Raízen (RAIZ4) abre plano de reestruturação e oferece três caminhos aos credores — entenda o que está em jogo para você
Ainda não se trata do texto final, mas já detalha o que os investidores podem esperar da renegociação da companhia

A Raízen (RAIZ4) abriu, finalmente, o jogo com os credores. Depois de semanas de negociações em torno da sua recuperação extrajudicial, a empresa divulgou na noite de quarta-feira (27) os termos preliminares do que poderá ser sua reestruturação final.
A empresa tem hoje cerca de R$ 75,3 bilhões em dívidas, dos quais R$ 65,4 bilhões estão dentro do plano de renegociação. Essa cifra inclui praticamente todo o passivo financeiro relevante:
- 36,1% - Bonds (títulos de renda fixa em moeda estrangeira) emitidos no exterior;
- 15,7% - EPPs (pré-pagamentos de exportação);
- 9,7% - CRAs (Certificados de Recebíveis do Agronegócio);
- 8,8% - Debêntures;
- 5,6% - Crédito rural;
- 4,1% - Termos de empréstimos; e
- 2,6% - Derivativos.
De modo geral, a proposta da Raízen vai muito além de termos para refinanciar suas dívidas. A companhia sugere redesenhar completamente sua estrutura financeira.
Para isso, traçou três opções diferentes para os credores — todos com impactos profundos sobre prazo e potencial de retorno. Cada grupo terá incentivos diferentes para escolher entre preservar valor, estender prazo ou simplesmente sair do negócio.
O ponto de partida: resolver o custo da dívida
A necessidade de reestruturação é latente. No primeiro trimestre de 2026, a Raízen registrou uma queima de caixa de R$ 3,3 bilhões, puxada principalmente pelo pagamento de juros das dívidas, que somaram quase R$ 2,9 bilhões.
Com esse nível de custo financeiro, as contas deixaram de fechar, mesmo para uma das maiores empresas de distribuição de combustíveis e produtora de etanol e açúcar do país.
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Por isso, a solução oferecida no documento prevê reduzir dívida (ou pelo menos aliviar o peso dela), alongar prazos de vencimento, trazer capital novo e reorganizar a estrutura operacional da companhia.
Logo de cara, a Raízen indica que terá apoio e financiamento dos acionistas controladores.
A Shell se comprometeu a investir R$ 3,5 bilhões, enquanto a Aguassanta — family office do empresário Rubens Ometto, fundador da Cosan — pode aportar mais R$ 500 milhões.
Esse capital entraria na companhia a R$ 0,25 por ação, o que, na prática, estabelece o novo “preço de referência” do papel RAIZ4. Esse mesmo valor foi usado na proposta de converter parte das dívidas em ações.
Chegaremos lá. Mas aqui, é importante entender que os controladores estão dispostos a apoiar a reestruturação, mesmo com o valuation da companhia significativamente rebaixado.
O plano principal da Raízen
A principal proposta oferecida pela Raízen aos credores combina dois movimentos.
- De um lado, 45% do valor da dívida será convertido em ações da companhia (RAIZ4).
- De outro, os 55% restantes serão transformados em novos títulos de dívida, com vencimentos bem mais longos.
Na prática, isso significa que o credor deixa de ser apenas financiador e passa a ser também acionista.
A conversão acontece a R$ 0,25 por ação, com os credores recebendo ações units — uma combinação de ações ordinárias (ON) e preferenciais (PN), normalmente identificadas pelo número 11 na bolsa.
A empresa também teria um programa de emissões de ADRs, que são recibos de ações brasileiras em bolsas estrangeiras, para contemplar os credores estrangeiros.
É exatamente o mesmo preço pago pela Shell na injeção de capital, o que busca dar tratamento equivalente entre investidores e acionistas de controle.
Mas o efeito é claro: há uma diluição relevante dos acionistas atuais e uma transferência parcial do risco da dívida para o risco da ação.
Alongamento da dívida e taxas
Outro ponto importante é o alongamento no prazo de vencimento da dívida, com juros diferentes e mais flexibilidade para a Raízen cumprir seus compromissos.
A parcela (55%) que continua como dívida será dividida entre duas novas empresas que surgirão após a reestruturação operacional:
- 37,4% pela Raízen Combustíveis, focada na distribuição no Brasil
- 17,6% pela Raízen Energia, que concentrará a produção de açúcar, etanol, bioenergia e ativos na Argentina
Essa separação vai permitir estruturar as novas dívidas com características diferentes.
Os títulos da divisão de combustíveis pagam juros maiores. A proposta sugere juros de CDI + 2,75% ou 8,5% ao ano em dólar, com vencimentos em 2032 e 2034.
Já os da divisão de energia têm custo menor — CDI + 1,25% ou 7% ao ano em dólar — e vencimentos um pouco mais longos, em 2033 e 2035.
A diferença reflete, em parte, o perfil de risco dos negócios e possivelmente benefícios fiscais, já que títulos ligados à área de bioenergia podem manter incentivos tributários relevantes.
- Há ainda um ponto crucial: nos três primeiros anos, a empresa poderá optar por não pagar juros em caixa, capitalizando esse valor na própria dívida, com um acréscimo de 2 pontos percentuais na taxa.
Para a Raízen, isso significa fôlego no fluxo de caixa. Para o credor, significa aceitar receber depois — e assumir mais risco.
Garantias reais
A proposta prevê que a nova dívida tenha garantias reais.
No caso das emissões pela Raízen Energia, haverá penhor de ações de subsidiárias. Já na divisão de combustíveis, entram ativos como planta de lubrificantes e tanques de armazenamento.
Os credores terão prioridade sobre esses ativos, além de cláusulas que impedem a empresa de oferecer as mesmas garantias a outros financiadores.
A Raízen também quer deixar em aberto a possibilidade de pré-pagar as dívidas a qualquer momento, sem prêmio. Há também a sugestão de cláusulas para pré-pagamentos obrigatórios (sem prêmio) em duas situações:
- Venda de ativos, exceto Argentina, e
- Geração de caixa excedente.
Isso significa que parte do plano de desinvestimentos e da geração futura de caixa é direcionada à redução acelerada do nível de dívida com os credores.
Plano B e C: mais risco ou saída imediata
Além da opção principal, a empresa ofereceu dois caminhos alternativos.
A opção B é a mais agressiva. Nela, o credor aceita um desconto de 80% sobre o valor da dívida — ou seja, deixa na mesa boa parte do crédito — em troca de um único pagamento no futuro, com vencimento apenas em 2047.
Já a alternativa C é voltada a pequenos credores.
Ela prevê pagamento imediato em dinheiro, mas limitado ao menor valor entre 75% do crédito ou R$ 9.750. Nesta opção, a Raízen estabeleceu um teto global de R$ 150 milhões em pagamentos.
Se a demanda exceder o capital reservado, a alocação é progressiva, começando pelos menores créditos.
O que acontece agora na Raízen?
Este plano ainda não é definitivo.
O texto precisa ser aprovado por mais da metade dos credores e pode sofrer ajustes nas próximas semanas.
Há também condições importantes para sua implementação, como um acordo com a Receita Federal sobre passivos tributários, um novo acordo de acionistas entre Shell e Cosan pelo reembolso de litígios antigos e a execução do plano de separação dos negócios.
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