Inadimplência começa a cobrar a conta dos bancões no 2T26. Quem está mais bem preparado para enfrentar a piora no crédito?
Pressão apareceu nas provisões, margens e qualidade dos ativos — mas em intensidades diferentes em cada um dos bancos

A temporada de balanços do segundo trimestre de 2026 (2T26) deixou uma coisa clara: o crédito começou a cobrar a conta dos grandes bancos brasileiros — embora cada um tenha recebido uma fatura diferente de inadimplência.
No Itaú (ITUB4), os atrasos continuaram sob controle. Já o Santander Brasil (SANB11) sentiu mais o peso das provisões e da pressão sobre as margens. No Bradesco (BBDC4), o alerta apareceu antes de virar inadimplência, com sinais de aumento do risco futuro.
E, no Banco do Brasil (BBAS3), o problema ganhou novas frentes: depois de meses concentrado no agronegócio, o aumento da inadimplência começou a aparecer também na pessoa física e nas pequenas e médias empresas.
Em outras palavras, a diferença não está só no tamanho do problema, mas em onde ele aparece — e no que cada banco está fazendo para contê-lo.
Confira quem atravessou o trimestre com mais tranquilidade, quem sentiu mais pressão e o que pode acontecer com a qualidade do crédito nos próximos meses.
Veja como cada banco performou no 2T26:
| Banco | Lucro líquido (% a/a) | Rentabilidade/ROE (% a/a) | Inadimplência acima de 90 dias (% a/a) | Provisões (% a/a) |
|---|---|---|---|---|
| Santander Brasil (SANB11) | R$ 3,014 bilhões (17,6%) | 12,5% (-3,8 p.p) | 3,3% (+0,7 p.p) | R$ 7,65 bilhões (+11,5%) |
| Itaú Unibanco (ITUB4) | R$ 12,407 bilhões (+7,8%) | 24,3% (+1 p.p) | 1,9% (estável) | R$ 10,4 bilhões (+ 8,4%) |
| Banco Bradesco (BBDC4) | R$ 7,050 bilhões (+16,2%) | 16% (+1,4 p.p) | 4,3% (+0,2 p.p) | R$ 10,85 bilhões (+21,4%) |
| Banco do Brasil (BBAS3) | R$ 3,9 bilhões (+13,9%) | 8,3% (-0,1 p.p) | 5,61% (+1,65 p.p) | R$ 18,8 bilhões (+8,4%) |
Como cada banco está lidando com a inadimplência?
Santander Brasil: menos risco agora, recuperação mais adiante
O Santander Brasil (SANB11) ainda espera novas pressões sobre as provisões e já admite que a recuperação da rentabilidade pode ficar para 2027.
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Segundo o diretor financeiro (CFO), Carlos Muñiz, juros elevados, ambiente macroeconômico adverso e a atualização dos modelos de risco exigida pela Resolução 4.966 ainda devem pesar sobre os resultados.
"Se tivesse que colocar essa data [para recuperação dos resultados], provavelmente estaria mais no começo de 2027 do que no fim de 2026", afirmou o executivo.
O banco também espera novos impactos no balanço no quarto trimestre, dado que a carteira de crédito ainda não terá refletido plenamente a estratégia mais conservadora adotada nos últimos trimestres.
Ao mesmo tempo, o Santander avalia que há sinais melhores nas novas safras de crédito. O problema é que elas ainda precisam ganhar escala para compensar o desempenho das carteiras antigas.
"O importante é que a performance real dos portfólios tem alguns sinais mais positivos. Não sei se vai dar para compensar todo esse impacto... Acredito que estamos fazendo as escolhas corretas e que, em algum tempo, essa conta tem que fechar."
Essa mudança passa por uma escolha deliberada: o Santander reduziu a exposição a linhas mais rentáveis, mas também mais arriscadas, como crédito rotativo e operações para clientes de menor renda.
A expansão agora está mais concentrada em financiamentos com garantia, crédito imobiliário, Pronampe, veículos novos e clientes de maior renda.
Itaú: inadimplência sob controle — por enquanto
O Itaú Unibanco (ITUB4) apresentou um quadro mais confortável. Os atrasos de 15 a 90 dias na pessoa física permaneceram em 3% no segundo trimestre.
Na pessoa jurídica, houve aumento dos atrasos, mas o CEO, Milton Maluhy Filho, classificou o movimento como pontual e relacionado ao fim das carências de programas públicos.
"Não é, em hipótese alguma, um sinal de deterioração do portfólio", afirmou.
Como boa parte dessas operações possui garantias, o banco afirma que o impacto sobre o custo de crédito permanece limitado.
Na pessoa física, Maluhy foi ainda mais direto: "Não há nenhuma perspectiva de piora."
Segundo o executivo, o crescimento recente da carteira está concentrado em segmentos considerados mais resilientes, com destaque para o público de alta renda, uma estratégia que busca preservar a qualidade dos ativos mesmo com juros elevados.
Bradesco enfrenta cenário de inadimplência com carteira mais seletiva
O Bradesco (BBDC4) reconhece que o ambiente macroeconômico continua mais difícil do que o previsto no início de seu processo de turnaround.
Para o CEO, Marcelo Noronha, juros reais elevados comprimem as margens das empresas, reduzem a capacidade de pagamento das famílias e tornam o crédito naturalmente mais seletivo.
A resposta do banco é manter a estratégia de privilegiar operações com garantias reais e maior retorno ajustado ao risco. "A gente não está fazendo loucura", afirmou Noronha.
O consignado privado é um exemplo: segundo o executivo, a inadimplência da modalidade no Bradesco equivale hoje a cerca de metade da média do mercado.
As provisões, porém, continuam no radar. Para Noronha, parte do aumento é consequência natural do crescimento da carteira e da Resolução 4.966.
"O custo de crédito é natural que cresça se eu crescer a carteira", disse.
Também pesaram operações garantidas pelos programas FGI e FGO. Com o fim das carências, o banco precisa provisionar antes mesmo da execução das garantias, elevando temporariamente as despesas e o volume de operações classificadas em Estágio 2.
A categoria reúne créditos cujo risco aumentou significativamente. No Bradesco, esse saldo cresceu 15% no trimestre e passou a representar 5,5% da carteira.
Além disso, houve efeitos específicos ligados ao Banco John Deere, operações rurais e produtos como cartões de alta renda e financiamento de veículos.
A expectativa da administração é que essas operações sejam "curadas" ao longo do tempo e que o retorno adicional compense a pressão inicial sobre o custo de crédito.
Banco do Brasil: o problema se espalhou pela carteira
Depois de meses com o agronegócio como principal fonte de pressão, a pessoa física passou a dar sinais mais fortes de deterioração no Banco do Brasil (BBAS3).
O cartão de crédito foi o principal ponto de atenção: a inadimplência acima de 90 dias praticamente dobrou em três meses. Para a administração, porém, não se trata de uma deterioração generalizada.
O foco veio de uma modalidade de parcelamento automático da fatura sem entrada, criada para oferecer uma alternativa de pagamento principalmente a clientes de menor renda.
Acontece que a solução acabou produzindo um efeito de bola de neve na inadimplência.
O banco afirma que identificou o comportamento ainda no primeiro trimestre, interrompeu a operação no fim de março e antecipou parte das provisões. O impacto, porém, apareceu com mais força no balanço do segundo trimestre.
A resposta agora é mudar a composição do crescimento da pessoa física, direcionando o crédito para segmentos considerados mais resilientes e com melhor retorno ajustado ao risco.
"Nossa carteira de pessoa física não é comparável com a dos demais bancos; ela é muito calcada em linhas mais seguras", afirmou a presidente Tarciana Medeiros.
A estratégia inclui alta renda, consignado público e privado e recuperação de crédito. Ao mesmo tempo, o banco ainda precisa enfrentar o problema original: a deterioração do agronegócio.
O que dizem os analistas sobre os bancões?
Em meio à deterioração da inadimplência, os balanços do 2T26 reforçaram a percepção de que não existe uma única história de crédito entre os grandes bancos.
No Santander, o balanço frustrou as expectativas, pressionado por provisões, receitas mais fracas e uma compressão maior que a esperada das margens.
O crédito foi o principal foco de pressão. As provisões para perdas chegaram a R$ 7,65 bilhões, alta de 11,5% em um ano e de 20,6% no trimestre, além de uma provisão trabalhista não recorrente de R$ 291 milhões.
Mas a maior surpresa veio da margem financeira. Para analistas, a queda de 40 pontos-base nos spreads foi considerada excessivamente abrupta, apesar da explicação do Santander de que está mudando o perfil da carteira e reduzindo a exposição a segmentos de menor renda.
Agora, o foco está em saber quando a redução de risco começará a aparecer na rentabilidade. O JP Morgan manteve recomendação overweight (compra) para SANB11, mas considera a dinâmica dos spreads um dos principais pontos a acompanhar.
No Banco do Brasil, o mercado olha além do lucro de R$ 3,9 bilhões e do ROE de 8,3%: a prioridade é entender quando a qualidade do crédito — no agro e agora também no cartão — permitirá uma recuperação mais consistente da rentabilidade e maior espaço para dividendos.
O agronegócio continua sendo a principal fonte de preocupação. A possibilidade de um novo El Niño adiciona uma variável de risco justamente quando o banco tenta recuperar uma carteira rural deteriorada nos últimos trimestres.
Enquanto isso, o Itaú teve uma recepção mais favorável após o balanço, com alta das ações. A reação reforça a percepção de resiliência da instituição, apoiada por seu histórico de execução e maior controle sobre a carteira de crédito.
A Empiricus Research manteve preferência pelo banco entre os bancões justamente por essa capacidade de entregar resultados mesmo em um ambiente macroeconômico adverso. O desafio agora é provar que essa resiliência continua à medida que o ciclo de crédito avança.
Já o Bradesco mostrou que controlar a inadimplência não significa necessariamente eliminar a pressão sobre provisões. Analistas acompanham de perto a evolução das operações em Estágio 2 e a capacidade do banco de transformar crescimento de carteira em retorno ajustado ao risco.
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