Entre War e Banco Imobiliário, Trump polemiza com ideia de comprar a Groenlândia, mas não é a primeira vez; EUA seriam bem menores se não abrissem a carteira
A última grande aquisição do país ocorreu em 1917, quando os EUA compraram as Ilhas Virgens, que pertenciam justamente à Dinamarca, atual "dona" da Groenlândia

No xadrez político internacional, o presidente dos EUA, Donald Trump, resolveu mexer a torre, avançar o cavalo, pregar a rainha… e depois jogar o tabuleiro para o alto. O republicano vem batendo de frente com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), criando uma das maiores tensões internas da história do bloco, ao insistir em anexar a Groenlândia, território autônomo pertencente à Dinamarca.
Os europeus não estão gostando nada disso e chegaram a lançar uma missão para reforçar a presença militar na região nesta semana. Até a Rússia se envolveu na história: o Kremlin avisou que "obviamente" responderá qualquer militarização europeia na Groenlândia direcionada a Moscou.
Climinha de Guerra Fria no Ártico? Quase isso
Porém, antes de falar em tropas, navios e tanques de guerra, Trump tenta algo mais… capitalista. Se estivéssemos falando de um jogo de tabuleiro, a estratégia inicial do presidente dos EUA se parece menos com xadrez ou War e mais com Banco Imobiliário.
Ela não envolve o uso da força, mas sim de um cheque de encher os olhos. Trump tenta negociar a compra do território, que seria avaliado hoje em aproximadamente US$ 700 bilhões (R$ 3,7 trilhões), segundo a emissora NBC News.
Porém, a investida de Trump vem se mostrando frustrada. Isso porque tanto os líderes europeus da Otan quanto a própria Dinamarca afirmam que jamais venderiam a Groenlândia para os EUA. O governo dinamarquês inclusive disse em alto e bom som que a região não está à venda.
Sem sucesso na negociação, Trump agora diz que cogita uma alternativa digna de reality show geopolítico: oferecer dinheiro diretamente aos cerca de 57 mil habitantes da ilha para que apoiem a incorporação em um eventual plebiscito.
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Mas a matemática também não favorece o republicano. Cerca de 88% dos moradores da região são inuíte, um grupo étnico nativo do Ártico. Eles reprovam a dependência da ilha por outro país — inclusive a Dinamarca.
Além disso, eles são fortemente contra a exploração de minerais críticos e de recursos naturais, justamente os principais interesses de Washington na Groenlândia.
Vale lembrar que Trump também manifesta outras questões geopolíticos no radar. Ele chegou a afirmar em janeiro que “se eu não fizer isso (tomar a Groenlândia), Rússia ou China farão, e não os teremos de vizinhos”.
Comprar território? Os EUA já fizeram isso... várias vezes
Se a proposta parece roteiro de série da Netflix, a prática não é exatamente inédita. Até a Segunda Guerra Mundial, países negociavam territórios quase como quem negocia imóveis, sem a necessidade de consultar a população local, e os EUA eram grandes adeptos da modalidade.
A última grande aquisição do país foi em 1917, quando o país comprou as Ilhas Virgens, que pertenciam justamente à Dinamarca, atual “dona” da Groenlândia. Porém, os EUA recorreram aos cofres outras 14 vezes para ampliar o mapa norte-americano antes de chegar à mesa de negociações pelas ilhas caribenhas.
A primeira compra foi realizada em 1803. Na época, o então líder francês, Napoleão Bonaparte, precisava de dinheiro para financiar uma guerra contra a Inglaterra e decidiu vender parte das terras francesas na América. Por 60 milhões de francos, os EUA adquiriram a Louisiana, praticamente dobrando o território do país.
Outro estado comprado no início do século XIX foi a Flórida, que pertencia à Espanha. Sem conseguir defender o território e temendo perder as terras à força, a coroa espanhola concordou em ceder a região em 1819 por US$ 5 milhões.
Em seguida, foi a vez do Texas entrar para o mapa norte-americano. Após um movimento da população local para se juntar ao país em expansão, o Congresso dos EUA autorizou a incorporação da região. A decisão levou a uma longa guerra com o México, que detinha o Texas até então.
Após anos de batalha, o conflito foi encerrado em 1848 com o pagamento de US$ 15 milhões pelo governo norte-americano. No entanto, além de anexar o Texas, os EUA levaram de brinde as regiões do Novo México, Utah, Nevada, Arizona, Califórnia, Colorado.
Em 1867, chegou a vez dos EUA se sentarem a mesa de negociações com a Rússia. Na época, os norte-americanos desembolsaram US$ 7,2 milhões pelo Alasca. Na época, muitos chamaram o negócio de “loucura”.
Porém, hoje, com as reservas de petróleo e a posição estratégica do gelado território, ninguém mais ri. A aquisição é vista como uma verdadeira pechincha, uma vez que custou apenas US$ 4,74 por quilômetro quadrado a Washington.
Já em 1898, o governo norte-americano comprou as Filipinas. A aquisição envolveu a conquista de um território bem distante dali e que anda nos holofotes da mídia por causa da apresentação do cantor Bad Bunny no Super Bowl. Nascido em Porto Rico, uma colônia dos EUA desde a conquista no fim do século XIX, o artista repercutiu com uma apresentação crítica a Trump.
O arquipélago porto-riquenho passou para o domínio dos EUA após a Guerra Hispano-Americana, que teve origem na luta de Cuba pela independência, iniciada muito antes de Fidel Castro, em 1895. Os norte-americanos entraram na disputa apenas em 1898 e puseram fim ao conflito em quatro meses.
Além de Cuba, a Espanha perdeu algumas de suas colônias na região. Por meio do Tratado de Paris, Porto Rico e Guam foram cedidos aos EUA. Foi então que os norte-americanos abriram a carteira para comprar as Filipinas por US$ 20 milhões. Porém, vale lembrar que o país asiático é independente desde 1946.
A última investida dos EUA aconteceu já no século XX, enquanto o mundo ainda lidava com a Primeira Guerra Mundial. O governo norte-americano comprou da Dinamarca, em 1917, as então chamadas Índias Ocidentais Dinamarquesas, que passariam a ser chamadas de Ilhas Virgens Americanas. A aquisição custou aos cofres dos EUA US$ 25 milhões em barras de ouro.
Com a Groenlândia é diferente
Embora as negociações de compra e venda de terras tenham ocorrido diversas vezes depois da proposta pela Groenlândia, aquela pode ter sido a última oportunidade dos EUA de adicionar a região ao seu mapa.
Isso porque, de lá para cá, muita coisa mudou, e o processo de aquisição não é mais como comprar um lote no século XIX.
Além de hoje ser necessário realizar um plebiscito com a população local e dinamarquesa, o território também precisa ter uma autonomia em relação ao país que pertence, o que não é o caso da Groenlândia.
Mesmo que a região tenha governo próprio, ainda dependem da Dinamarca para questões de política externa e defesa. Ainda assim, os dinamarqueses não se veem como "proprietários plenos" da Groenlândia para vendê-la.
Todas essas condições tornaram o processo de anexação por meio da compra extremamente raro, e pode azedar os planos de Trump.
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