Desconto excessivo? CEO do Bradesco (BBDC4) vê ação ‘em promoção’ e manda recado ao mercado após lucro do 2T26
Marcelo Noronha afirma que investidores ainda não precificaram a transformação do banco, explica o aumento de capital bilionário e revela os próximos passos da estratégia do Bradesco

Mesmo depois de dez trimestres consecutivos de melhora nos resultados, o Bradesco (BBDC4) continua sendo negociado com um desconto que, na visão da própria administração, já não faz sentido.
Para o CEO Marcelo Noronha, o mercado ainda olha para o banco com as lentes do passado, enquanto ele já opera sob uma lógica completamente diferente, apoiada por um balanço reforçado, rentabilidade em recuperação e uma transformação que reúne mais de 800 iniciativas.
"Estamos descontados. É um bom negócio comprar as ações do Bradesco, com muita franqueza. O mercado vai chegar, mais cedo ou mais tarde", afirmou o executivo, durante entrevista coletiva com jornalistas, realizada nesta quarta-feira (6), na sede do banco, em Osasco.
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Na avaliação de Noronha, parte dessa percepção decorre da forma como o conglomerado Bradesco é precificado na bolsa.
Com a Bradsaúde avaliada em cerca de R$ 42 bilhões na B3, ele argumenta que o restante do grupo — incluindo o banco, a operação de seguros, meios de pagamento e demais negócios — continua sendo negociado com um desconto expressivo. "O Bradesco é uma máquina de receita recorrente", avalia.
As ações do Bradesco abriram a sessão desta quarta-feira em queda. Nos primeiros minutos de negociação, os papéis BBDC4 recuavam 1,55%, negociados a R$ 17,77. No acumulado de 2026, a ação registra desvalorização superior a 3% na B3.
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Essa confiança, segundo a administração, também ajuda a explicar o recente aumento de capital de R$ 8 bilhões aprovado pelo banco.
As acionistas controladoras — as herdeiras do fundador Amador Aguiar, que detêm aproximadamente 40% do capital — poderiam acompanhar a operação apenas na proporção de sua participação, investindo algo próximo de R$ 4 bilhões. Em vez disso, decidiram colocar o dobro.
Para o Bradesco, o movimento não representa uma necessidade de reforçar o caixa por deterioração do cenário, mas uma forma de ampliar a flexibilidade para crescer justamente em um ambiente mais seletivo.
Segundo o diretor financeiro (CFO), Cassiano Scarpelli, esse capital adicional permite ao banco manter espaço para aproveitar oportunidades sem qualquer pressão sobre seus índices de capital.
"É uma tranquilidade de que temos capital para fazer os movimentos que quisermos internamente."
Juros altos ainda machucam — mas o Bradesco prefere executar
A administração do Bradesco reconhece que o cenário macroeconômico continua muito mais turbulento do que se imaginava quando o banco iniciou o processo de turnaround.
"Ninguém esperava que estivéssemos em 2026 com esse nível de juros", admitiu Noronha.
Mesmo assim, o CEO afirma que a estratégia não mudou. Em vez de esperar por um ambiente mais favorável, o banco decidiu concentrar esforços na execução operacional.
"O Bradesco está aqui entregando no batidão, com aumento de lucro líquido todo trimestre."
Apesar do ambiente ainda restritivo, Noronha acredita que o Banco Central deve manter o ciclo de cortes da taxa básica de juros (Selic) nos próximos meses.
"Com os indicadores de inflação e a taxa de juros real muito alta no Brasil, a política monetária já fez efeito. Eu espero que a taxa continue caindo, talvez em um ritmo de 0,25 ou 0,50 ponto."
Na visão do executivo, juros elevados por muito tempo acabam comprimindo margens das empresas, reduzem a capacidade de pagamento das famílias e tornam naturalmente mais seletivo o mercado de crédito.
Bradesco quer crescer, sim. Fazer loucura, não
Ainda que esteja prestes a receber uma injeção bilionária em capital, isso não significa que o Bradesco pretenda acelerar indiscriminadamente a concessão de crédito.
Segundo Noronha, a estratégia continua sendo privilegiar operações com garantias reais e maior retorno ajustado ao risco.
"Onde a gente cresce na pessoa física? Consignado, imobiliário e CDC veículos. A gente não está fazendo loucura."
O executivo destacou que, mesmo dentro do financiamento de veículos, o foco deixou de ser carros novos e passou para seminovos, segmento que oferece melhor relação entre risco e rentabilidade.
O CEO afirma, ainda, que a inadimplência do consignado privado do Bradesco corresponde hoje a cerca da metade da média do mercado.
Provisões aumentam no 2T26 — e isso era esperado
O avanço das provisões também entrou no radar dos investidores após o balanço. Para Noronha, porém, parte importante desse movimento decorre simplesmente do crescimento da carteira e das novas regras contábeis da Resolução 4.966.
"O custo de crédito é natural que cresça se eu crescer a carteira", diz o executivo.
Ele também atribuiu parte da pressão aos financiamentos garantidos pelos programas FGI e FGO.
Segundo ele, quando termina o período de carência dessas operações, o banco precisa provisionar antes mesmo de executar as garantias, o que aumenta temporariamente tanto as provisões quanto o volume de operações classificadas em Estágio 2.
Além disso, pesaram fatores específicos como a sazonalidade do Banco John Deere, operações rurais ligadas a safras anteriores e produtos como cartões de alta renda e financiamento de veículos, que exigem provisões iniciais maiores.
"Continuaremos pressionados nessas linhas específicas até estabilizarmos essa carteira", afirma.
Ainda assim, Noronha afirma que essas operações tendem a ser "curadas" ao longo do tempo e que o maior retorno proporcionado por elas compensa esse aumento temporário do custo de crédito.
Agro continua no radar
O agronegócio também permanece sendo acompanhado de perto. Embora reconheça que o setor enfrenta um período mais delicado, influenciado pelos preços das commodities e pelas condições climáticas, Noronha voltou a dizer que não vê uma deterioração estrutural da carteira.
Segundo ele, boa parte da pressão observada atualmente decorre justamente das linhas ligadas ao FGI, FGO e da sazonalidade do Banco John Deere.
A avaliação do banco é que a elevada participação de operações com garantias reais tende a permitir que esses créditos sejam recuperados ao longo do tempo.
No segmento de seguros, a estratégia é similar: diversificação territorial e um painel robusto de resseguradores para neutralizar os sustos do El Niño.
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