Alliança Saúde (AALR3) em xeque: Fitch rebaixa rating para nível pré-calote, enquanto empresa tenta segurar pressão dos credores
Liminar judicial dá 60 dias de fôlego à antiga Alliar, enquanto empresa tenta negociar dívidas e evitar um desfecho mais duro

Os últimos dias foram particularmente movimentados para a Alliança Saúde (AALR3), antiga Alliar — e a reestruturação passou a ser acompanhada com maior cautela pelo mercado.
Em um intervalo de poucos dias, a companhia combinou mudanças relevantes no conselho de administração, a escalada de tensões com credores e novos rebaixamentos de rating que a colocaram a um passo do nível de calote.
Para o investidor, o cenário também segue apertado. As ações AALR3 acumulam queda superior a 30% desde o início de março e mais de 70% na B3 em 12 meses.
A dança das cadeiras no conselho da Alliança Saúde (AALR3)
O primeiro movimento visível dessa nova fase ocorreu no topo da governança: o andar de cima da Alliança vem passando por uma grande reformulação.
Após a saída do empresário Nelson Tanure do controle, a empresa passou por uma verdadeira dança das cadeiras no conselho de administração.
Nos últimos dias, nomes relevantes ligados ao investidor também deixaram suas posições como conselheiros, como o ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, e Pedro de Moraes Borba.
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Com as renúncias, José Luiz Mendes Ramos Júnior assumiu a presidência do conselho, passando a acumular a função de chairman junto às diretorias Jurídica, de Compliance e de Relações com Investidores.
Ao mesmo tempo, Ricardo de Magalhães Sartim assume duplo papel na estrutura da empresa, atuando como conselheiro e, simultaneamente, como CEO e diretor financeiro (CFO) interino.
- Leia também: Dívidas, perdas e pressão: Nelson Tanure deixa conselho da Light (LIGT3) em meio a polêmicas e investigações
Veja como fica a nova composição do conselho:
- Presidente do conselho: José Luiz Mendes Ramos Júnior;
- Conselheiro independente: Marcos del Corona Marcos; e
- Conselheiro: Ricardo de Magalhães Sartim.
A “nota C” da Fitch e o alerta de crédito
O diagnóstico das agências de risco ainda sinaliza um cenário difícil para a Alliança Saúde (AALR3).
A Fitch Ratings decidiu rebaixar o rating nacional de longo prazo nesta segunda-feira, de ‘CCC+(bra)’ para ‘C(bra)’ — apenas um degrau acima da inadimplência restrita (RD), nível de calote. Foi o segundo corte em poucos dias.
Para os analistas, a atual nota de crédito da empresa reflete um “risco de crédito excepcionalmente alto em comparação com o dos pares”.
O principal gatilho para o rebaixamento foi a decisão da empresa de recorrer à Justiça para suspender, por 60 dias, cobranças de dívidas enquanto negocia com credores.
Para a Fitch, a medida funciona como um “standstill” informal — uma pausa para reorganização financeira que, em muitos casos, antecede reestruturações mais profundas.
Os analistas avaliam que "a capacidade da Alliança de honrar o pagamento de suas obrigações financeiras está comprometida" e a medida cautelar é vista como o "início de um processo semelhante a inadimplência restrita".
A Fitch avalia que a Alliança Saúde “apresenta risco de insolvência iminente" — e os números ajudam a explicar essa percepção.
A companhia tem vencimentos de R$ 155 milhões ainda em 2026, enquanto seu caixa, ao final de setembro de 2025, era de apenas R$ 124 milhões — insuficiente para cobrir os R$ 295 milhões em dívidas de curto prazo.
Além disso, a agência não projeta geração de caixa livre neste ano e aponta incertezas adicionais, como a falta de clareza sobre R$ 532 milhões em mútuos registrados no balanço, que podem se transformar em passivos adicionais.
Outro ponto de atenção é a “baixa visibilidade” sobre os planos do novo controlador, o fundo Tessai FIP, da gestora Geribá Investimentos, que passou a deter 59,8% de participação na Alliança em fevereiro.
Segundo a Fitch, ainda não está claro qual será a estratégia do fundo para liquidez, capitalização e condução dos negócios — o que aumenta o risco percebido.
Há espaço para novos cortes na Alliança Saúde (AALR3)?
Na avaliação da Fitch, o cenário ainda pode se deteriorar para a Alliança Saúde (AALR3). A agência já avisou que novos rebaixamentos estão no radar caso a reestruturação não avance.
Entre os caminhos possíveis, está a classificação em ‘RD(bra)’ — que caracteriza inadimplência restrita — caso a companhia formalize um processo de renegociação mais amplo ou não consiga retomar os pagamentos após o período de proteção judicial.
Em um cenário mais extremo, um eventual pedido de recuperação judicial levaria o rating para ‘D(bra)’, o nível de default, ou calote.
A briga com a Siemens
A decisão da Alliança Saúde de recorrer à Justiça não veio por acaso. Segundo a empresa, o estopim foi a escalada de tensões com a Siemens, um de seus principais credores.
O conflito escalou quando a gigante alemã reteve mais de R$ 10 milhões das contas da companhia e ameaçou declarar o vencimento antecipado de dívidas por conta das mudanças no controle societário.
A situação, segundo a empresa, comprometeu diretamente seu fôlego financeiro, com a postura da Siemens "travando todo o fluxo financeiro" do grupo.
Além disso, o risco não era isolado. Segundo a Alliança, a chance de credores começarem a cobrar vencimento antecipado de contratos financeiros, que somam R$ 1,1 bilhão, cresceu.
Outros credores também já se movimentavam, como o Itaú Unibanco (ITUB4), que tentava bloquear cerca de R$ 4 milhões.
Nesse contexto, a liminar obtida pela companhia passou a funcionar como um verdadeiro “balão de oxigênio”. Por 60 dias, credores ficam impedidos de executar garantias, interromper serviços essenciais ou retirar bens fundamentais para a operação.
O objetivo é ganhar tempo para negociar uma solução mais estruturada — sem comprometer o funcionamento do negócio.
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