Fim da aposta internacional: Oncoclínicas (ONCO3) vende empresa na Arábia Saudita; o que aconteceu?
A operação da Oncoclínicas fora do Brasil já era vista com incertezas pelo mercado; a venda terá um valor de US$ 6,55 milhões

A Oncoclínicas (ONCO3) está tentando arrumar a casa. Depois de ativar o último recurso para resolver a dívida financeira estimada em cerca de R$ 5,1 bilhões com um pedido de recuperação extrajudicial, a empresa agora desiste da aposta internacional na Arábia Saudita. O negócio que nasceu como um sonho de crescimento e expansão fora do Brasil foi por água abaixo em menos de dois anos.
A história da rede de oncologia no exterior começou em agosto de 2024, quando a Oncoclínicas anunciou uma joint venture – que funciona como um empreendimento em conjunto – do outro lado do planeta: a SMTC, sigla para Specialized Medical Treatment Company.
O plano ambicioso era criar uma operação de tratamento oncológico na Arábia Saudita em parceria com a Advanced Drug Company for Pharmaceuticals, que faz parte do Al Fasaliah Group.
Na época, a negociação aconteceu pouco tempo depois da Oncoclínicas receber um aumento de capital de R$ 1,5 bilhão bancado pelo fundador e ex-CEO, Bruno Ferrari, e pelo polêmico Banco Master.
O objetivo com a rede na Arábia Saudita era investir entre US$ 10 milhões e US$ 20 milhões – cerca de R$ 101 milhões na cotação atual – em um período de três anos.
Mas nem deu tempo de chegar ao prazo que foi estipulado pela Oncoclínicas para o fim da aposta internacional aparecer.
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A venda foi comunicada pela companhia na última quarta-feira (22). Segundo a empresa, a saída da joint venture foi motivada por uma simplificação do portfólio, desalavancagem e concentração de esforços nas operações do Brasil.
Além disso, a rede destacou que a venda elimina riscos operacionais e cambiais que a internacionalização gera.
A venda da participação de 51% na joint venture será realizada para a outra companhia do empreendimento, o grupo saudita Al Faisaliah, que já detinha 49%.
O total da operação será US$ 6,55 milhões à vista, equivalente a cerca de R$ 33,37 milhões.
A operação no exterior já era vista com ceticismo
Em reportagem especial publicada pelo Seu Dinheiro ainda no início de 2025, a operação da Oncoclínicas no exterior já era vista pelo mercado com um pé atrás.
Um dos maiores obstáculos da empresa, na visão dos especialistas, é o foco maior em negócios externos – como a SMTC na Arábia Saudita – e menor atenção para as finanças.
A operação no exterior sempre foi bastante questionada pelo mercado por se tratar de um negócio que toma grandes investimentos e esforços, mas com muitos riscos de execução.
Quando a joint venture foi criada, a estimativa da Oncoclínicas era de uma receita potencial de US$ 550 milhões no quinto ano de operação, com um Ebitda (Lucros Antes de Juros, Impostos, Depreciação e Amortização, na sigla em inglês) da ordem de US$ 150 milhões.
A visão dos analistas já era bastante mista. De um lado, havia a oportunidade de atuar em um novo mercado. Já de outro existia o risco bastante elevado.
“Embora consideremos o investimento arriscado devido à nossa falta de conhecimento sobre o mercado-alvo, o desembolso do investimento é relativamente pequeno e não deve pressionar a alavancagem financeira. Além disso, com base nos valores fornecidos, o negócio é altamente agregador de valor, e o vemos como uma opcionalidade positiva”, avaliou a XP Investimentos na época.
O Safra fez uma avaliação semelhante. Para o banco, as operações ofereciam alguns benefícios potenciais, mas retornos altamente incertos.
Com a crise financeira da Oncoclínicas cada vez mais escalada, a companhia já sinalizava estar repensando a operação na Arábia Saudita.
Em que pé está a reestruturação da empresa
Na última semana (14), a Oncoclínicas entrou com um pedido de recuperação extrajudicial que poderá incluir uma série de medidas para tentar resolver a dívida bilionária da companhia. Entre elas estão:
- Capitalização da empresa pelos acionistas;
- Conversão de parte da dívida em ações;
- Substituição de parte dos débitos por novas dívidas;
- Alongamento do cronograma de amortização das obrigações financeiras.
A companhia afirmou que a recuperação extrajudicial não abrangerá as obrigações operacionais correntes com clientes, fornecedores e demais parceiros, que continuarão sendo pagas normalmente.
Como parte das medidas de reestruturação, a Oncoclínicas informou que rescindiu dois contratos de locação built-to-suit por meio de subsidiárias.
O primeiro envolve um imóvel localizado na Avenida Angélica, em São Paulo, que tem multa por rescisão estimada em R$ 76 milhões e foi incluída entre os créditos abrangidos pela recuperação extrajudicial.
O segundo refere-se a um projeto de hospital em Goiânia (GO). Nesse caso, a multa ainda está sendo apurada e permanece incerta e ilíquida.
Desde a entrada da ação ONCO3 na bolsa, em 2021, o papel derrete 96% e é cotado a R$ 0,61.
Nos últimos anos, o mercado passou a questionar a velocidade de consumo de caixa, a estrutura de capital e algumas decisões estratégicas adotadas pela empresa.
A entrada de sócios controversos, como o Banco Master, o aumento da alavancagem e as mudanças recentes no alto escalão contribuíram para deteriorar a percepção de risco em torno da companhia.
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