Com El Niño no radar, Fitch aposta em ‘tempestade perfeita’ para crédito do agronegócio; algumas empresas já entraram no radar de risco
Entre fertilizantes mais caros, seca, enchentes e pressão sobre as margens, a agência avalia que o segundo semestre pode separar as empresas mais resilientes das mais vulneráveis

O agronegócio na América Latina está prestes a enfrentar mais um teste de resistência. Na avaliação da Fitch Ratings, há uma tempestade perfeita no horizonte: a combinação de custos nas alturas devido à guerra no Irã e de um El Niño cada vez mais provável.
Segundo a agência de classificação de risco, esse combo deve elevar a pressão sobre o setor nos próximos meses, colocando margens, geração de caixa e crédito em xeque.
Depois de um período marcado pela queda dos preços de algumas commodities agrícolas e por margens mais apertadas, o setor agora precisa lidar com uma nova fonte de incerteza: a perspectiva de uma safra mais cara e potencialmente mais vulnerável a eventos climáticos extremos.
Na leitura da Fitch, o problema não é apenas o risco climático. O fenômeno ganha peso porque surge justamente quando o mercado global de fertilizantes enfrenta novas restrições de oferta associadas às tensões envolvendo o Irã, elevando custos em toda a cadeia produtiva.
"Empresas de agronegócio da América Latina enfrentam crescente pressão de crédito devido a um aperto na oferta de fertilizantes associado ao conflito com o Irã, enquanto a probabilidade crescente do El Niño apresenta riscos e oportunidades divergentes dependendo da geografia", afirma a agência.
O efeito do combo Irã-El Niño sobre o agronegócio
A preocupação da Fitch resulta de dois fatores que, juntos, criam um cenário ainda mais apertado para produtores e empresas da cadeia agroindustrial.
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De um lado, o conflito envolvendo o Irã elevou as incertezas sobre o abastecimento global de fertilizantes, pressionando preços justamente às vésperas da próxima safra.
De outro, a crescente probabilidade de um novo ciclo de El Niño aumenta os riscos climáticos em importantes regiões produtoras da América Latina.
Isso significa custos mais elevados para produzir em um ambiente potencialmente menos favorável para a produtividade.
Segundo a Fitch, fertilizantes e diesel representam entre 50% e 70% dos custos agrícolas. Por isso, qualquer choque relevante de preços tem impacto direto sobre as margens dos produtores.
Embora boa parte dos produtores tenha conseguido proteger sua exposição durante o primeiro semestre, o cenário para a segunda metade de 2026 e para 2027 parece mais difícil, na visão da Fitch.
"A escassez física pode forçar produtores a reduzir as taxas de aplicação de fertilizantes, diminuindo a produtividade das culturas ao longo da safra 2026/2027", afirma a agência.
Além disso, a Fitch destaca que os custos de transporte também avançaram, com fretes até 15% mais caros em determinadas rotas, ampliando a pressão sobre toda a cadeia produtiva.
O que esperar do El Niño no Brasil e na América Latina
Embora o aumento dos custos atinja praticamente toda a região, os impactos climáticos do El Niño tendem a ser mais diversos.
"A crescente probabilidade do El Niño adiciona complexidade e risco de crédito que se manifestam de forma diferente em toda a região", afirma a Fitch.
No Brasil, a agência vê um cenário de contrastes. Enquanto o Centro-Oeste pode enfrentar temperaturas mais elevadas e períodos de seca capazes de prejudicar algumas culturas, o Sul corre o risco de registrar chuvas acima da média e episódios de inundação.
Nos países andinos, como Peru e Chile, o excesso de chuvas pode afetar a produção de frutas e hortaliças, enquanto partes da América Central devem enfrentar condições mais secas.
Já a Colômbia aparece como um caso particular. O clima mais quente tende a favorecer culturas como cana-de-açúcar e palma, mas pode representar um desafio para a produção de café arábica, uma das principais commodities agrícolas do país.
Segundo a Fitch, esse caráter desigual dos impactos explica por que algumas empresas podem atravessar o período relativamente protegidas, enquanto outras enfrentarão pressão significativa sobre resultados e indicadores financeiros.
Quem pode sofrer mais — e quem chega mais preparado
Para a agência, o impacto final dependerá da intensidade e da duração tanto das restrições no mercado de fertilizantes quanto dos efeitos climáticos do El Niño.
Nesse cenário, empresas ligadas à produção de biocombustíveis aparecem entre as potenciais beneficiadas. Isso porque preços globais de energia mais elevados tendem a sustentar a demanda por etanol.
Já companhias mais expostas ao açúcar podem enfrentar um ambiente menos benigno, uma vez que o aumento dos custos de produção pode superar os ganhos obtidos com os preços de venda.
"Diante de um cenário geopolítico e climático ainda em evolução, a incerteza permanece elevada para o segundo semestre de 2026 e para 2027", destaca a Fitch.
Entre as empresas avaliadas pela agência, a Amaggi aparece entre as mais expostas ao cenário adverso.
A Fitch colocou a classificação de risco da companhia em Observação Negativa (RWN), refletindo uma combinação de fatores operacionais e financeiros.
Além da exposição ao Mato Grosso — região que pode sofrer os efeitos do El Niño —, a agência destaca que a recente aquisição de 40% da FS Bioenergia reduziu a margem de manobra da companhia para absorver novos aumentos de custos.
"Seus negócios agrícolas e de comercialização de grãos e oleaginosas em Mato Grosso estão expostos a custos de insumos mais elevados e às condições do El Niño", afirma a Fitch.
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Outras empresas de agronegócio no radar
A própria FS também aparece no radar da agência. Embora a empresa não cultive milho diretamente, o grão responde por aproximadamente 65% de sua estrutura de custos.
Por isso, uma eventual disparada dos preços da commodity poderia afetar a rentabilidade da operação. Por outro lado, a Fitch ressalta que o risco de abastecimento é relativamente limitado.
"O risco de volume é limitado, já que a produção de milho nas regiões próximas é consideravelmente superior à capacidade de processamento das plantas da FS", avalia a agência.
Na direção oposta, a Zilor aparece como uma das empresas mais preparadas para enfrentar o ambiente adverso.
Segundo a Fitch, a companhia combina baixa alavancagem com um modelo contratual que ajuda a proteger suas margens.
Os contratos de fornecimento de cana vinculam parte dos custos ao preço final do açúcar e do etanol, criando um mecanismo natural de compensação em momentos de inflação dos insumos.
Por isso, a agência vê a empresa em uma posição relativamente mais confortável para atravessar um período marcado por custos elevados, incerteza climática e maior seletividade dos investidores em relação ao risco de crédito.
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