Citi perde a paciência com a Ânima (ANIM3) e corta recomendação após compra caríssima da FMU
O banco também reduziu as estimativas de lucro em 2026 e 2027 para a empresa

O mercado já não põe a mão no fogo pela Ânima (ANIM3) depois que a empresa decidiu queimar boa parte da confiança que vinha construindo nos últimos anos ao comprar a FMU. Agora, o Citi também perdeu a paciência com a empresa e rebaixou a recomendação dos papéis de neutra para venda, além de cortar o preço-alvo em R$ 3, para R$ 1,80 — potencial queda de cerca de 20%.
"A aquisição da FMU alterou fundamentalmente nossa tese de investimento", escreveram os analistas em relatório. Para eles, a Ânima deixou de ser uma história de desalavancagem e simplificação operacional para se tornar um caso de maior complexidade de integração e aumento da alavancagem, que deve atingir 2,7 vezes a relação entre dívida líquida e Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização).
O banco também reduziu as estimativas de lucro em 2026 e 2027 para a empresa. Agora, o Citi projeta que a Ânima registre lucro líquido de R$ 172 milhões em 2026 e de R$ 236 milhões em 2027, queda de 7% e 24% nas projeções, respectivamente.
O banco também prevê resultados fracos neste segundo trimestre de 2026. projeção é de crescimento de apenas 4% da receita, expansão de margem de apenas 25 pontos-base na comparação anual e queima recorrente de caixa de R$ 38 milhões, refletindo tanto o aumento da evasão quanto a sazonalidade tradicionalmente desfavorável do período.
A companhia divulga os números dia 14 de agosto.
Nem a boa fé dos controladores ajuda a Ânima
Para o banco, os riscos ainda superam os benefícios da operação, apesar do aumento da participação dos acionistas controladores, que sinaliza confiança no negócio. As sinergias da aquisição podem gerar valor no longo prazo, mas, por enquanto, não compensam.
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Isso porque o negócio principal da companhia já apresenta sinais de deterioração, com expectativa de aumento da evasão de alunos no segundo trimestre, ao mesmo tempo em que a integração da FMU adiciona riscos de execução e pressiona o balanço.
Mesmo após a forte queda das ações desde o anúncio da aquisição da FMU, os analistas afirmam que os papéis ainda não incorporam totalmente o impacto da operação.
Segundo as contas do Citi, a transação pode destruir cerca de R$ 387 milhões em valor, enquanto a perda de valor de mercado registrada até agora soma aproximadamente R$ 265 milhões. Para o banco, a menor visibilidade sobre os lucros e o risco de novas revisões negativas das estimativas devem continuar pesando sobre o desempenho das ações.
Por que o mercado não gostou da aquisição da FMU?
Na visão da Ânima, a aquisição fortalece sua presença em São Paulo por meio de uma das instituições de ensino mais tradicionais do estado, com cerca de 51 mil alunos, nota máxima no MEC e forte atuação nos cursos de Direito e Saúde.
A empresa afirma que a FMU chega após uma reestruturação financeira, com potencial para retomar o crescimento, e destaca que a operação ampliará sua base de estudantes em cerca de 15%, a receita líquida em 11% e reforçará sua presença no ensino a distância, com expansão de aproximadamente 60% na rede de polos e de 25% na base de alunos do EAD.
No entanto, o que o mercado viu (e não gostou) foi o valor pago pela faculdade: R$ 410 milhões, transação considerada "caríssima". Segundo analistas do BTG Pactual, ao considerar também a dívida de cerca de R$ 150 milhões da FMU, a aquisição passa a valer aproximadamente R$ 560 milhões.
A Ânima pagou um preço equivalente a cerca de 10 vezes o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) anual da instituição, um múltiplo considerado elevado para um ativo que passa por recuperação judicial.
"Isso representa um múltiplo elevado, bem acima das cerca de 3,3 vezes EV/Ebitdaem que a própria Ânima negocia atualmente", diz o relatório.
Segundo gestores de mercado com quem o Seu Dinheiro conversou, esse dinheiro poderia ter sido muito melhor alocado com uma recompra de ações ou até pagamentos de dividendos, dado que o ambiente de juros elevados também não ajuda.
Cabe lembrar que a Ânima passou por maus bocados após comprar, em 2021, a operação brasileira da Laureate, em uma transação bilionária durante um período em que os juros do Brasil estavam baixíssimos. As coisas começaram a piorar à medida que a taxa básica foi acelerando rapidamente logo depois, deixando a educadora em maus lençóis e uma dívida elevada.
Assim, ela vinha buscando reconquistar o apreço do mercado nos últimos anos com disciplina de capital e controle do endividamento, narrativa que se quebrou com a compra da FMU.
"Agora, o que todo mundo quer saber é se a empresa vai conseguir fazer a FMU decolar, resposta que só teremos daqui a alguns anos", disse um gestor ao Seu Dinheiro.
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