de mercado, caiu para 0,25 p.p. — e há quem não espera corte nenhum, mas manutenção da Selic em 15% ao ano.
A guerra também mudou as projeções para a Selic ao final do ano. Os 12% projetados pela maior parte do mercado subiu para 13%.
De um lado, parece promissor por sustentar o carrego dos fundos de crédito e possivelmente manter o interesse do investido. No entanto, os juros tão altos, por tanto tempo, estão deteriorando as condições financeiras das empresas.
E os eventos de crédito de grandes empresas dos últimos meses colocaram uma lupa nessa situação.
Um gestor de um grande fundo de crédito, que preferiu não se identificar, afirmou que a redução no apetite por debêntures está bastante nítida diante dos eventos de recuperação judicial e extrajudicial dos últimos meses.
Para ele, piora a situação o fato de os títulos de crédito ainda estarem com os spreads comprimidos e os preços esticados.
“Com tantos casos dando problema, ainda que sejam pontuais, o investidor pode olhar e pensar: ‘vou sair antes de piorar’. Mas se os preços não estivessem tão caros e os prêmios comprimidos, talvez eles ficassem”, diz o gestor.
Ele afirma que as debêntures, CRAs e outros títulos de crédito não estão remunerando o risco. “A situação está bastante incerta. Mesmo que o investidor queira permanecer na renda fixa, dado que o juro não cair tanto, o crédito não é mais a opção óbvia”.
Títulos públicos, CDBs e letras financeiras (LCI e LCA) de grandes bancos podem se tornar a saída.
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