Nubank tomba quase 9% em NY após rumor de compra bilionária no Reino Unido; roxinho prepara revanche contra a Revolut?
O banco digital britânico Monzo pode ser a porta de entrada da fintech brasileira no Reino Unido, mas mercado questiona o preço e a complexidade da operação

A Revolut veio ao Brasil de olho no mercado do Nubank e hoje vale quase o equivalente a dois roxinhos. Agora, a fintech brasileira pode estar preparando o troco — e justamente no país de origem da rival.
Segundo informações do Sky News, o Nubank estaria de olho na aquisição do Monzo, um dos maiores bancos digitais do Reino Unido, com cerca de 16 milhões de clientes.
Se o negócio sair do papel, a operação poderia avaliar a fintech britânica entre 8 bilhões e 10 bilhões de libras — algo em torno de R$ 55 bilhões a R$ 69 bilhões pelo câmbio atual — e envolver uma combinação de dinheiro e ações.
O valor chama atenção. Na última rodada de captação, em 2024, o Monzo foi avaliado em 5,2 bilhões de libras. Ou seja, a faixa especulada para uma eventual venda embutiria um prêmio relevante.
Procurado pelo Seu Dinheiro, o Nubank afirmou que “não comenta rumores nem especulações”.
“Reafirmamos nosso compromisso em manter uma comunicação transparente, clara e ágil sobre qualquer assunto relevante para os nossos negócios”, disse o banco digital, em nota.
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O mercado não reagiu positivamente aos rumores. Diante dos números citados, o Nubank poderia gastar até 20% de seu valor de mercado na transação, o que parece ter pesado sobre o humor dos investidores.
Os papéis NU negociados na Nasdaq caíam 8,98% em Wall Street por volta das 14h20 desta segunda-feira (28), cotados a US$ 12,37. A performance negativa desta tarde amplia a desvalorização da fintech desde o início do ano, que supera os 26%.
Afinal, o que o Nubank estaria comprando?
Fundado em 2015 por Tom Blomfield, empreendedor britânico e um dos fundadores da Y Combinator, o Monzo cresceu rapidamente ao digitalizar serviços bancários como conta corrente, crédito e investimentos.
Hoje, a companhia está entre os maiores bancos de varejo do Reino Unido e se tornou uma das principais histórias de crescimento do setor financeiro britânico.
No último ano fiscal, o Monzo registrou receita de 1,7 bilhão de libras, alta de 39% em um ano. O lucro ajustado antes de impostos avançou 20%, para 172,6 milhões de libras, enquanto os depósitos saltaram 55%, a 25,7 bilhões de libras.
A empresa também começou a avançar para fora de seu mercado natal, com operações na Irlanda e na Espanha e planos de ampliar a presença na Europa Continental.
É justamente essa escala que torna a possível aquisição atraente para o Nubank. Em vez de construir do zero uma operação em um mercado desenvolvido, o roxinho poderia comprar uma franquia já estabelecida, com marca, clientes, depósitos e infraestrutura bancária.
A operação ocorreria enquanto o Nubank acelera sua expansão internacional. Nas últimas semanas, a fintech anunciou o início das operações nos Estados Unidos, com conta remunerada, cartões de débito e crédito, cashback e transferências.
Também lançou o Nu Global, conta multimoeda voltada a clientes que vivem, trabalham ou movimentam dinheiro entre diferentes países.
Por que o mercado torceu o nariz para a notícia?
Para a XP Investimentos, a lógica estratégica de comprar o Monzo é clara. Entrar organicamente no Reino Unido, um mercado maduro e bastante competitivo, provavelmente seria mais difícil do que a expansão construída pelo Nubank no México e na Colômbia.
O problema é que a aquisição representaria uma mudança importante no jeito como o Nubank cresceu até aqui e “introduziria um nível de complexidade de execução que a companhia ainda não enfrentou nessa escala”, segundo os analistas.
Afinal, o roxinho construiu sua franquia principalmente de forma orgânica, apoiado em tecnologia, baixo custo de atendimento e capacidade de conquistar clientes rapidamente.
Em aquisições de grande porte, porém, o histórico é mais curto. O principal precedente é a compra da Easynvest, em 2021 — uma operação muito menor e no mercado doméstico.
E há outro ponto: enquanto negocia uma possível entrada no Reino Unido, o Nubank ainda está colocando de pé sua operação nos EUA.
Para a XP, isso pode “sobrecarregar ainda mais a capacidade da administração e dividir sua atenção entre diversas iniciativas estratégicas”.
Além disso, uma operação dessa magnitude provavelmente exigiria aprovações regulatórias e poderia levar tempo para ser concluída.
“Embora o movimento possa acelerar as ambições internacionais do Nu, mantemos uma visão cautelosa diante dos riscos relevantes de execução, integração e alocação de capital envolvidos”, afirma a corretora.
Nubank quer abrir uma porta para o mundo desenvolvido?
Enquanto isso, o Citi enxerga mais benefícios estratégicos na eventual compra.
Na avaliação do banco, o negócio estaria alinhado à transformação do Nubank em uma plataforma financeira global e permitiria uma diversificação imediata para um mercado desenvolvido.
O Monzo também colocaria nas mãos do Nubank uma ampla base de depósitos em libras esterlinas e uma operação já estabelecida sobre a qual a fintech poderia aplicar seu modelo de crédito e sua tecnologia.
Mas essa mesma internacionalização criaria desafios. Integrar operações submetidas a diferentes regimes regulatórios e macroeconômicos exigiria mais gastos com compliance, controles de capital e uma estrutura de supervisão mais complexa.
“Embora o Monzo fornecesse a escala necessária para estabelecer o Nubank fora da América Latina, o sucesso da operação provavelmente dependerá da capacidade da administração de exportar seu modelo de custo operacional ultrabaixo por cliente para um ambiente bancário do G10 altamente regulado e com elevados custos operacionais”, avalia o Citi.
O preço importa (e muito)
A discussão, porém, volta para um ponto mais nevrálgico: quanto o Nubank estaria pagando para entrar no Reino Unido?
Considerando a faixa de 8 bilhões a 10 bilhões de libras, o Monzo seria avaliado entre aproximadamente 4,7 e 5,9 vezes a receita e entre 93 e 116 vezes o lucro antes de impostos projetado para este ano, segundo os cálculos dos analistas.
O negócio equivaleria ainda a algo entre 16% e 20% do valor de mercado atual do Nubank.
Isso representa um salto relevante em relação aos 5,2 bilhões de libras atribuídos ao Monzo na rodada de investimentos de 2024. Para efeito de comparação, o próprio Nubank negocia atualmente a cerca de 15 vezes o lucro anualizado do segundo trimestre de 2026.
“Essa avaliação deixa pouco espaço para que a tese dependa apenas do crescimento orgânico do Monzo; uma criação de valor relevante provavelmente exigiria que o Nu aumentasse a monetização e a rentabilidade da operação ao longo do tempo”, diz a XP.
Para Danielle Lopes, analista da Suno Research, caso os valores reportados estejam corretos, o Nubank estaria pagando caro pela operação.
“Quando pensamos em múltiplo de 6 vezes receita, ele já embute uma lógica de que precisa existir crescimento”, afirma.
Na visão da analista, o mercado pode estar reagindo justamente à combinação entre preço, complexidade e timing.
“O mercado entendeu que essa operação é um pouco mais arriscada e pode ser eventualmente cara. Além disso, eles estão expandindo a operação nos Estados Unidos, então pode ter uma composição de eles já estarem direcionando riscos em outras praças e atirando para várias vertentes ao mesmo tempo”, diz Lopes.
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