Do sonho de construir um ‘avião de ponta-cabeça’ ao banco do futuro: o que o CEO da Revolut prevê para o seu dinheiro
No TAG Summit, evento realizado nesta terça-feira (29) em parceria com o Market Makers, Glauber Mota afirma que a confiança será decisiva na relação entre clientes, bancos e agentes de IA

Quando Glauber Mota decidiu cursar engenharia, sua vontade era construir, nas palavras do próprio CEO da Revolut: “um avião de ponta-cabeça, que nada mais é que um carro de fórmula 1”. Mas o choque que o então estudante levou quando entendeu o caminho que teria que percorrer até seu sonho o fez perceber que não era o que ele realmente queria.
Na mesma época, o mercado financeiro começava a ganhar tração no Brasil, e Mota entendeu que suas habilidades como engenheiro poderiam ajudar a avançar em uma carreira impensada até então.
“Me apaixonei. Busquei estágio, comecei cedo. Aprendi coisas que iam além da modalidade quantitativa, que foi onde comecei. Fui migrando para áreas que me abriam oportunidade de ir para outros países. Acabei fazendo uma carreira nada linear: risco, finanças e tecnologia. Parecia que nenhuma dessas coisas tinha relação, mas, pelo acaso da vida, acabaram se tornando minhas fortalezas e me trouxeram até aqui”, disse.
Foi com o olhar de quem juntou risco, finanças e tecnologia que o CEO da Revolut participou nesta terça-feira (29) do TAG Summit 2026, um evento em parceria com o Market Makers, para falar sobre o futuro do dinheiro.
O dinheiro nos próximos dez anos
Presente em cerca de 40 países e com uma receita que cresceu 46%, para US$ 6 bilhões em 2025, engana-se quem pensa que a Revolut entende mais de dinheiro do que os bancos tradicionais.
“A gente entende é de pessoas. Nossa proposta é resolver problemas, conceder crédito e acesso ao cliente no Brasil ou em qualquer lugar do mundo”, afirmou Mota.
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O executivo admite que não sabe como a tecnologia ou o dinheiro estarão nos próximos dez anos, mas diz que já enxerga a direção: as fintechs deveriam passar invisíveis.
Ele lembra que, quando alguém pede ajuda por WhatsApp, não quer saber da infraestrutura por trás. Quer resolver o problema de forma fácil, agradável e mais barata. Para Mota, o futuro será de quem conseguir fazer isso usando as novas tecnologias.

Cheque em branco
Nesse cenário, a palavra-chave para ele é confiança.
“Os bancos premiavam os clientes que ficavam presos a eles por mais tempo. Agora, a briga é menos sobre como manter o cliente e mais sobre como ganhar a confiança para executar operações em seu nome”, disse.
Isso exigirá, segundo o executivo, um passo além do acesso a dados genéricos: com a tecnologia, o cliente terá de dar uma espécie de cheque em branco a bancos e plataformas, sempre diante de regulação adequada.
Para explicar na prática como esse cheque em branco funcionaria, o CEO da Revolut imagina a seguinte cena: “um agente financeiro será capaz de dizer algo como ‘vi que seu salário caiu, sua reserva está composta, suas contas vencem em 30 dias. Você quer investir?’”.
“Para chegar lá, porém, o cliente precisará confiar e definir até onde o agente pode ir. Até determinado valor, o agente vai executar a operação sozinho; acima do que for estipulado, precisará de autorização. Esse é o futuro que eu vejo”, afirmou.
Essa mudança, diz ele, vai separar o banco do passado do banco do futuro.
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“Antes, dinheiro parado na conta era algo bom para a instituição financeira. Daqui para frente, não será mais assim”, afirmou.
E é aí que a Revolut aparece. Um exemplo da atuação da empresa veio dos Estados Unidos, onde passar muitos cartões para pagar uma conta em um restaurante pode ser um desafio.
“É comum nos Estados Unidos a gente ver uma mesa cheia de amigos e na hora de rachar a conta, ouvir do garçom que só é possível passar dois cartões e não mais que isso. É um transtorno para quem está ali”, disse.
De olho nessa cena, a Revolut criou, na plataforma, um recurso que permite dividir a conta entre várias pessoas usando um único cartão, com o valor compartilhado pelo aplicativo.
No Brasil, o executivo vê um case de sucesso com o Pix.
“Os brasileiros usam menos dinheiro em espécie e, cada vez mais, dispensam o cartão físico de débito e crédito, o que muda a dinâmica dos meios de pagamento. Ainda assim, há um público que usa o crédito não só pelo crédito em si, mas para controlar os gastos do mês. A demanda por crédito aqui é muito maior, e o brasileiro, mais curioso para experimentar novas tecnologias, tem uma taxa de adoção enorme dessas novidades”, afirma Mota.
Foi assim que o cartão de crédito com milhas da Revolut ganhou espaço. Mota achava que a empresa ofereceria “um produto um pouco melhor que o da concorrência”, mas diz que acertou em cheio o público de milhas.
“O cartão tem conversão de um para um com companhias como Qatar e Iberia, algo que ninguém oferece. Descobrimos que o ponto da Revolut vale três vezes mais que o de um concorrente, e o produto escalou rapidamente”, afirma.
IA no caminho da Revolut
Diante da revolução dos meios de pagamento graças a tecnologia, Mota também foi questionado sobre o papel da inteligência artificial (IA) nesse processo.
Segundo o executivo, a IA não substitui o humano, mas multiplica sua capacidade.
“Como banco trabalha com gestão de risco e de incertezas, a IA facilita a tomada de decisão sem que seja necessário levantar e cruzar os dados, o que traz ganho de produtividade, ajuda no combate à lavagem de dinheiro e permite personalizar produtos”, disse.
Mota cita a AIR (AI by Revolut), agente treinado dentro da área logada do aplicativo, com modelo conversacional para cuidar das finanças.
“O cliente pode, por exemplo, pedir que ela defina um orçamento de supermercado com base nas compras passadas ou faça investimentos nas jurisdições em que isso é permitido, seguindo a lei de cada país”, disse.
O engenheiro que queria construir um avião de ponta-cabeça agora projeta outro tipo de máquina: um banco em que o dinheiro parado deixa de ser o negócio e a confiança do cliente passa a ser o combustível.
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