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Aposta agressiva em etanol de segunda geração, aumento dos juros, problemas climáticos e queda dos preços do açúcar ajudaram a transformar uma das maiores empresas do agronegócio brasileiro em um dos casos mais emblemáticos da crise corporativa recente

A Raízen (RAIZ4) nasceu gigante, e teve problemas da mesma proporção. Criada em 2011 como uma joint venture entre a brasileira Cosan (CSAN3) e a britânica Shell, entrou na bolsa de valores 10 anos depois. Em seu IPO, movimentou R$ 6,9 bilhões e foi avaliada em R$ 76 bilhões — valor bem distante dos R$ 638,7 milhões atuais.
Mas ela apostou forte para ser ainda maior, e com um tipo de combustível inovador. E esse foi um dos motivos de sua crise. Ela protocolou a maior recuperação extrajudicial da história do Brasil e agora tenta reerguer esse colosso.
"A Raízen teve um problema de timing. Teve uma expansão muito agressiva, com projetos de longo prazo, que coincidiram com problemas climáticos, que reduziram o caixa da empresa", afirma Marcos Praça, diretor de análise da Zero Markets Brasil.
Mesmo com os problemas financeiros equacionados, por ora, ela ainda enfrenta diversos problemas, do El Niño a juros altos e vendas de ativos. Será que o futuro ainda vai chegar para a empresa?
A Raízen decidiu explorar ainda mais os subprodutos de suas usinas sucroalcooleira e, em 2010, foi pioneira no investimento em etanol de segunda geração (E2G), que seria um dos combustíveis com menor pegada de carbono do mundo, 80% menor que a gasolina comum e 30% abaixo do etanol de cana tradicional.
Também investiu na geração de biogás, a partir da fermentação das sobras, e etanol sustentável para aviação (SAF), uma das indústrias que mais gera gases de efeito estufa no mundo.
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A tese de sustentabilidade, aliada a uma geração de receita extra, parecia uma boa ideia. Mas o problema é que esse combustível do futuro precisava de altos investimentos no presente.
Em 2023, o plano era de aportar R$ 25 bilhões até 2030, para a inauguração de 20 unidades de E2G. No início de 2025, recebeu R$ 1 bilhão do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
O tamanho e a agressividade dos investimentos, que os especialistas veem como uma característica de Rubens Ometto, presidente do conselho de administração da Raízen e da Cosan, cobraram o seu preço.
Esses investimentos foram feitos principalmente com emissão de dívidas — e os juros aumentaram exponencialmente nos últimos anos. No terceiro trimestre do ano safra de 2025/2026, o endividamento era de 5,3 vezes o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) ajustado, ante 1,9 vez em 2020.
A empresa não conseguiu viabilizar a operação do E2G na velocidade e no volume esperados, por atraso em algumas regulamentações.
Ao mesmo tempo, o etanol de milho também vem crescendo em participação, e já representa quase 20% de todo o mercado de etanol, aumentando ainda mais a pressão sobre o etanol de segunda geração.
Além disso, há outras empresas no setor de biogás que conseguem ser mais eficientes por aproveitarem resíduos para a geração, como a Orizon, que produz biometano a partir de aterros sanitários, uma fonte mais contínua de resíduos.
O preço do açúcar caiu nesse período, com a normalização de safras e estoques no mundo — o preço dessa commodity caiu de US$ 0,27 para US$ 0,14.
Nos últimos anos, o agronegócio enfrentou condições climáticas extremas. Em 2022, sofreu com geadas, uma seca histórica em 2023 e queimadas em 2024.
A cana-de-açúcar, principal matéria-prima da Raízen Energia, leva muito tempo para se recuperar depois de estresses climáticos, já que depende do rebrotamento da mesma planta.
Thiago Sinzato, analista de bioenergia da Rystad Energy, lembra que o plantio da cana-de-açúcar é diferente de região para região: colheita, replantio e fertilização têm momentos diferentes dependendo do local.
E, como a Raízen se tornou uma gigante, ela perde essa visão local e acaba tendo uma produtividade menor que as concorrentes.
Todos esses entraves se juntaram na caldeira de problemas da Raízen. No ano passado, chegou a vender 55 usinas de geração distribuída por cerca de R$ 600 milhões.
Em setembro de 2025, saiu da joint venture com a rede Oxxo, que passou a ser tocada apenas pela multinacional mexicana Femsa, maior engarrafadora global de produtos Coca-Cola.
Até fevereiro, os desinvestimentos anunciados representavam aproximadamente R$ 5 bilhões em caixa. Já na semana passada, anunciou a venda de suas operações de downstream na Argentina por US$ 1,42 bilhão — cerca de R$ 7,21 bilhões na cotação atual.
Ela não foi a única a sofrer: o Brasil vive uma onda recorde de pedidos de recuperação judicial e extrajudicial, e nenhum setor sofreu como o agronegócio.
Enquanto o mercado assistia a crise da Raízen ficar cada vez maior, a empresa teve sua classificação de risco cortada pelas principais agências de análise de risco: S&P Global, Moody’s e Fitch. A Fitch, inclusive, fez dois cortes no mesmo dia, com apenas sete horas de intervalo.
Com tudo isso, a conta chegou e trouxe um custo relevante para a empresa. A maior parte do prejuízo de R$ 15,65 bilhões no terceiro trimestre da safra 2025/2026 (3T26) veio de um impairment de R$ 11,1 bilhões, sem efeito caixa, da redução de valor de certos ativos da companhia de açúcar e etanol.
A empresa entrou com pedido de recuperação extrajudicial para renegociar R$ 64,7 bilhões em dívidas em março — seu endividamento total ultrapassa os R$ 73 bilhões.
Na semana passada, anunciou a adesão de 75,45% dos credores ao plano. O projeto contempla injeção de capital de até R$ 4 bilhões de seus sócios, mudanças no conselho e na diretoria, descontos na dívida e emissão de ações.
Uma das medidas é a divisão da empresa em duas: Raízen Energia e Raízen Combustíveis. Essa segregação deve acontecer até 31 de dezembro de 2027.
Ela deve vender ativos de energia, etanol e açúcar não essenciais e busca a entrada de um possível investidor na divisão de combustíveis.
A divisão ajuda a separar os riscos de cada negócio, diz Paulo Augusto do Prado, advogado especialista no setor de energia do escritório Fonseca Brasil Serrão Advogados.
"Quando você tem os riscos dos dois lados acontecendo, é muito pesado para a empresa", afirmou Prado.
Mesmo equacionada a situação financeira da Raízen, a Selic deve continuar alta no médio prazo.
Há outro risco no radar: El Niño. Os primeiros impactos do aquecimento das águas do Oceano Pacífico devem ser sentidos no segundo semestre e podem trazer ondas de calor intenso, temporais e secas severas.
O preço mais alto da gasolina, diesel e querosene de aviação, que poderia impulsionar a venda de etanol, está sendo segurado no Brasil por subsídios do governo.
A onda de carros elétricos também pode diminuir a demanda pelo etanol.
Apesar dos altos investimentos, os especialistas ainda são favoráveis à tese do etanol de segunda geração e biogás.
O E2G pode ter uma demanda grande na próxima década, acredita Sinzato. Isso porque há um debate na União Europeia sobre a redução no uso de biocombustíveis que ocupam áreas agrícolas que poderiam ser destinadas a plantio de alimentos, diz ele.
"A Raízen já entrará na próxima década preparada para essa demanda", diz.
Além disso, a empresa também tem potencial no segmento de biogás. A partir da Lei Combustível do Futuro, o gás comercializado deve ter uma mistura de biogás, que vai de 1% neste ano até 10%.
Uma dúvida é se os novos acionistas continuarão apostando nesses combustíveis. Isso porque, com a conversão da dívida em ações, os credores de CRAs ou debêntures se tornarão maioria na empresa.
"Vou gastar em uma tese inovadora, que pode ser boa para o planeta, mas usa um capital que poderia vir pra mim?", diz Prado.
Quando esses credores receberem suas ações, terão um período de lock-up não superior a 12 meses em que não podem se desfazer de seus papéis. Mesmo assim, no futuro, pode haver uma pressão vendedora.
Depois de apostar bilhões nos combustíveis do futuro, a Raízen precisa mostrar que este amanhã chegará antes do vencimento da próxima conta.
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