Enfim, no azul: Ibovespa passa a registrar ganhos em 2020 pela 1ª vez desde fevereiro e vê topo histórico mais de perto
Principal índice acionário da B3 reverte baixa e agora acumula alta de 0,4% no ano, após disparada de siderúrgicas e alta de blue chips na sessão de hoje

Você se lembra do que fazia em 19 de fevereiro?
Eu tinha acabado de chegar ao Seu Dinheiro. Olhando para trás, dado que o mundo atravessou a maior pandemia em um século, é de dizer que parece haver muito mais do que 10 meses entre hoje e aquele dia.
Afinal, nos acostumamos a usar máscaras, passar álcool gel com uma frequência muito maior do que antes e ficamos em casa a maior parte do tempo como medida para frear a circulação do coronavírus — praticamente dando início a uma nova vida em questão de dias.
Os mercados financeiros globais, como vocês que nos acompanham por aqui bem sabem, também sofreram — e fortemente — os efeitos da pandemia, refletindo os seus impactos na economia mundial. Alguns se recuperaram mais rapidamente do que outros. No mercado de ações, os índices americanos se destacaram, renovando as máximas históricas mesmo em meio à crise. Esta não foi, durante a maior parte do tempo, a realidade do Ibovespa.
Hoje, esta história mudou um pouquinho. O Ibovespa ainda não voltou ao seu topo histórico, é verdade; mas, finalmente, apagou as perdas acumuladas no ano nesta terça-feira (15). A última vez em que isso aconteceu foi exatamente em 19 de fevereiro — na ocasião, o principal índice acionário da B3 subiu 1,34% e acumulava alta de 0,75% no ano.
O que acontecia então? O Carnaval ainda estava para chegar. E, bem, oficialmente, não havia uma pandemia reconhecida pela OMS (Organização Mundial da Saúde) — isto só viria um mês depois. O vírus sequer havia chegado à Itália, embora estudos de hoje apontem que o Sars-Cov-2 tenha atingido a península da bota no ano passado.
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Hoje, o índice acionário local fechou com ganhos de 1,3%, cotado aos 116.150 pontos — e já está vendo o topo histórico bem de perto, já que a sua máxima alcançada até aqui é de 119.530 pontos. Com isso, o Ibovespa agora marca alta de 0,4% em 2020. É um ligeiro avanço? Sem dúvida. Mas indica que a recuperação que atravessou o Ibovespa finalmente está completa.
Hoje, uma vez mais, as blue chips foram fundamentais para o índice retomar o patamar de 116 mil, nível que não era visitado também desde o mês de fevereiro.
Os grandes destaques ficaram para Ambev ON, Banco do Brasil ON, Itaú PN, Petrobras ON e Vale ON, que subiram ao menos 1% — as duas últimas ações reagiram, respectivamente, à alta do preço do petróleo e do minério de ferro no exterior.
Quem sobe, quem desce
Embaladas pelas boas perspectivas dos preços do minério de ferro negociado no porto de Qingdao, na China, repercutindo a grande demanda da indústria chinesa pela commodity, as ações de siderúrgicas ficaram entre os grandes destaques de alta percentual do Ibovespa hoje.
CSN ON (que subiu 3,2%) teve a recomendação elevada de neutra para compra pelo Goldman Sachs, enquanto o Morgan Stanley passou a recomendar compra para Gerdau PN (4,4%) — antes, tinha recomendação neutra para o papel.
[captacao]
As ações de Usiminas foram puxadas pelas outras duas do setor e avançaram 4% no fim do dia.
Enquanto isso, a ação da Lojas Americanas foi considerada a preferida do Morgan Stanley no setor de e-commerce e liderou os ganhos percentuais do índice.
Veja as principais altas do dia:
| CÓDIGO | EMPRESA | PREÇO (R$) | VARIAÇÃO |
| LAME4 | Lojas Americanas PN | 25,27 | 7,49% |
| CSAN3 | Cosan ON | 73,86 | 6,15% |
| HYPE3 | Hypera ON | 33,79 | 5,59% |
| RAIL3 | Rumo ON | 19,50 | 5,12% |
| CPFE3 | CPFL Energia ON | 31,93 | 5,10% |
A Cogna mantém o seu calvário no ano de 2020, em que sua ação perdeu 60% de valor. Depois de liderar as quedas do Ibovespa ontem, após nova projeção da companhia de que irá retomar o Ebitda de 2019 em 2024, Cogna ON voltou a registrar baixas hoje.
Confira as principais baixas do dia:
| CÓDIGO | EMPRESA | PREÇO (R$) | VARIAÇÃO |
| COGN3 | Cogna ON | 4,87 | -2,79% |
| FLRY3 | Fleury ON | 26,97 | -1,75% |
| TIMS3 | Tim ON | 14,39 | -1,51% |
| IRBR3 | IRB ON | 7,25 | -1,36% |
| MRFG3 | Marfrig ON | 14,13 | -0,98% |
Juros caem com ata, leilão e exterior; dólar recua
Os juros futuros dos depósitos interbancários (DI) recuaram com força nesta terça-feira (15), refletindo a ata do Copom, que reduziu o risco de uma alta de juros no curto prazo, mostrando um Banco Central confortável com a inflação corrente e, mais importante, as projeções para 2021.
No documento, o Copom disse que considera deixar de usar a prescrição para a trajetória da taxa básica "em breve", conforme o ano de 2022 ganha peso no horizonte relevante para a política monetária.
As projeções para 2022 estão perto ou exatamente no centro da meta nos cenários apontados no documento. Como mostramos aqui, a condição imposta pelo BC para a manutenção do forward guidance é de que as projeções para inflação fiquem “abaixo da meta no horizonte relevante”, e não “em torno da meta”.
Ainda que tenha sinalizado a possibilidade de retirar o forward guidance, o Copom destacou que isto não significa automaticamente uma alta de juros.
Além disso, o comitê também apontou que a aceleração recente da inflação é resultante de choques temporários e que as expectativas para 2021 também indicam uma folga em relação à meta.
"Com a inflação de 2021 ele está tranquilo, o ponto agora é que ele vai ter que aumentar o juro ano que vem de olho em 2022", diz Eduardo Velho, sócio e economista-chefe da gestora JF Trust, que vê chance de alta de juros no primeiro semestre do ano que vem.
Segundo Velho, o mercado reduziu para menos de 50% as chances de uma alta de 0,25 ponto na Selic em janeiro.
Ele também cita a fixação da meta fiscal em R$ 247,1 bilhões para 2021 como um fator que reduz a percepção de risco fiscal e afeta os juros dos DIs hoje, principalmente os de médio e de longo prazo — juros para janeiro/2025 fecharam na mínima, em queda de 0,12 ponto percentual.
O Ministério da Economia, no começo do ano, trabalhava com a possibilidade de uma meta fiscal flexível, mas foi proibido pelo Tribunal de Contas da União de seguir com essa ideia.
Segundo Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, o mercado estava muito dovish para 2021 e, após a semana passada, em que o BC mudou a comunicação e endureceu o tom sobre a inflação e falou de retirada do forward guidance, reagiu de forma afoita.
"Hoje, acho que devolveu um pouco disso", diz Vale, sobre a queda dos juros dos DIs. "O BC sinalizou que a mudança, ou seja, uma alta da Selic não será rápida, não será em janeiro, não será no 1º trimestre."
Além disso, novo leilão do Tesouro Nacional que ofertou — e vendeu integralmente — 1,25 milhão de NTN-Bs (Notas do Tesouro Nacional série B), títulos públicos com rentabilidade atrelada ao IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), também pesou sobre as taxas.
A leitura do mercado é que houve uma queda na oferta desses papéis após sucessivas ofertas de NTN-Bs, como a de 8 milhões no dia 3 de dezembro, que encontravam muita procura em um contexto de aceleração da inflação no curto prazo.
"Havia se ampliado a demanda por títulos indexados ao IPCA naquela ocasião com a aceleração dos preços em dezembro por conta da bandeira vermelha da Aneel", diz Breno Martins, operador de renda fixa da MAG Investimentos.
Segundo Martins, a oferta reduzida é também explicada pela liquidez reduzida do fim de ano, a inflação de curto prazo que deve arrefecer após o efeito da bandeira vermelha e o grande número de NTN-Bs "já inundando o mercado".
Um firme movimento de queda se viu nos juros para janeiro/2023 — o vencimento dos títulos oferecidos hoje é para maio/2023.
Veja as taxas dos principais vencimentos:
- Janeiro/2021: de 1,908% para 1,902%
- Janeiro/2022: de 3,03% para 2,94%
- Janeiro/2023: de 4,37% para 4,27%
- Janeiro/2025: de 5,95% para 5,83%
O dólar, de seu lado, voltou a cair, mantendo-se nos menores níveis desde junho.
A moeda recuou 0,7%, para R$ 5,0889, com a melhora da tomada de risco no exterior — índices acionários americanos subiram fortemente, ao menos 1%, hoje — e em meio ao seu enfraquecimento diante de moedas emergentes pares do real brasileiro, como o peso mexicano, o rublo russo e a lira turca.
A melhor perspectiva de risco nos mercados financeiros incentiva a continuidade de entrada de fluxo de estrangeiros na bolsa brasileira, o que reduz a pressão de demanda pela divisa. (Se esses estrangeiros vão continuar chegando ou não à B3 novamente, isso é outra história, como mostra o Ivan Ryngelblum nesta matéria.)
Comparado a rivais fortes, o dólar também conserva o seu posto fraco, ficando nas mínimas em mais de 2 anos e meio.
Hoje, o Dollar Index (DXY), índice que mede a força do dólar diante de moedas como euro, libra e iene, continuou a se enfraquecer, recuando 0,3%, para 90,46.
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