Mercado Livre (MELI34) anuncia investimento gigantesco no Brasil e tem planos para entrar em novo segmento bilionário, mas há um porém no curto prazo, diz BTG
Com o aumento dos investimentos, as margens continuam comprimidas, então o retorno para acionistas não deve vir no curto prazo, acredita o banco. Entrada no segmento farmacêutico também deve ser gradual, com projeto piloto lançado ainda neste ano

O Mercado Livre (MELI34) acaba de anunciar um investimento recorde, de R$ 57 bilhões, apenas no Brasil em 2026. O valor é 50% maior do que o investido no ano passado, e reafirma o país como o mais estratégico para a empresa argentina.
Os recursos serão direcionados principalmente para três frentes: expansão logística, fortalecimento do marketplace e avanço do Mercado Pago. O anúncio acontece em um momento no qual Amazon, Shein e Shopee acirram a disputa no comércio eletrônico no Brasil.
"Apesar de um cenário macro ainda desafiador — marcado pelas altas taxas de juros, competição e poder de compra da população pressionado — a companhia está acreditando na escala para consolidar sua liderança e alongar suas trincheiras competitivas", diz o BTG Pactual em relatório.
O objetivo é ganhar o cliente pelo frete — grátis e rápido. Parte significativa do investimento será destinado a fortalecer a logística, já que a capacidade da empresa de entrega é um dos seus principais diferenciais.
“Na nossa visão, a contínua densificação da malha logística deve reduzir ainda mais os prazos de entrega enquanto aumenta a alavancagem operacional ao longo do tempo, fortalecendo a vantagem estrutural do Mercado Livre em relação aos concorrentes", diz o BTG.
Mas há um problema: as margens de curto prazo da empresa continuarão pressionadas com esses investimentos altos. Por isso, o BTG acredita que a tese do Meli é de médio e longo prazo, já que esses gastos ajudam a consolidar a empresa como líder no e-commerce da América Latina. "Nos mantemos estruturalmente construtivos", afirma o banco.
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O BTG tem uma recomendação de compra pra ação, com preço-alvo de US$ 2.700, alta potencial de 62% em relação ao preço atual de US$ 1.666. As ações são negociadas no Brasil pelo BDR MELI34.
Mercado Livre no setor farmacêutico
A empresa também planeja entrar em um novo setor, ainda pouco explorado no comércio eletrônico: o varejo farmacêutico. O avanço da companhia nesse oceano azul é estratégico, já que o segmento se destaca pela alta recorrência, demanda estável e menor sensibilidade a preços.
Em setembro do ano passado, a empresa comprou a Target, uma farmácia localizada na zona sul de São Paulo, um passo obrigatório para a venda de remédios no e-commerce. A aquisição gerou protestos e polêmicas do setor farmacêutico.
Agora, planeja lançar um projeto piloto ainda em 2026. A ideia não é ter estoque próprio, mas sim permitir que outras farmácias atuem como parceiros de marketplace, assim como a empresa já faz com outros segmentos.
A regulamentação ainda é o principal empecilho para essa iniciativa. Segundo a Anvisa, apenas farmácias regulamentadas podem vender e entregar medicamentos. Isso impede que o Meli use os seus centros de fulfillment para fazer essa logística, e torna o uso de farmácias físicas indispensáveis mesmo com canais digitais.
Além disso, a entrega da prescrição também afeta as vendas nos canais digitais. Por enquanto, mesmo com as mudanças legislativas recentes, ainda não é possível criar um modelo totalmente digital e escalável no segmento de farmácias, diz o BTG. Ou seja, a entrada do Meli nesse segmento deve ser bastante gradual no curto prazo.
O objetivo não é ganhar mercado nem se tornar líder na categoria. Mas qualquer participação de mercado já pode gerar dados valiosos para a empresa criar novas estratégias no futuro.
"Na nossa visão, isso reforça a ambição de longo prazo do Mercado Livre de evoluir para uma ‘superplataforma’ de categorias essenciais de consumo, aumentando a frequência de compras e a fidelização dos clientes", afirma o banco.
Mesmo assim, as implicações para o médio e longo prazo são significativas: a empresa, com suas soluções de fintech e logística, pode pressionar as farmácias mais tradicionais, principalmente no segmento de remédios isentos de prescrição.
Embora players como Raia Drogasil e Pague Menos permaneçam melhor posicionados no cenário atual, segundo o BTG, o risco está no longo prazo, com o relacionamento do cliente.
"O movimento do Mercado Livre tem menos a ver com ganhos imediatos de participação de mercado e mais com o posicionamento para um futuro em que a profundidade do ecossistema — e não apenas a presença física — definirá a vantagem competitiva.”
TESOURA AFIADA
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