Quando a conta chega: por que gigantes como Raízen, Oi, GPA e Americanas recorreram à recuperação para reorganizar bilhões em dívidas
As maiores reestruturações da história recente ajudam a explicar como o ambiente financeiro mais duro tem afetado até grandes companhias brasileiras

Quando uma empresa pede recuperação judicial ou extrajudicial, o movimento costuma soar como um alarme no mercado. Mas, na prática, raramente uma reestruturação de dívidas começa no dia em que o pedido chega ao tribunal.
Na maioria das vezes, o processo é apenas o clímax de uma história que começou muito antes — quando o crédito ficou mais caro, os juros começaram a subir e a geração de caixa deixou de acompanhar o ritmo das dívidas.
Foi a esse ponto que chegou nesta semana a Raízen (RAIZ4), uma das maiores companhias de biocombustíveis do país, ao recorrer à recuperação extrajudicial para renegociar parte de seu passivo financeiro bilionário.
Ainda que dimensão do processo, de mais de R$ 65 bilhões em dívidas, chame a atenção, esse movimento foi muito usado por grandes companhias brasileiras nos últimos anos, para reorganizar suas finanças e reequilibrar os balanços em um ambiente de crédito cada vez mais restritivo. E não são poucos os exemplos.
As maiores recuperações da história recente
A história corporativa brasileira acumula algumas reestruturações bilionárias que marcaram o mercado nas últimas décadas.
Entre as maiores recuperações judiciais já registradas está a da Novonor (antiga Odebrecht), que entrou em processo em 2019 com cerca de R$ 98,5 bilhões em dívidas, em um dos maiores casos da América Latina.
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Outro episódio emblemático foi o da operadora Oi (OIBR3), que iniciou sua recuperação judicial em 2016 com aproximadamente R$ 65,4 bilhões em dívidas.
A lista de grandes reestruturações inclui ainda outros nomes conhecidos do mercado:
- A mineradora Samarco, com cerca de R$ 50 bilhões em dívidas no processo iniciado em 2021;
- A varejista Americanas (AMER3), que entrou em recuperação judicial em 2023 com passivo superior a R$ 40 bilhões;
- A empresa de sondas Sete Brasil, com cerca de R$ 19,3 bilhões; e
- A petroleira OGX, que pediu recuperação em 2013 com aproximadamente R$ 12 bilhões em dívidas.
A nova aposta das empresas endividadas
Nos últimos anos, porém, um novo instrumento passou a ganhar mais espaço nesse tipo de reestruturação: a recuperação extrajudicial.
Diferentemente da recuperação judicial tradicional — que envolve um processo amplo supervisionado pelo Judiciário —, a recuperação extrajudicial costuma começar fora dos tribunais, com negociações diretas entre empresas e credores.
“É uma negociação feita inicialmente fora do tribunal, que depois é levada ao juiz para homologação”, explica Guilherme Bier Barcelos, sócio do RMM Advogados.
Segundo ele, quando credores que representam mais da metade dos créditos de determinada classe concordam com o plano, a decisão pode se tornar vinculante para todos os demais.
Foi justamente esse caminho escolhido pela Raízen. A companhia pretende reestruturar R$ 65,14 bilhões em créditos financeiros quirografários, ou seja, sem garantia real, dentro de um passivo total de R$ 98,63 bilhões.
Até agora, cerca de 47% dos créditos sujeitos ao plano já contam com adesão de credores.
Clientes, fornecedores e parceiros comerciais, segundo a empresa, não serão afetados pela renegociação. Esse escopo também foi o escolhido na reestruturação do GPA, por exemplo.
Por trás do aumento das reestruturações de dívida corporativas
A busca por mecanismos de reorganização financeira tem ganhado força. Considerando toda a economia, o Monitor RGF de Recuperação Judicial aponta 5.680 pedidos em 2025, crescimento de 24,3% em relação ao ano anterior.
A situação é mais complicada dentro do agro. Dados da Serasa Experian mostram que 2025 registrou recorde de recuperações judiciais no agronegócio, com 1.990 pedidos — alta de 56,4% em relação ao ano anterior.
Ao mesmo tempo, as recuperações extrajudiciais também avançaram. Segundo o Observatório Brasileiro de Recuperação Extrajudicial, 245 empresas recorreram ao mecanismo em 2025, sendo 55 do agronegócio — número 111,5% superior ao registrado no ano anterior.
Para Olívia Flôres de Brás, CEO da Magno Investimentos, movimentos como o da Raízen precisam ser analisados dentro de um contexto mais amplo.
“Quando episódios desse tipo aparecem simultaneamente em diferentes setores, eles acabam oferecendo uma leitura mais abrangente das condições financeiras da economia”, afirma.
Segundo ela, o denominador comum costuma ser o mesmo: custo de capital mais elevado e financiamento mais restritivo.
O peso dos juros na equação
Setores intensivos em investimento — como energia, infraestrutura ou agronegócio — são particularmente sensíveis a mudanças no custo do capital.
Projetos de biocombustíveis e energia renovável, como os da Raízen, por exemplo, exigem volumes elevados de investimento e ciclos longos de retorno.
Quando os juros sobem ou o ambiente macroeconômico se torna mais volátil, o equilíbrio dessas estruturas financeiras pode se deteriorar rapidamente.
“Nessas condições, o serviço da dívida passa a consumir uma parcela crescente da geração de caixa”, disse a executiva.
O resultado é que empresas podem continuar operando normalmente do ponto de vista produtivo, mas passam a enfrentar dificuldades financeiras.
Um novo estágio das reorganizações empresariais
O aumento das recuperações extrajudiciais pode indicar uma mudança gradual na forma como empresas lidam com crises financeiras. “Não parece correto falar em uma onda generalizada de extrajudiciais no agro”, afirma Eliézer Francisco Buzatto, especialista em direito empresarial e membro do Instituto Brasileiro de Direito Empresarial.
Para ele, o que está ocorrendo é uma diversificação dos instrumentos de reestruturação disponíveis no país.
A recuperação judicial continua sendo a ferramenta predominante, mas a extrajudicial tende a ganhar espaço em situações em que:
- O passivo financeiro está concentrado em poucos credores;
- Existe capacidade de coordenação entre financiadores; e
- Há interesse em preservar o relacionamento comercial.
Segundo Joana Bontempo, consultora do CSMV Advogados, o avanço desses mecanismos também está ligado às mudanças trazidas pela reforma da Lei de Recuperação e Falências em 2020.
A atualização da legislação ampliou a segurança jurídica dos processos, estabeleceu regras mais claras para venda de ativos e introduziu mecanismos como o financiamento DIP, modalidade de crédito concedida a empresas em recuperação.
Esse conjunto de ferramentas tornou os processos mais previsíveis para credores e investidores.
Além disso, o aumento da alavancagem corporativa e a expansão do mercado de crédito privado pulverizado nos últimos anos criaram um cenário em que negociações com múltiplos credores passaram a exigir maior coordenação.
Nesse contexto, a recuperação judicial ou extrajudicial acabou se tornando um caminho mais natural para centralizar essas negociações.
"A combinação de mudanças legais, pulverização de crédito e pressão de maturidades de dívida tem feito com que empresas vejam as recuperações judiciais e extrajudiciais como ferramentas estratégicas de gestão de crises”, disse.
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