Sem espaço para otimismo? CFO do Santander (SANB11) faz alerta sobre rentabilidade e provisões
Diretor financeiro, Carlos Muñiz, mantém meta de ROE perto de 20%, mas admite que a travessia será mais longa; confira

"Pessoalmente, não estou otimista." Não é comum ouvir um diretor financeiro abrir espaço para um cenário pior. Mas foi exatamente esse o tom adotado por Carlos Muñiz, CFO do Santander Brasil (SANB11), ao comentar os próximos trimestres durante a teleconferência de resultados nesta quarta-feira (29).
Depois de divulgar um balanço que frustrou o mercado, o executivo afirmou que o banco ainda espera novas pressões sobre as provisões, indicando que a recuperação da rentabilidade deve ficar para depois do esperado.
"Se tivesse que colocar essa data, provavelmente estaria no começo de 2027 mais do que no fim de 2026", afirmou, em conversa com analistas.
CFO do Santander Brasil (SANB11) admite que a recuperação da rentabilidade deve esperar
A fala de Muñiz veio em resposta justamente à principal dúvida dos analistas: quando a estratégia de reduzir risco começará, de fato, a aparecer no lucro.
Segundo o CFO, ainda há uma série de fatores que impedem uma melhora mais rápida do retorno sobre o patrimônio líquido (ROE).
Além dos juros elevados e do ambiente macroeconômico desafiador, o Santander ainda precisará absorver os efeitos da atualização dos modelos de risco exigida pela resolução 4.966 do Banco Central.
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Isso significa que o banco ainda enxerga espaço para novas pressões sobre as provisões antes que a carteira de crédito reflita plenamente a estratégia mais conservadora adotada nos últimos trimestres.
"O novo cenário macro não estava aqui quando foi feito no ano passado e acredito que o que vamos ter que incorporar este ano vai ser pior do que o que temos agora. Então, não espero uma boa notícia e, provavelmente, teremos esse impacto no quarto trimestre", disse.
Apesar do provisionamento maior, Muñiz destaca que as novas safras de crédito já apresentam desempenho melhor. O problema, segundo ele, é que os efeitos positivos ainda demoram para superar o peso das carteiras antigas.
"O importante é que a performance real dos portfólios tem alguns sinais mais positivos. Não sei se vai dar para compensar todo esse impacto... Acredito que estamos fazendo as escolhas corretas e que, em algum tempo, essa conta tem que fechar."
A aposta do Santander: trocar rentabilidade por qualidade
Muñiz deixou claro que a qualidade da carteira de crédito passou a ser a prioridade absoluta da operação brasileira — mesmo que isso signifique abrir mão de crescimento no curto prazo.
"Eu gostaria de ter receitas bombando, mas, com as dúvidas que temos sobre o entorno macro, prefiro jogar um pouco mais seguro, mesmo se isso estiver custando no curto prazo."
Há alguns trimestres, o banco decidiu reduzir a exposição justamente às linhas de crédito mais rentáveis — e também mais arriscadas.
O Santander diminuiu a participação em crédito rotativo, empréstimos para clientes de menor renda e outras operações de spreads elevados, concentrando a expansão da carteira em financiamentos com garantia, crédito imobiliário, Pronampe, veículos novos e clientes de maior renda.
"Prefiro um banco chato e previsível do que surpresas", resumiu o executivo.
O problema do 2T26 não foi (só) a provisão
O ponto que mais incomodou os analistas no balanço do segundo trimestre não foi exatamente o avanço das provisões.
Boa parte do mercado já esperava um custo de crédito elevado. A verdadeira surpresa apareceu na margem financeira com clientes.
Ao explicar a deterioração do indicador, a diretora de relações com investidores, Camila Toledo, afirmou que boa parte da pressão veio justamente da mudança deliberada do perfil da carteira.
Hoje, o Santander cresce principalmente entre clientes Select e em operações imobiliárias, enquanto reduz a exposição aos segmentos de menor renda.
Nos últimos 12 meses, a carteira voltada ao público Select avançou cerca de 8%, enquanto a exposição aos clientes com renda inferior a R$ 4 mil caiu aproximadamente 30%.
Nas pequenas e médias empresas, mais de 40% da carteira já conta com algum tipo de garantia.
Essa mudança reduz naturalmente os spreads cobrados pelo banco e, consequentemente, pressiona a margem financeira no curto prazo.
"Estamos deixando de lado os produtos mais rentáveis", disse o CFO do Santander Brasil.
Segundo a administração, porém, o ganho aparece do outro lado da equação: um custo de crédito menor ao longo do tempo.
Santander deixa a disputa pela baixa renda para os rivais
Outro recado importante da teleconferência foi sobre o segmento de menor renda. Muñiz afirmou que o Santander não pretende competir onde acredita que outros bancos possuem vantagens estruturais.
"Temos dúvidas com rendas abaixo de R$ 4 mil. Provavelmente temos competidores que fazem esse negócio muito melhor que a gente", disse.
A estratégia passa a concentrar novas concessões nesse público apenas quando houver garantias — como o consignado privado.
Na avaliação da administração, a combinação entre juros elevados, maior endividamento das famílias e incertezas sobre emprego e programas de renda tornou esse segmento menos atrativo para o banco.
Meta mantida: rumo ao ROE de 20%
Apesar do discurso cauteloso para o curto prazo, Muñiz reafirmou que a meta de voltar a entregar um retorno sobre o patrimônio (ROE) próximo de 20% continua no radar — e deixou claro que a matriz espanhola segue pressionando por uma recuperação da rentabilidade.
"O grupo vai nos cobrar para que isso aconteça", disse.
Segundo Muñiz, três fatores devem sustentar essa recuperação: crescimento das receitas menos dependentes do crédito, captura dos ganhos de eficiência com inteligência artificial e digitalização e, principalmente, a normalização gradual do custo de crédito à medida que as novas carteiras substituírem as antigas.
"A combinação das três deve nos ajudar a mudar dos 12% para níveis mais perto dos 20%", projeta o CFO.
Para o executivo, as novas safras de crédito deixam a administração confortável com essa trajetória, e a expectativa é que 2027 já marque uma melhora mais consistente da rentabilidade. "O que não controlo é a velocidade de rotação do passado."
Dividendos continuam no radar
Mesmo com a rentabilidade pressionada, o Santander afirmou que não pretende alterar sua política de remuneração aos acionistas.
Muñiz manteve o compromisso com o payout próximo de 50% via juros sobre capital próprio (JCP), ainda que o valor distribuído continue condicionado à geração de lucro.
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