Mercados ecoam decisão de BCs
Fed e Copom agem dentro do esperado e BC brasileiro indica “ajuste adicional no grau de estímulo”

O mês de agosto começa com o mercado financeiro repercutindo as decisões dos bancos centrais dos Estados Unidos (Fed) e do Brasil (Copom) ontem. Ambos agiram dentro do esperado e reduziram suas respectivas taxas de juros em 0,25 ponto e 0,50 ponto porcentual (pp) - embora também houvesse argumentos para uma queda menor da Selic.
Mas enquanto o presidente do Fed, Jerome Powell, atrapalhou-se na coletiva de imprensa e não conseguiu explicar se o corte dava início (ou não) a um ciclo de queda, o comunicado do Copom não deixou dúvidas de que vem mais por aí, ao afirmar que o cenário permite “ajuste adicional no grau de estímulo”.
Ainda assim, o Comitê fez uma ressalva, enfatizando que essa avaliação “não restringe sua próxima decisão”. Mas a sinalização de que a Selic pode cair ainda mais neste ano, após renovar a mínima histórica para 6,00% ao final da reunião de julho, deve ser suficiente para aliviar o impacto da decisão do Fed, horas antes.
Com isso, a Bolsa brasileira deve se recuperar hoje da queda de pouco mais de 1% na última sessão do mês passado, afastando-se do limiar dos 100 mil pontos, e os juros futuros tendem a calibrar as apostas quanto ao ciclo total de cortes, que pode superar 1 pp até dezembro. Já o dólar pode sofrer pressão para cima, após ultrapassar os R$ 3,80 na véspera.
Afinal, se os juros norte-americanos não caírem mais e a taxa básica brasileira seguir ladeira abaixo, a atratividade no diferencial entre as taxas de juros pagas aqui frente ao praticado no exterior tende a ser menor, desvalorizando o real contra o dólar. Esse entendimento tende a trazer certo nervosismo aos negócios com moedas no curto prazo.
Corta ou não corta?
Ainda mais após as declarações confusas de Powell, na esteira da decisão do Comitê do Fed (Fomc) de reduzir a taxa dos Fed Funds para o intervalo entre 2,00% e 2,25%, no primeiro corte desde a crise de 2008. Durante a entrevista coletiva, o presidente do BC disse que a decisão de cortar os juros era apenas um “ajuste” no meio de um ciclo de política monetária e não sinaliza, necessariamente, o início de um processo de afrouxamento.
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A fala foi interpretada como um sinal de que não haverá novas reduções no curto prazo, jogando um balde de água fria nos investidores - e no presidente Donald Trump, que gostariam de ver o juro nos EUA ainda menor rapidamente, em meio à expectativa de suporte ao mercado financeiro por parte do Fed. Foi o suficiente para jogar as bolsas para baixo e fortalecer o dólar, enquanto o juro projetado pelo papel de dois anos (T-bill) subia.
Depois, ainda na sessão de perguntas e respostas aos jornalistas, Powell tentou contornar a situação, afirmando não ter dito que é “apenas um corte na taxa”. Segundo ele, não se trata de “iniciar um longo ciclo de cortes”, mas podem haver novas quedas. Porém, em um desastre absoluto, o presidente do Fed disse que também não se pode “assumir” que o juro nos EUA não vai mais subir de novo.
Enquanto a credibilidade do Fed derretia a olho nu, Powell tentava justificar sua fala nas condições ainda robustas da economia norte-americana, destacando o “aspecto de seguro” do corte nos juros promovido ontem e indicando que a próxima queda não será tão iminente. Para ele, a decisão de ontem visa apoiar o crescimento econômico dos EUA, que segue sólido, e evitar os riscos negativos, vindos, principalmente, da guerra comercial.
Para Trump, Powell, “como de costume, decepcionou”. Segundo o chefe da Casa Branca, o que o mercado queria ouvir de Jay e do Fed era que seria o começo de um “longo e agressivo” ciclo de corte de juros que acompanharia a China, a União Europeia e outros países ao redor do mundo. “Eu certamente não estou recebendo muita ajuda do Federal Reserve!”, disse, pelo Twitter.
Exterior sob pressão
O sell-off visto ontem em Wall Street, onde os principais índices de ações das bolsas norte-americanas fecharam em queda de mais de 1%, penalizou a sessão na Ásia. Hong Kong e Xangai lideraram as perdas, enquanto Tóquio teve leve alta, após Powell minar as esperanças de que o Fed está preparado para continuar cortando os juros dos EUA.
O fato de a decisão de ontem não ter sido unânime, com dois votos pela manutenção da taxa norte-americana, também pesa nos ativos. Mas os índices futuros em Nova York tentam se esquivar do sinal negativo e ensaiam ganhos nesta manhã, beneficiando a abertura do pregão europeu.
Em um movimento épico, em que o todo-poderoso Trump exige um corte no juro pelo Fed, o que se vê mesmo é o dólar negociado nos maiores níveis em dois meses. O iene sobe e o euro cai, ao passo que ouro cai mais de 1%. O petróleo também tem queda acelerada. Nos bônus, o juro projeto pelo papel de dois anos segue em alta firme, perto da faixa de 1,9%.
Passado o evento envolvendo o Fed, as atenções dos investidores seguem nas negociações comerciais entre EUA e China. Com poucos sinais de progresso concreto na mais recente rodada, em Xangai, realizada pela primeira vez desde o encontro do G-20, no fim de junho, as delegações de ambos os países planejam se encontrar novamente no início de setembro.
Mas uma solução para o conflito entre as duas maiores economias do mundo ainda parece distante. Na melhor hipótese, uma trégua tarifária temporária pode ser alcançada ainda em 2019, sendo que as principais diferenças, envolvendo tecnologia, tendem a permanecer. Além disso, o foco segue na atual temporada de balanços nos EUA, em meio à espera pelos dados oficiais sobre o mercado de trabalho (payroll) no país, amanhã.
Agenda segue forte
Mais um banco central decide hoje sobre os juros, desta vez, o BC inglês (BoE). O anúncio será feito logo cedo, às 8h, e será seguido de uma entrevista coletiva do presidente, Mark Carney (8h30). A previsão, originalmente, era de manutenção da taxa em 0,75%. Porém, após a decisão do Fed e diante dos crescentes riscos de um hard Brexit em outubro, o que derruba a libra, o BoE também pode se ver obrigado a agir.
Entre os indicadores econômicos, a agenda traz uma série de dados de atividade da indústria. A produção nacional em junho será conhecida às 9h e a expectativa é de queda, no confronto mensal, reforçando os sinais de retomada lenta e gradual da economia brasileira.
No exterior, logo cedo, saem as leituras finais de julho do índice dos gerentes de compras (PMI) do setor industrial na Europa. Também pela manhã, nos EUA, serão conhecidos o índices PMI e ISM da indústria de transformação no mês passado (10h45 e 11h) e os pedidos semanais de auxílio-desemprego feitos no país (9h30).
Na safra brasileira de balanços, destaque para os resultados financeiros da Gol, antes da abertura do pregão local, e da Petrobras, após o fechamento da sessão. Enquanto para a companhia aérea projeta-se um prejuízo líquido ao redor de R$ 20 milhões, para a petrolífera a estimativa é de um ganho robusto de quase R$ 10 bilhões em três meses.
Ontem à noite, a Vale decepcionou, ao encerrar o segundo trimestre deste ano com um prejuízo líquido de US$ 133 milhões, ante previsão de lucro acima de US$ 2,5 bilhões. Segundo a mineradora, o resultado ainda foi influenciado pelo impacto da ruptura da barragem de Brumadinho, em Minas Gerais. Foi o segundo trimestre seguido de prejuízo.
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