Dívidas, perdas e pressão: Nelson Tanure deixa conselho da Light (LIGT3) em meio a polêmicas e investigações
Recente execução de garantias ligadas a dívida de R$ 1,2 bilhão redesenhou posição do polêmico empresário na empresa de energia

Há pouco tempo, Nelson Tanure era uma das peças centrais da reestruturação da Light (LIGT3), em recuperação judicial. Agora, deixa o conselho da companhia após uma sequência de reveses que reduziram seu espaço no negócio.
Primeiro vieram as perdas silenciosas — participação encolhendo, garantias sendo executadas, ativos escapando pelas mãos. Depois, o protagonismo foi ficando para trás, diluído em meio a dívidas, disputas e investigações.
Agora, o desfecho: na quarta-feira (18), Tanure formalizou sua renúncia ao cargo de membro independente do conselho de administração da companhia.
O Seu Dinheiro tentou contato com o empresário, mas não obteve retorno até o momento de publicação desta matéria. O espaço segue aberto.
O pano de fundo da renúncia de Nelson Tanure
A leitura do mercado é de que a saída de Nelson Tanure da Light não acontece do dia para a noite.
Ela vem na esteira de uma sequência de eventos que enfraqueceram a posição do empresário em seu próprio portfólio — e que ajudaram a redesenhar seu papel dentro da Light.
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A origem desse movimento remonta a uma dívida de cerca de R$ 1,2 bilhão, ligada a financiamentos usados por Tanure na aquisição da Ligga Telecom.
Com a piora das condições financeiras, credores como BTG Pactual, Santander Brasil, além de fundos como Prisma e Farallon, avançaram sobre as garantias.
E não foi um episódio isolado. Meses antes, Tanure já havia sofrido um revés semelhante ao perder o controle da EMAE em outra execução de dívida, dessa vez conduzida pela XP Investimentos. Pouco depois, o ativo acabou nas mãos da Sabesp.
Se o enfraquecimento patrimonial já pressionava o empresário, o ambiente ficou ainda mais sensível com o avanço das investigações envolvendo o Banco Master.
Em janeiro, a Polícia Federal realizou diligências no âmbito da Operação Compliance Zero, que apura suspeitas de fraudes financeiras associadas à instituição.
Desde então, o nome de Tanure passou a aparecer com frequência no noticiário relacionado ao caso, incluindo relatos sobre sua proximidade com o banqueiro Daniel Vorcaro.
Mais recentemente, o tema voltou à tona após declarações de Vladimir Timerman no Senado nesta quinta-feira (19). O gestor da Esh Capital, afirmou à CPI do Crime Organizado que Vorcaro seria apenas a face pública do banco e que haveria “outros nomes por trás” do Master.
Vale destacar que esta não é a primeira vez que Tanure e a Esh se enfrentam publicamente. As disputas judiciais entre o empresário e Timerman, sócio da Esh, começaram em 2022, envolvendo participações em empresas como Alliar e Gafisa.
Em meados de maio de 2025, a Polícia Federal abriu um inquérito, a pedido do Ministério Público Federal (MPF), para investigar se Tanure seria o controlador de fato do Banco Master, após denúncias da Esh.
O começo de tudo: como Nelson Tanure chegou à Light (LIGT3)?
Quando a Light pediu recuperação judicial, em 2023, carregando mais de R$ 11 bilhões em dívidas e enfrentando problemas estruturais, poucos investidores estavam dispostos a assumir o risco.
Tanure viu ali uma oportunidade. Conhecido por investir em empresas em dificuldade, ele entrou no capital pouco depois do pedido de recuperação, via fundos ligados à gestora WNT.
A tese era comprar barato, participar da reestruturação e capturar valor na virada.
Em pouco tempo, virou um dos principais acionistas — chegando, com sócios, a deter até cerca de 35% da companhia em 2024.
Tanure não foi um investidor passivo. Assumiu assento no conselho e passou a ser uma peça central na governança da Light, especialmente durante o período mais crítico da recuperação.
A companhia avançou em um plano de reorganização que envolvia renegociação de dívidas, reequilíbrio operacional e a tentativa de garantir o ativo mais valioso: a renovação da concessão de distribuição no Rio de Janeiro.
A visão de longo prazo passava por uma “nova Light”, com investimentos bilionários e uma operação mais sustentável após 2026.
Mas, como em outras investidas do empresário, o caminho não foi linear. A estrutura acionária da Light se tornou um emaranhado de fundos, garantias e relações cruzadas.
Parte das ações sob custódia da WNT, por exemplo, estava ligada a outros investidores, como Daniel Vorcaro — uma relação que passou a ser investigada, embora Tanure negue irregularidades.
Ao mesmo tempo, o empresário expandia apostas em outras frentes — como telecom e energia —, frequentemente financiadas com dívida. E aí veio o ponto de inflexão.
Nelson Tanure: de protagonista da reestruturação à saída discreta na Light
No início de 2026, a engrenagem financeira começou a travar. Credores executaram garantias ligadas a cerca de R$ 1,2 bilhão em dívidas, movimento que teve efeito dominó sobre os ativos de Tanure.
Ele perdeu o controle da Alliança Saúde e viu sua participação na Light encolher de forma relevante.
O investidor que havia chegado como protagonista da reestruturação passou a ser, gradualmente, um acionista enfraquecido.
Dentro da Light, os sinais apareceram rapidamente. Executivos e conselheiros ligados a ele começaram a deixar cargos, e sua influência na governança da empresa diminuiu.
Em 18 de março, o que já se desenhava há semanas se materializou. Tanure apresentou sua renúncia imediata ao conselho da Light.
A expectativa é que ele se desfaça totalmente das ações restantes, encerrando de vez seu ciclo na companhia.
Segundo reportagens do InvestNews, Tanure formalizou sua saída justamente no momento em que a Light concluía a reestruturação de R$ 11 bilhões em dívidas com adesão de 99,6% dos credores e se preparava para a renovação de sua concessão por mais 30 anos.
Para viabilizar a renovação, a Light deverá estruturar um pacote de investimentos de R$ 12 bilhões nos próximos cinco anos, o que precisará de um aporte volumoso dos principais acionistas.
*Com informações do Money Times e do InvestNews.
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